quarta-feira, 9 de junho de 2010

POTES DE REQUEIJÃO

Arte de Tereza Yamashita


Eu me dei conta que tudo é exercício para estar acompanhado.

Arrumar a cama, por exemplo.

Há gente que coloca o cobertor fincado internamente nas bordas do colchão, revelando índole possessiva e ciumenta.

Há gente que deixa o cobertor solto, mostrando desapego e sociabilidade.

Há gente que nem ajeita, denunciando solidão e independência.

Vejo um temperamento nas banalidades. Eu dobro o lençol como aba de envelope sobre o cobertor. Minha avó me alertou: “Cobertor é masculino, lençol é feminino”. Faz sentido: ambos estão casados, esperando nosso olhar (o que explica que a cama se encontra curiosamente aquecida algumas vezes).

Arrumo os travesseiros com delícia porque é um ânimo a mais para namorar. Caminho de um lado a outro, concentrado. Trocar a roupa de cama é sempre reinaugurar o quarto.

Transformo a disposição do tecido num bilhete de amor. Desde a minha infância. Sou uma palavra dentro, bordada.

A solidão foi meu laboratório. Minha dança com o espelho. Cada ato, cada gesto, cada atitude insignificante representava a preparação para receber alguém. Minha solidão é tão feminina: não estranho que Cínthya não tenha surgido dela.

Quando retirava o rótulo das cervejas na adolescência não passava pela minha cabeça que participava de um curso de noivo. Na época, aquela fixação das unhas na embalagem sugeria vadiagem. Aos colegas, cheirava como isolamento. Mas era uma antecipação, já cuidava para não me atrasar ao encontro.

As garrafas da boemia me ajudaram a descolar depois o papel dos potes de requeijão. As distrações são técnicas domésticas. Ninguém me bate na ciência de não deixar adesivo no vidro. Resta limpo, luminoso, um copo ileso na prateleira.

Os casais que moram juntos não entendem o quanto são felizes. Como é fácil selar a paz dormindo na mesma cama. Uma hora vão suspirar de ternura no meio da madrugada ou esticar o braço ao longo do outro corpo e recompor a distância.

Fácil, fácil, por isso a proximidade é desprezada.

Durante o namoro, é preciso avisar, marcar hora, entrar em acordo. A conversa segue um ritmo nervoso, um atentado violento ao pudor, que logo esbarra numa reclamação e suspeita.

Tanto que os namorados, ao se encontrarem, não têm direito de trabalhar ou se isolar em seus passatempos. É um insulto. Compreendido como um desinteresse. Um dos dois se enxergará preterido, seja pela televisão, seja pelo computador.

Os casados não aparecem, estão lá, com a chance permanente de comover.

O corredor é o pressentimento do abraço. Não há urgência em finalizar um assunto, nem a obrigação de ser amoroso. É bater papo com ela enquanto toma banho, é servir café para brindar os dentes, é arrumar suas coisas para ganhar tempo.

Os casados estão despertos ao cuidado. Será simples surpreender, basta reparar que acabou a granola dela e trazer um novo pacote do mercado. Com certeza, os grãos formarão um buquê na xícara.

No namoro, qualquer mimo é previsível, uma chantagem. No casamento, toda lembrança é inesperada, uma gentileza.

Não coloquei nada fora em mim porque poderia usar como enxoval no futuro.



Crônica publicada no site Vida Breve

25 comentários:

Fernanda Crancio disse...

Lindo, Fabrício! Nada mais poético do que o cotidiano, certo? Pena que tantas pessoas resistem em compartilhá-lo!

Anônimo disse...

Adorei!

Tati.

Luana Gabriela disse...

Fabrício minha cama denuncia a solidxão e a independência. Espero encontrar alguém que ajeito o cobertor solto, e o lençol pra dentro...

Bjos

ana emília disse...

Muito legal e se aplica com perfeição aos começos de casamento. Com filho a coisa muito um pouco. Vou comprar teu livro novo hj ;)

disse...

Só quem possui essa delicadeza na essência é capaz de perceber que quando compartilhamos a vida com uma outra pessoa a grande declaração de amor não está nas datas transformadas em eventos memoráveis, nos presentes caros que quase soam como uma obrigação e sim nos detalhes mais singelos.

Fabrício disse...

Mais uma vez perfeito!

Abraço!

Carmem Gomes disse...

São nos pequenos mimos que se baseiam os grandes relacionamentos. Beijosssss

Renata de Aragão Lopes disse...

"Vejo um temperamento nas banalidades."

Lembrei-me do livro "Banalogias",
que li por indicação sua e adorei!

Beijo,
doce de lira

Suziley disse...

O quarto é um templo sagrado..hehe..muito lindo o seu texto, com humor, graça e sentimento. Parabéns!! Um bom dia, boa semana ;)
http://arslitterayelizus.blogspot.com

Márcia Luz disse...

Texto lindo, sincero, delicado... Sempre gostei de camas arrumadas com zelo e cuidado. Sempre gostei de adesivos totalmente tirados dos vidros. Quão importante pequenas coisas que a outros olhos nada significam!...
Um grande abraço.

Fernanda disse...

"No namoro, qualquer mimo é previsível, uma chantagem. No casamento, toda lembrança é inesperada, uma gentileza."
A convivência ao mesmo tempo que fortalece, fragiliza.
Faz crescer os laços e enfraquece os cuidados.
Engraçado...
Ótimo texto, mais uma vez!

nicole disse...

adoreeeeei tua crônica!!! das mulheres ciumentas e tal..muito boa,me identifiquei muito! paaarabénsss
valeeeu

Sole disse...

Fiquei encantada com esse texto. Quando casada eu via assim o dia a dia, pena que o ex-marido deixou de ver 'buquês de granola' antes de mim. E eu tinha deixado isso de lado sabe Fabro? Mas ando voltando a ver 'buquês'. Um beijo pra vc e pra Cíntia.

Sô ^^

Anônimo disse...

LINDO LINDO O TEXTO! Amei todo ele...
"Há gente que nem ajeita, denunciando solidão e independência." e, "Ninguém me bate na ciência de não deixar adesivo no vidro. Resta limpo, luminoso, um copo ileso na prateleira."

Jander

IsaBele disse...

Demais!

Leandro Lima disse...

Textão! Ainda espero uma banalidade dessas...

Obs.: Tomara que a Cínthya te mate!!

Abraço!

Anônimo disse...

Fã, sempre fã ! Adorei me encontro nessa ae, kkkkkkkk

Amanda Lavor disse...

seus textos tocam PROFUNDAMENTE meu coração. obrigada.

Lica disse...

Vc me fez lembrar do fim do meu casamento, apos 4 anos juntos ele foi ao mercado para comprar frios para mim e trouxe presunto.....eu nao como carne!!! Pequenos detalhes...

Larissa Pujol disse...

Colega poeta,
Quão eternizados somos nós... Poetas de múltiplas facetas que vivem e sonham no lugar de muitos viventes sedentários na realidade ou viventes transeuntes em sua própria verdade. Cabem em nós todos os tamanhos de roupas, os muitos sexos, as doenças e as ressurreições. Não temos altura, tampouco o peso d'um universo, ah, mas este mundo redondo, vou te contar...
Felicidades, meu caro.
Abraços da poeta.
Larissa Pujol Corsino dos Santos.

Marga Dambrowski disse...

Delícia de texto, Fabro!
Os grãos formarão um buquê na xícara? Me esparramei aqui mais do que leite derramado. :)

Beijos!

J. disse...

Gostei muito. Ainda mais por pensar que não estou só em tirar os rótulos das coisas.

Jolubasa disse...

Inspirador! Em alguns casos, estar casado não se faz necessário. No meu caso, eu vivi esses momentos em partes fragmentadas de um namoro. Ainda assim, a identificação com seu sensível texto é fato.

Parabéns!

Maria disse...

Amei teu texto, me identifiquei um montao! Somos karlos e eu um casal de amor à primeira vista, de ir morar juntos depois de um mes de namoro. Fizemos dois meses de vida em comun, desfrutando das alegrias da vida de casados e como você bem disse dos nervos e pequenas ansiedades dos tempos de namoro! Ele viajou a trabalho por tres meses, choramos como bebês desmamados... Surpresas da vida, pensei que jamais viveria algo assim. Um regalito do universo para os dois! Obrigada por teu texto tao simples e sensible, directo ao grao! Uma celebracao ao amor!

Lou Vilela disse...

Aqui, a poesia surge nos mínimos vãos e surpreende do começo ao fim. ;)

Abraços,
Lou Vilela