sexta-feira, 25 de junho de 2010

MINHA VIAGEM É PELA CASA

Arte de Giacometti

Aceito a caretice. Extraviei o ânimo para camping. Nada mais desalentador do que espiar o dia por um zíper. Numa oca de pano. Acordar agachado e seguir com a impressão de que fui abandonado toda noite num porão. As costas reclamando da proximidade com a terra e a boca protestando pelo café morno.

Gastei a juventude procurando Woodstock. E só encontrei a lama.

Acampar é trabalhar o dobro para evitar trabalho. O que se desperdiça na preparação e na antecipação dos problemas nunca será recompensado durante a estada.

É aguentar a falta de água quente, conviver em filas de banheiro, rir de piadas sem graça para arrebatar a cumplicidade de estranhos e eliminar o medo de que algum deles seja um psicopata. Nem acredito que percorri 200 metros com um rolo de papel higiênico nas mãos, com cara de Sonrisal, cumprimentando as pessoas para despistar a necessidade.

Não me contento com a precariedade de festejar uma tomada ou uma lixeira.

Larguei o movimento estudantil na primeira excursão. Desertei de um Congresso do DCE. Já tinha pavor de pedir carona, sofri com a ideia de mendigar um colchonete.

Não lembro nenhum amigo descrevendo experiências prazerosas. O hábito é expor tragédias. Os mochileiros ajudam meus argumentos. Cometem o elogio do masoquismo e das privações. Talvez seja uma mania preventiva, arrumar histórias de superação na adolescência para se vangloriar na velhice.

Soa como miragem. É o mesmo que dizer que é inesquecível transar na areia da praia. Isso é para quem não conhece o Nordestão da orla gaúcha.

Acampamento é um internato voluntário, um serviço militar opcional. Armar barraca, carregar mochila com tudo socado, caminhar oito quilômetros, subir nas pedras, lascar os joelhos, para morrer de frio no topo do monte. Uma hora de caminhada para cinco minutos exclamando o pôr do sol e se convencendo de que a vida é linda perto da natureza.

Sou viciado em janelas, gavetas, guarda-roupa, travesseiros. Minha aventura é mexer nos botões do controle remoto. Procuro o conforto, não o luxo, a quietude das coisas em seu lugar, uma toalha de renda e um vaso de flores me dizendo onde é o centro da casa. Uma sala cheirando a livros e um quarto impregnado do aroma feminino.

Já sobrevivi a enchentes em Santa Catarina, já madruguei inchado de mosquitos em Mato Grosso, já perdi metade dos objetos e aparelhos por distração em Alagoas.

Não venha alegar que me acomodei, é gosto pessoal desde que minha avó colocou bolsa de água quente debaixo das cobertas na infância. Prefiro um quarto aquecido, uma cama fofa, e me recuso a dormir ao relento observando as estrelas. O romantismo morreu de pneumonia.

As viagens não me ensinaram a partir, apertaram a saudade e a vocação para voltar.

Não tomei jeito, não fiquei econômico. Não aprendi a fazer uma mala compacta e escolher o que devo levar de essencial e dispensar o que não será usado. Ela está cada vez maior. Com o superficial mesmo. Transbordando inutilidades. Pago excesso de bagagem, mas estou sempre prevenido para o sequestro. Desejo contar com várias opções de roupas para acompanhar a mudança do humor. Vá lá que esteja amarelo e tenha somente verde, vá que desperte vermelho e tenha somente branco. Há dias em que sou demônio, outros dias pai de santo. Continuo sendo o mais lento no detector de metal. Não deixo de botar o cinto porque ele vai apitar. A cintura está amarrada em minhas convicções.

A única barraca em que entro é a do meu filho debaixo da mesa.

Publicado no jornal Zero Hora
Editoria Geral, p.2, 25/06/2010 Edição N° 16377

18 comentários:

Leni disse...

HEHEHE
Acampar, minha preferida 'brincadeira'. Vá até cambará do Sul, neste inverno de rechar, -10°C acampando no Cafundó, literalmente cafundó, fim do mundo, lugar onde nem luz elétrica tem. É meu sonho neste inverno! Arrisque-se, é tentador. Nada de masoquismo, é paixão.

Jaci*Marcela disse...

Muito legal. Gosto dos seus textos. Terra Gaúcha não conheço presencialmente, mas o que sei por palavras já me encanta.

Contos de F. disse...

Nossa! Muito obrigada pelo respaldo!

Bárbara Lino ♥ disse...

Nunca acampei, mas é algo que desperta minha curiosidade. Um dia vou!
E sobre as malas e os supérfluos que se leva, bem, como você mesmo disse, é para que acompanhem o humor. E antes levar a mais, que a menos. *=)

Fabrício disse...

Muito bom!! Mas veja o lado bom: se não tivesses ido acampar, não terias respaldo fático para este texto. hehehehehe

Abraço!

Apoena Míope disse...

Além do kit sequestro, não se esqueça nunca do bolsa-ladrão.

Sempre acompanhando, hoje concordando, por ser quase idêntica, neste caso, a você (gemelares separados na maternidade ou pela diferença de idade?).

Abraço, Carpinejar!

Nadia disse...

Ah, Fabro
Conheci o pai de minha filha quando conversava apaixonadamente sobre um acampamento e eu muito convicta disse: "vocês devem estar loucos, bom mesmo é hotel, lençol com cheiro de limpinho e banho á gás"...No nosso namoro, por que a paixão é como um surto, fui bem feliz em barracas, mas hoje refeita e com a coluna bem mais frágil, volto a ser a Nádia lucida...concordo contigo plenamente!
beijo
N

Mary_Flor disse...

Acampar, algo qu escolhi pra mim e pra minha vida, devido a minha profi~ssão (bióloga)
Esses acampamentos da vida, dão cada história...
ótimo texto Fabrício.
Sou uma baita fã tua!
Te add no twitter!
BEIJOS

Ramiro Conceição disse...

A minha viagem também...
Aliás, eis o soneto que fiz
ao pensar-sentir sobre o seu
"O Vestibular da Fossa".


SÉTIMO DIA
by Ramiro Conceição


No fim do amor, desvencilhar-se
é um amargor - que não se sabe.
É um silêncio com muito – pouco.
É aquela alegria… de um louco.

Relê-se tudo que havia dentro.
Contudo, onde ficou o centro?
A tristeza fantasia a alma.
A batucada… Não acalma.

A dor de amor é a descriação,
um sétimo dia sem descanso,
de um deus, sem imaginação.

O amor da dor é um muro,
um pesadelo, um remanso,
de uma bandeira…de luto.

Sônia Silvino disse...

Carpinejar, meu querido!
Amei o teu blog e destaco esse texto, pois acampei durante muitos anos na minha vida. Desisti de sofrer e de passar trabalho. Teu texto está perfeito. Li para o meu marido, pois ele não se conforma por eu não acampar mais. Dei meu grito de liberdade há alguns anos quando enfrentamos mais um temporal em Torres.
Sou louquinha por blogs: tenho 20! Será um grande prazer para mim se me visitares! Aliás, será uma grande honra!
Te sigo! Parabéns pelo teu trabalho como escritor!
Bjkas, muitas!

Cida disse...

Concordo plenamente com você!

Só acampei uma vez, e não quero nunca mais!!

Além do frio (era inverno, e estávamos acampados ao lado da represa de Furnas) - de madrugada ouvimos passos rodeando a barraca... e só quando tomamos coragem para abrir o zíper, é que ficamos sabendo que se tratava de uma vaca, que se assustou tanto ao deparar com a cabeça do meu marido saindo de dentro da barraca, que até hoje deve estar correndo...rsrsrs

Também não sou chegada a luxo, mas AMO o meu conforto.

Abração prá ti Fabro

Cid@

Ana Claudite disse...

Oi, Fabrício.

Adoro seus textos. Virei seguidora hoje, mas tem um tempinho que acompanho.

Este é o primeiro texto que não concordo com suas idéias.Rsrsrs. E daí? Nada. Só que, quem esta falando é uma pessoa que conheceu vários lugares lindos acampando.

O dinheiro é curto, então prefiro, ficar em acampamento. O dinheiro que gastaria com pousada eu vou a bons restaurantes, bebo mais cerveja...

"Acampamento é um internato voluntário, um serviço militar opcional". Sinceramente?! Nada a ver.Pra mim é um prazer. Só tenho boas histórias.

Lembrei-me de um texto de Luís Fernando Veríssimo. Que ele tem as mesmas idéias suas.
Não vou lembrar o nome.

Fica um beijo.

Ana Claudite

A viajante disse...

Engraçado observar o ponto de vista alheio.. o seu tão peculiar quanto o que escreve, me fez repensar na citação: as viagens não me ensinaram a partir... penso justamente o contrário. Fico em comichão esperando o próximo roteiro, a novela para arrumação das malas, e o prazer de aportar num espaço novo, conhecer gente nova, conhecer a comida do novo lugar para escrever, que precede ou sucede a cada viagem que faço. Mas acampamentos são todos descartáveis em minha bagagem. Dormir bem, em lençóis macios (com direito a ar climatizado, em boa cia) é tão bom quanto ouvir aquela música predileta, do nada, tocando no rádio...

Paula disse...

Olha, eu tenho uma larga experiência em acampamentos e concordo com todas as descrições feitas por você, Carpinejar, principalmente com aquela das costas reclamando da proximidade com a terra. Mas pior, mesmo, é a questão de compartilhar o banheiro. Nada mais necessário que um banheiro limpinho, com água quentinha, em total privacidade. Antes, eu adorava acampar, mas agora, não sei o que aconteceu comigo, talvez esteja mais velha ou mais fresca, só sei dizer que acampamentos, nem pensar.

Maria Tereza disse...

Tb detesto acampar, exceto a cabana da infância com a maior colcha da casa, no meio da sala de TV! =)

Vladi disse...

Bwem bom o texto. Mas o que seria a poesia e outros, se não um cabaninha de lençóis num quarto de apartamento, uma tenda colorida bem no meio da realidade concreta, uma barraca canadense do exército da salvação no meio de um efadonho cotidiano, um circo armado ao lado do shopping, um saco de dormir no telhado de um edifício ou um treiler com água encanada no meio de um deserto?

Valéria disse...

Ai meu Deus, ADOREI! Todo mundo diz que sou fresca, mas é só uma questão de gosto!

VALEU!

Andrea disse...

Acampar..... nao da. Nao sou deslumbrada com luxos mas o comforto e essencial a saude. Meu corpo pede uma cama macia e uma ducha bem quentinha pela manha, uma xicara de cafe e um jornal impresso com letras garrafais estampado com a tragedia do dia.