domingo, 27 de junho de 2010

E QUE SE PONHA A ROUPA DO VENTO

Poema inédito
de Fabrício Carpinejar
Fotografia de Caio Vilela

O jogo é inventar a goleira
mais do que a bola.

Garagens são traves,
lápides são traves,
cercas são traves,
chinelos são traves.

O que pode ser levado
com uma mão,
adivinhado pelas pernas.

Postes de luz são traves,
placas são traves,
lixeiras são traves,
bancos são traves.

Marcar o chão numa linha imaginária,
daqui pra ali é o campo.
E o mundo não existe mais
fora do giz branco.

Um quarto está pronto a céu aberto.
Um quintal no meio da casa.
Uma rua cortando a praça.

Corra no jardim sonâmbulo,
pise a grama com raiva, raízes
são cadarços amarrados
nos tornozelos das árvores.

Há coices, quedas, uivos:
nada termina a vida,
essa explosão suspirada.

É um transe, a trave;
trânsito parado, feriado.
O defensor descansa
na tranca dos joelhos.
O pássaro voa de cabeça a cabeça,
descasca a chuva, espalha os cabelos.

A trave é montinho, formigueiro,
capuz de ciscos, ninhos.
Formigas transportam alimento
por dentro dos seus riscos.

Que seja capacete de moto,
um tijolo, um toco,
qualquer troco de mato e entulho.

Dez passos ao lado e uma altura infinita,
fazer endereço para receber cartas,
desenhar gol de letra.

Trave é o quadro-negro dos pés.
Caroço de brilho, queimadura de cometa.
Na praia, no calçadão, no descampado.
Tudo o que foi costurado pelo invisível
entre o corpo e uma porta.

Pedras são traves,
bambus são traves,
frutas são traves.
Até crianças são traves
para o adulto passar
de volta à infância.


Publicado na Revista Serafina
Folha de São Paulo
P. 18, Junho de 2010

9 comentários:

Batalhadora disse...

Caro,Carpinejar!Te conheci através da nossa querida conterrânea Martha Medeiros de tanto ela falar em ti, resolvi conhecer teu blog e nossa foi amor a primeira vista e desde então tenho acompanhado teus textos.Ontem comprei o meu primeiro livro teu Amor pra recomeçar espero que chegue logo para poder devorá-lo.Parabéns pelo teu trabalho e só posso te desejar ainda mais sucesso e felicidades sempre.Adorei teu jeito irreverente e apaixonado de ser, autêntico, ousado...
Beijosss

Kelli Pedroso disse...

Lindo, Fabrício!

Planeta Melancolia disse...

A super câmera na Copa do Mundo sela de vez que o futebol é mágica e poesia.

Por que você faz poema? disse...

Na vida, vivo acertando a trave.
Enfim, o poeta Carpinejar.

Crisneive Silveira disse...

Ele brinca, ele dança com a vida pelas palavras. ;D ADorei.

Ana Maria disse...

Ge-ni-al!!!!!!!!!!!!!!!

Alle disse...

Eu adorei, cheguei achar que ele tirou
a inspiração daqui:

http://www.youtube.com/watch?v=VQMlPSyZtos

Nicolas disse...

Genial!!! Isso é que ser um poeta que sabe brincar com as metáforas...

Espero que as metáforas e os poemas me inspirem sempre como inspiram à você.

Cristiano disse...

É esse o futebol que eu prezo, que eu rio, me divirto...