sexta-feira, 7 de maio de 2010

PACTO

Para o amigo Zé Pedro Goulart

Arte de Marc Chagall


Sou um desvairado. Aposto em casamento.

Mergulho em saideiras intermináveis na mesa de bar e apanho porque sou minoria. Meu chope tem colarinho de padre. É enlouquecedor convencer alguém que usa sua experiência. É como se a experiência fosse um argumento incontestável. Já reneguei muita lembrança que não me acrescentou em nada. Nem toda experiência ensina, que mania a de se vangloriar do passado apocalíptico e jogar na cara: eu vivi dois casamentos, sei do que falo. Faz favor, há coisas que vivo que apenas me tiram as palavras. Se alguém tem propriedade no assunto é Thiago de Mello, que casou trinta vezes, mais ninguém. Nem eu.

Amo casamento com todo peso da árvore feminina da família. Torna qualquer detalhe revelador, chance de traficar ternura na necessidade de comprar gás ou arrumar o portão da garagem. Perguntar que horas ela volta é uma preocupação comovente, de quem deseja ficar mais tempo junto. O que são os problemas perto da alegria de poder contá-los para sua mulher? O amor é simples, tão simples que fingimos sabedoria ao dificultá-lo.

Mas os céticos estão em vantagem. Eu é que sou o conservador. Defender uma relação fechada é hoje impronunciável, uma burrice. Acabo calado por vaias e ‘deixa disso’. Pareço um moralista, uma carmelita, um torcedor do América de MG.

Não aguento o pessimismo pré-datado. A gente entrega a indisposição nos medos mais óbvios.

"Se você me trair, promete me contar?"

A questão já coloca a infidelidade como certa. Contar ou não confessar passa a ser o dilema. Não se confia mais na fidelidade, mas somente na franqueza. Vamos adaptando os princípios. O mesmo é resmungar que o homem não é monogâmico, não adianta tentar. É aceitar que ele não tem escolha, de que se trata de um condicionamento biológico, uma maldição darwiniana.

Nem mais encontro vestidos de noiva em vitrine. Até os manequins estão solteiros. Casamento é posto como cativeiro, como subtração de direitos e multiplicação dos deveres. É uma felicidade passageira, de doente terminal. O matrimônio deveria abandonar o contrato. O contrato existe para terminar, resguardar o final e sair ileso. É proteção desde o princípio. Ao embarcar, já estamos reagindo às escolhas do naufrágio.

Casamento mudaria com a adoção do pacto. Isso: pacto! Por que unicamente o mal faz pacto? Um pacto do bem. Sei que há pacto com diabo, mas nunca vi pacto da virtude.

É usar o conhecimento siciliano. No pacto da máfia, realmente funciona a sentença "até que a morte nos separe". É o único lugar que a frase tem sentido. É sangue com sangue, mindinho com mindinho. Não se oferece o indicador de propósito, para valorizar as pequenas causas. A aliança tem que ser o próprio dedo. Não há como tirar o dedo no motel.

O pacto são dois num só apelo, diferente do contrato que é cada um por si. O pacto é palavra, o contrato é letra. A palavra é lembrança, a letra é cobrança. O pacto é confiança, o contrato é obrigação. No contrato, se pode sair a qualquer hora. No pacto, a saída é sempre pela honra.

32 comentários:

Leonardo B. disse...

[há um pormenor que escapa aos legisladores, inquisidores, e outros demónios doridos: casamento é composto químico de dois... mais exacto: de um+um=um... tudo o mais é anexo!.

Mas sendo a verdade tão volátil,...]

um imenso abraço, Fabrício

Leonardo B.

Deni disse...

ô, coitado!!!
rs, rs, rs
bjs

carlota disse...

Amei, e já propus algo parecido aqui, O CASAMENTO SIM, mais por amor, seria mais justo o juramento na frente do padre se os cônjuges dissessem: Sim eu prometo ser fiel aos meus sentimentos, na saúde e a doença, na riqueza ou na pobreza, etc, enquanto o amor nos unir, e respeitar-te até que o fim do amor nos separe!!

Anônimo disse...

Casamento é isso, estar juntos por querer estar e não porque um contrato te obriga a isso.
O amor tem que ser o motivo da longevidade, não um advogado.
Amo portanto não encarceiro a partir de um documento.
Belissimo o seu trabalho, parabéns.

juliana disse...

Apesar de tantos desencontros e falta de tolerância quando se fala em casamento, eu acredito e vivo essa união hoje em dia, mas sabemos que ela só segue adiante quando se ama, quando o defeitos do outro são menores aos nossos olhos.
Amei o texto.
Bjos Fabro!!

Fabiana Farias disse...

Eu acredito no casamento! No amor! Tô topando todas as miudezas do afeto que aparece no cotidiano, acho que alimenta muito mais. E se sou burra e carmelita fazer o quê! rsrsrs

Augusto Amato Neto disse...

Bravo!

Mais um texto da lista: COLOCOU PALAVRAS ONDE EU MESMO NÃO SOUBE COLOCAR NO QUE VIVI.

"No pacto, a saída é sempre pela honra."

Renata Bezerra disse...

Bonito. Quase me convenceu. Quem sabe da próxima vez, eu faça um pacto.

Paulo Ferrareze Filho disse...

Fala argonauta! Uma amiga de Passo Fundo viu uma palestra tua e disse que adorou, dizendo que tu dedicou um livro pra mim...hahaha Dai me indicou o blog e vim dar uma olhada, maravilha os escritos. Também escrevo, dá uma olhada no meu blog: www.entrehermes.blogspot.com

Cida disse...

Estou acreditando no meu casamento a exatos 38 anos, e posso lhe dizer: É bom demais poder acreditar, e principalmente ser feliz por tanto tempo assim.
O casamento tem que ser construido a cada dia, quem pensar o contrário, vai se dar mal.

Bom fds prá você Fabro

Cid@

Leandro Lima disse...

Demais!!

=D

Mulher de Fases disse...

Fabro,
Texto maravilhoso como sempre!
Adorei tb o post da Cida...'construir o casamento a cada dia'...é isso mesmo.
Mas fiquei cismada com o tal Thiago de Mello.Como pode uma pessoa casar 30 vezes??!!
O problema dele não é casamento é não se encontrar.
Acredito que se ele se entendesse conseguiria casar até 50 vezes mas com a mesma esposa, pq iso é que é o bacana.
Bjs

Mulher de Fases disse...

Um adendo:
" Eu quero mesmo é alguém que
me faça mudar completamente de opinião.
Que faça meu corpo querer companhia
nos momentos em que minha mente
insista pela solidão."
(C.F.A)
Fui!
Bjs

David Lima disse...

Engraçado que quando vim ao seu blog ler isso, tinha acabado de ter um papo, via skype, com meu amor. E minha mais premente vontade é casar com essa pessoa. E não sei porque eu tinha pensado nisso, antes mesmo de abrir seu blog, veio a palavra pacto de amor na minha cabeça. E quando abri isso aqui, fiquei sem palavras. Você nos traduz, sempre. E agora também adivinha pensamentos. Adoro.

kkerlley disse...

Já casei, separei, e ainda aposto no casamento sim. Adorei seu texto, postei-o no meu blog também. Repassar a mensagem para os que desacreditam. Abracos.

Apoena Míope disse...

Discordo em parte, o que me fez refletir bastante, algo sempre muito bom.
Parabéns pela postagem!
Abraço e sucesso

ROBERTA MARTINS disse...

eu tb acredito no casamento. dividir a vida com alguém é a maior prova de amor que existe, não pelo contrato ou cláusula, mas pelo prazer de não ser totalmente só.

Obrigada à Lua, Mãe Ancestral que nos ensina a Arte de Curar - Madre Del'Alma disse...

Muito boa sua colocação, faz com que se pense, e, hoje em dia, as pessoas estão com uma dificuldade tremenda, para parar, imagina pensar...
Concordo com você..."O pacto são dois num só apelo, diferente do contrato que é cada um por si. O pacto é palavra, o contrato é letra. A palavra é lembrança, a letra é cobrança. O pacto é confiança, o contrato é obrigação. No contrato, se pode sair a qualquer hora. No pacto, a saída é sempre pela honra."
Hoje, já posso me considerar um tanto experiente, nessa 'área de casamento'...rs
Estou no segundo, que diferente do primeiro, é baseado em pacto de virtude.

PARABÉNS!

Abraços

Stella ;D

Kelly Soares disse...

Oi Fabricio.
Quando me matriculei pra oficina de crônicas que vai rolar em SP (Tanta Ternura), comecei a acompanhar seu trabalho. Adoro seus textos e seu estilo!
Pra te conhecer melhor, encomendei seu ultimo livro (Canalha!) e quando fui buscar acabei escrevendo esse texto. Queria compartilhar com você. Também está no meu blog:
http://daumchegoaqui.blogspot.com/
Um grande beijo!
Kelly

A caminho da livraria. Depois de toda espera, vou buscá-lo. Ansiosa como quem tem saudade.
Pego e levo em meus braços saboreando minha posse. Sinto o cheiro, a textura das páginas e analiso sua estética,quase do mesmo jeito como quando vejo meu amado dormir.
Tem tanta gente aqui. Quero um tempo com ele. Quero um canto e um silêncio pra fazer amor com as palavras.
Vou andando orgulhosa e com a altivez de um jogador que fez o gol do título.
Ao chegar quero, de um jeito declarado, apreciar não só o conteúdo. Confesso, não sou puritana. Quero também apreciar sua forma e seu poder sobre mim.
Enfim, sós. Eu nem pedi (acredite) mas começou a chover. Há melhor cúmplice pra dois amantes que a chuva? Eu não conheço…
Não tenho muito tempo, pena, meu homem está vindo me buscar.
Ele que me entenda e me perdoe, mas hoje não é amor que quero.
É paixão leviana e incurável. É meu livro.

Luciana P. disse...

Sou casada há 20 anos e confesso que, hoje em dia, meu pensamento mudou muito acerca desse contrato. A liberdade fica comprometida por conta da tal fidelidade, aprisionam-se as vontades, rompe-se com os instintos e escurece-se a criatividade.
Contrato, pacto, tudo isso me deixa pensativa. Acredito que uma forma mais leve, nos dias de hoje, poderia ser tolerada, invewntada, pra que não precisássemos viver tanto a vida do outro e com o outro. A individualidade é essencial.

Muito bom o seu questionamento e os seus argumentos acerca desse assunto.

Beijos pra ti e ótimo domingo!

Vagner Vasconsa disse...

ES-PE-TA-CU-LAR!

Ana disse...

O texto foi revelando bem as palavras que eu conseguiria balbuciar ao pensar no assunto. Muito bonito. Mas o amor também não está nos moldes que se deseja. O ser humano não é determinado por um biológico nem nada, tem a capacidade plena de criar. Tem também a de se atrair, assim sem mais nem menos, por outrém. Fidelidade é uma questão dúbia. Mas sim, pacto é uma chave da questão.
Eu tenho o meu pacto. E meu amor. E esse texto parece que sussurra um pouco de minha história.
Obrigada. :)

Elaine disse...

Resumiu bem uma idéia que eu tive há um tempo atrás.
"Não basta um compromisso, vale mais o coração." (R. Russo)

ana disse...

O casamento é a grande aventura...

Sher disse...

Sou burra, carmelita... e todos os demais adjetivos que definem alguém que ainda acredita nos por menores maiores das delicadezas do dia-a-dia.

Guto Leite disse...

Gostei muito da crônica, Fabro. Cá pra estes olhos, de muito bom gosto, afiada, acertada e nos trinques (só mudaria a expressão "América de MG" por "América de Minas" e correria pra prensa). Obrigado pelo texto, grande abraço!

geovane belo disse...

Também sou um neanderthal quando o assunto é casamento. Ainda acredito no amor velado, cordato, que admite a fidelidade do outro como pacto, como se um pudesse dar continuidade a nossa vida. Somos antiquados, mas nossa esperança é filha inocente que ainda não aprendeu a namorar. Abraços

Anônimo disse...

Querido Carpinejar:

Faz algum tempo, houvi o seu nome por "aí", mas não me interessei pelo seu trabalho. Um tempo depois, tive uma certa curiosidade pelo teu (lúdico)"trabalho": li; gostei; mas gostei pela metade. Hoje, não só me interesso e gosto, mas também me permito o essencial - sentir; fui/sou tocado pela simplicidade. E graças a isso, hoje, consigo extrair a alma.
Parabéns!

Rubens Beheregaray

Anônimo disse...

Só uma correção acima: ouvi, e não houvi! Ouviu? Hehehe! Abração

Rubens

Luciana disse...

Concordo, não é experiencia valida se não houver envolvimento.

Daliana Antonio disse...

Ah Carpinejar... se aceitassem minhas propostas... mas sou muito sincera! Não acredito em conto de fadas! Não como Thiago de Mello talvez, mas estou disposta a casar para todo o sempre, quantas vezes rolar!

Katia Mota disse...

Concordo com vc Carpinejar...casamento é bom... com todas a bagagem que vem junto, casamento, filhos, casa, cachorro e papagaio. O que não é bom são os conceitos trazidos de gerações em geraçoes que fazem com que os casamentos sejam em suma uma proposta cheia de glitter para um precipicio da individualidade.

Hoje penso que um casamento pode sim dar certo sendo cada um um ser único e que foi exatemente isso que os atraiu. E que sim devemos adotar um Pacto... um acordo como costumo dizerm onde antes de começar é colocado tudo o que se é ou não tolerado. Mediante esse não há como fugir... já estava acordado antes do inicio. Parece frio, calculista eu sei, mas... as chances de dar certo são muito maiores.

bjão lindo texto.