sexta-feira, 14 de maio de 2010

CLAUDIA



Aniversário tem desses paradoxos, a gente não avisa, mas quer ser lembrado.

E se avisa não tem graça receber parabéns. Parece jogada ensaiada. Parece caridade de esmola. Não há maior complacência do que festejar na hora em que se é avisado pelo próprio aniversariante.

Ruim é quando ele se antecipa, preenchendo cheques imaginários:
- Sabe que data é hoje?

É evidente que responderemos qualquer coisa menos o óbvio. O óbvio é o último a ser lembrado.

Todo pensamento esconde uma confissão. Uma de minhas melhores amigas, Claudia Tajes, estava trocando de idade. Não me lembrei porque não anoto e dependo de uma rede de amigos para dobrar a agenda.

A tragédia é que telefonei para ela no dia do seu aniversário para não falar disso. Pedi ainda um favor. Formal. Como se ela fosse uma operadora de telemarketing.

Não ligo sempre, mas inventei de apertar seus números logo na culminância de seu mapa astral. Não duvido que tenha sido na exata hora em que nasceu, quando Saturno belisca Júpiter.

Dói supor que ela atendeu com aquele ar misterioso de aniversariante, nem dizendo muito alô para não estragar a surpresa, controlando a respiração, sufocando as letras. Pois vivia um medo alegre, entendo; no aniversário, não conversamos, soletramos. Qualquer Silva é um nome estrangeiro.

Do outro lado da linha, ela planejava meus pulos, meus gritos de incentivo, meu arcadismo. E fui rápido, desconcertantemente seco, concretista, com pressa para pegar outro número de um conhecido em comum.

Por que não disquei um dia antes? A premonição é uma roleta russa.

Ok, estava em São Paulo, o que me mantém um pouco desligado de Porto Alegre, mas tive sinais que poderia encomendar o presente e me redimir em tempo hábil. Encontrei seu irmão Duda durante uma de minhas aulas. Não processei a informação:

Duda=Claudia=maio=aniversário

Talvez tenha ficado na segunda fase da operação. Vi seu livro "Louca por homens" na vitrine da Livraria da Vila. Não decifrei que era um telegrama para a delicadeza.

Ligar no aniversário desconhecendo o aniversário é encarnar um engano. Tudo é engano quando sabotamos a intimidade. O telefone deveria ser bloqueado para qualquer tema diferente. Não poderíamos receber cobrança, pressão do trabalho, muito menos linhas de crédito de banco.

Demorei tanto para comentar o que interessava que Claudia perdeu a esperança e desabafou que completava 47 anos. Triste, jurou que meu suspense era de propósito.

Veio a ânsia de bater o telefone na cara dela, coitada dela, coitado de mim. A vergonha me põe ofendido e aumenta a violência. Qualquer violência foi uma ternura desajeitada. A vergonha carrega nossa pior agressividade. Temos vontade de matar quem nos flagrou em erro. Só murmurei:
- Já ligo de novo.

Lavei a cara, tirei os três dedos de espuma da testa, e orquestrei a voz:
- Feliz Aniversário!!!!

Fui mais ridículo do que quando não recordava. No segundo telefonema, não tinha mais o que dizer a não ser soprar seus ouvidos. Soprar bem forte.

16 comentários:

daniela fernandes disse...

É realmente constrangedor estes momentos, mas quem nuca passou por eles precisam prestar mais atenção às suas amizades, pois se nem ao menos perceberam foram realmente indelicados. Confesso que fui avisada dos fatos quando me peguei neste infortúnio, mas sinceramente gostaria de não ter sido. É muico complicado tentar arrumar o mal-feito, consertar a amizade depois disso é como remendar um cristal, creio que não há desculpas que ultrapassem esse lapso de momento. Ainda bem que não cultivo muitos amigos, pois assim tenho poucos aniversários para lembrar.kkkk

Carolina Bataier disse...

até eu aqui, há quilômetros de distância, fiquei um pouco constrangida. mas, oh, acontece.

MaulRodrigues disse...

Constrangimento de verdade será quando ela ouber que andas a divulgar a real idade dela. Aquela belezura de 4.7 anos, isto é privilégio!

"Tudo é engano quando sabotamos a intimidade."
Brilhante, Fabrício!

BemBomAbraço
do Maul

Fabrício disse...

Isso é mais comum do que se imagina. Eu só sei o aniversário dos meus familiares e não me preocupo em anotar os demais, pois não verifico agenda e detesto alarme de celular.

Quanto ao constrangimento, os verdadeiros amigos perdoam a indelicadeza, já que conhecem um pouco as peculiaridades de quem os cerca.

Ótimo texto.

Anônimo disse...

mto legal o texto.. esse lance de aniversario e' legal e e' saco ao mesmo tempo-- e' mta pressure pra se lembrar de todo um mundo de gente q a gente gosta, ainda + se a gente quer ser "natural".

mas como disse alguem ai acima, essa belezura de 4.7 agora fica + imortaliza nas suas linhas, e isso e' o perdao dela a voce! :)

Todo pensamento esconde uma confissão. (como sempre, pedra preciosa flutuando ai...) Jan

Cacau disse...

Se te consola, te conto que meu aniversário é hoje. Assim, o constrangimento com a xará transforma-se em grata supresa para esta leitora esporádica que dá de cara com seu nome em título de post sobre aniversário justo neste dia especial! Para mim, foi meio que eum presente!
Muito agradecida, viu?
=D

Elen Cezar disse...

"A vergonha carrega nossa pior agressividade. Temos vontade de matar quem nos flagrou em erro." Perfeito! É verdade...

Por que você faz poema? disse...

Aniversário, para mim, deve ser uma lembrança alheia - uma surpresa que todos esperam. Quem organiza a própria festa de aniversário deve ter alguma carência.

Claudia Tajes disse...

Quem mais espalharia a idade das damas pelo mundo com tanta poesia senão o Fabricio? Eu, a tal Claudia do aniversário esquecido (que jamais disse quantos anos estava fazendo, mas o canalha sabia!), só posso agradecer a delicadeza do meu grande amigo e poeta preferido. Um texto assim é crédito para esquecer de todos os meus aniversários, por todas as minhas próximas encarnações. E constragimento nenhum, Fabricio. A gente só falou no assunto aniversário pra tu ter um motivo de ficar feliz pela vitória do Grêmio naquela noite de 12 de maio em que, casualmente e há tanto tempo, eu nasci. Muito obrigada pelo presente, gostei dele tanto quanto gosto de ti: muito-imensamente-demais. Até o dia 23 de outubro (e ainda consegui ser chamada de belezura, e adorei)!

Cida disse...

Viu como a Claudia levou na esportiva?

Que bom!

Quanto a mim, nunca gostei do meu aniversário, mas em compensação nenhum dos meus amigos se esquece dele. Afinal, "escolhi" nascer no dia 7 de setembro, e isso marca a gente como carimbo para o resto da vida...rsrs
Parabéns pelo texto Fabrício, e parabéns para a Cláudia também!

Tenha um ótimo final de semana

Cid@

Ramiro Conceição disse...

Cláudia
(embora não a conheça),
feliz aniversário poético!


SENSAÇÃO
by Ramiro Conceição

Sempre essa sensação…
de não saber escrever,
depois de ter escrito.
Nosso ancestral deve ter sido um rio sazonal,
repleto de histórias secas… e de enchentes.

Sempre essa sensação…
de não ter lido nada,
após tantas releituras.
Nossas mães devem ter sido estrelas
que brilharam… em super-novas.

Sempre essa sensação…
de ter amado pouco,
apesar do muito…

Nossos pais devem ter sido deuses perfeitos
que, imperfeitos, viraram filhos do homem
com essa sensação… (Porra, que saco!).

egosatira disse...

muito sublime pra ser real.

Tiago Medina disse...

Ao menos tu ligaste de novo.
Sempre se deve tentar ligar uma segunda vez.
Não dando certo, apela-se à palavra e ao texto.
A canalhice, às vezes, dá certo e consegue-se arrancar aquele sorriso enfim.

Lucas Bahia disse...

Ahhhhhhhhhhh..

Todo mundo deveria viver isso!
Todas as pessoas gostam de ser lembradas no aniversario, é so uma vez por ano e tal.. Mas é bem complicado, ainda mais hoje com tantas ferramentas virtuais para voce utilizar. Eu sou um esquecido de plantao e todos os meus amigos e familiares que me conhecem sabem disso. Por conta disso ja ganhei diversas agendas para nao esquecer...
Mas eu ainda ESQUEçOOOOOOOO hehehehe!!!

Suziley disse...

Hehehe...belo texto, muito bem escrito. Agora, sim, ficou registrado o aniversário de sua amiga, sem risco de esquecimento...hehe!! Parabéns!!! Bom dia, boa semana ;)

http://arslitterayelizus.blogspot.com

Gabriela Souza Gomes disse...

Eu ía dizendo que indelicado não foi esquecer do aniversário dela, mas revelar o número de suas primaveras. Mas ela se antecipou e eu tive que concordar: "Quem mais espalharia a idade das damas pelo mundo com tanta poesia senão o Fabricio?"

Beijocas, Fabro!