sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NÉCESSAIRE

Arte de Robert Motherwell


Coitada da minha filha. Talvez a mais perigosa manifestação de ciúme seja a do pai diante de sua menina. Porque não é um ciúme óbvio, amoroso, reversível, de casal, que ficamos envergonhados no momento em que sentimos; podemos brigar, quebrar pratos e exorcizar as fraquezas.

É dissimulado, autoritário, inconsciente, orgulhoso e certo de que não é ciúme, mas cuidado. E o outro lado não será a esposa ou a namorada capaz de se defender, e sim uma criança insegura e dependente de suas palavras. Não existirá igualdade no contraponto, honestidade no duelo.

Trata-se de um massacre intelectual com enormes prejuízos para a estima. A criança achará que faz tudo errado, que não tem discernimento, que é prematura e propensa a errar, insuficiente para conduzir a própria vida.

O ciúme paterno é uma violência, feito de chantagens e ordens. Vem disfarçado da imunidade do amor, o que confunde os papéis e piora o entendimento.

Todo agrado de um menino na escola e o pai já vê que a filha será explorada. Toda saída com as amigas e o pai já alucina que será induzida a drogas. E sofrerá com acampamentos, excursões, festas, antevendo tragédias e repassando mandamentos para que ela se proteja.

A dificuldade é que ele não assume sua neurose, transmite a ideia de que a filha não obedece e está facilitando. Põe a culpa nela, por não seguir a loucura das regras. Castiga, tolhe e censura suas atividades e pensamentos. Só permaneceria calmo se ela não saísse do quarto. Ou do ventre da mãe.

Não permite que ela tropece ou se engane, não admite que ela experimente e diga o que gosta. Em vez de orientar, proíbe, com a desculpa de que sabe o que fala e que tem experiência. Ou simplesmente por se considerar acima de suspeita e de que não pode ser questionado.

Isso não é paternidade, é possessividade, doença. É não tolerar que a filha ame o mundo mais do que o sobrenome. Quando pai banca Deus acaba virando o diabo.

Eu percebi o quanto fui sinistro com a Mariana e ainda me envaidecia.

Meu primeiro ataque aconteceu na cozinha, quando Mariana, aos cinco anos, desenhou a família.

Desenhou a mãe, eu, o hamster e... um colega.

- Quem é esse, Mariana?
- É o Pedro...
- Pedro? Da onde?
- Da escola, é lindo, né?
- Ele não é de nossa família!

Ela desabou em choro e soluçava.

- É meu namorado, é meu namorado.

Eu, grosseiramente, peguei a borracha e apaguei a figura. Não falamos mais no assunto até que busquei a filhota na escola e fui limpar sua bolsinha. Estranhei a presença intrusa de uma escova de dente ao lado da escova dela. Havia durex com um nome: Pedro!

Para quê? Briguei com a diretora, gritava avermelhado, enlouquecido, babando. Argumentei de que duas escovas juntos era casamento, de que deveriam fiscalizar melhor os alunos e não misturar os pertences.

Coitado de mim. Minha filha não merecia tanta covardia.



Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 132, Número 203
Outubro de 2010

25 comentários:

Isabela disse...

Meu Deus, que loucura essa história das escovas de dente, mas acho que te entendo.
Tive alguns problemas com meu pai assim que comecei a "crescer", afinal eu quase o matei quando apareci, aos 12 anos, com um namorado de 19! Mas acho que aos poucos pai e filha acabam se entendendo, e esse ciúmes torna-se respeito. Pelo menos comigo foi assim.

Anônimo disse...

Sorte de Mariana que o pai percebeu isso aos cinco anos dela. Eu já estou com 25, e sem perspectiva de que o ciume paternal se abrande.

Tay disse...

Ah, isso é um ataque de pai perdigueiro?
Fala sério, tadinha da Mariana, se com essa idade já está espantando os pretendentes, quando de fato eles aparecerem, a coisa vai ficar preta!

Escritos disse...

Adoro tuas percepções, constatações e relatos. Acho demais o modo como tu aborda situações íntimas, familiares, em que tu "erra" e depois se redime. Não é pra qualquer um mesmo...

Orianna R. Alves disse...

Pefeito ! Todo pai tem seus devaneios.

Anônimo disse...

Carpinejar, está na cara que você não apagou o amiguinho dela no desenho. Não subestime seus leitores que a crônica fica ruim.

abs

Isabela Moraes disse...

Não raro tenho esses problemas com meu pai.
Ele certa vez, em uma discussão, disse que ele é quem sabia o que era bom ou mau, o que era o certo e o errado. Tudo porque eu questionei a lógica de suas regras e imposições. Mas algumas loucuras paternas são perdoáveis. Agora mesmo, ele ciuma do meu namorado, sob a desculpa de que o garoto é por demais infatil para mim. Não tem jeito!
Belo texto. Obrigada por pôr palavras bem feitas no mundo.

Dani Gomes disse...

Entendo perfeitamente esse ciúme, pois já que sou uma "pãe" (pai+mãe)assumi todo esse terrível sentimento de preservação pela minha cria...

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Anônimo disse...

Eu no alto dos meus 20 anos ainda não deixei de passar por esses devaneios paternos, que no meu caso são maternos. A imaginação dela é bem melhor que a minha, ai dela se eu fosse como ela pensa.

Carmem Resende disse...

Difícil Fabrício , admitir que vamos dividir espaços e temos papeis diferentes na vida do outro.

De tudo um pouco disse...

Fabrício..permite que eu repasse esse texto para meu irmão? ou será ele seu irmão? fiquei confusa agora..rsrsrs...vocês agem igualzinho..tadinha da sua filha e da minha sobrinha...


ótimo texto


Loisane

Luana Gabriela disse...

Fabrício, uma vez meu pai me pegou escrevendo cartinha pra um amor do colégio, eu estava na quinta/sexta série.. fiquei de castigo. Desde lá nunca mais tive vontade de contar nada a ele .. amores vieram, passaram, morreram, e sinceramente ele só vai saber dessa lado "relacionamentos" meu quando eu já estiver casada. Sei lá se é trauma ou para evitar problemas, mas vai ser assim.


Bjos

Claudia disse...

Toda vez que eu ou minhas irmãs apareciam com namorado novo em casa, era aquele festival de horror. Meu pai chegava do trabalho, vestia aquele pijamão vinho de bolinhas brancas e cada arrastada de chinelo na verdade queria dizer "tá tarde, esse camarada não se toca que isso aqui é casa de família?". Depois, reclamava em alto e bom som do valor da conta de luz e telefone, emitia sons ofensivos (vulgo eructação) bem alto e às vezes falava, num tom duas oitavas abaixo: "nada de ficar no portão, se não já sabe". Se o namorado fumasse então, esquece, ía pro banco dos réus na hora. Ou melhor, o namorado da filha já nascia condenado. Ele até cumprimentava o menino, olho no olho, mas fuzilando. O pobre do namorado ficava pequenininho, morrendo de medo. Uma vez meu pai chegou a aparecer na sala com uma peruca de mulher que minha mãe usava na juventude. Foi se "apresentar" pro meu novo namorado travestido. Meu marido não desistiu. Embora intimidado, adotou a tática do "vou tirar ela de casa de qualquer forma, então não se estresse tanto" e assim escalou com dignidade a muralha de ciúmes do meu pai. Hoje é gostoso rir disso tudo, todo mundo junto. Quanto a mim, os danos foram reversíveis...graças ao Freud, sempre ele.

Adoro tudo que vc escreve.

Esconderijo do Observador disse...

Gostei do seu blog. Parabens.
Um abraço do observador.

Juliana Carioni disse...

Fabrício, Sentir ciúme até certo ponto é saudável. Mas neste caso, o melhor é não ir contra o namoro. Pois ela não vai deixar de namorar por causa disto. Pelo contrário, vai atiçar mais ainda. beijão Juliana. Ah, sou tua fã. Parabéns!!

Cacá disse...

Felizmente eu posso me considerar uma exceção. Pelo menos até agora, acho que tenho me comportado bem. rsrs.Minha filha mais velha tem 24 anos e a mais nova 13. Com a segunda está ficando mais complicadinho. Estou me segurando para não escorregar. Mas a maioria dos pais é mesmo como você disse. Abraços. Paz e bem.

Anônimo disse...

primeira vez que comento, gostei muito do texto. só faço um reparo quanto a "deslizada" do assunto da relação pai-filha para a relaçao pai-filhos em geral, que é o achar que sabe oque é melhor, regras, enfim. a questão pai-filha é muito interessante e foi bem abordada, existe realmente uma tirania covarde disfarçada de proteção, isso é (mesmo que cliche) resultado da sociedade machista, sendo inclusive motivo de orgulho para estes pais (irmãos, tios..)
abraço, felipe

Rita disse...

Ufa. Carpinejar, muito obrigada por achar as palavras por nós! Seu texto pareceu um tapa nas costas de alguém que se engasgou com uma semente. Se tivesse aqui na frente, eu te abraçava! :)

Eliane Ratier disse...

Viver é perigoso, sinceridade exige coragem, maternidade, e em alguns casos, paternidade, é a maior aventura, uma montanha russa sem fim.

Marcelo Soares disse...

E é esse tipo de pai que faz a filha não querer ser vista com ele, que pede pra ele deixa-la na esquina do colégio (e ele não deixa), que acaba namorando escondida, que faz a filha fonte de risadas pelo pai que tem, e, que na maioria das vezes quando ela tem uma pequena liberdade acaba fazendo tudo que sempre teve vontade, em consequência, estragando-se!

Conheço varios pais assim, e, todas as filhas acabaram fazendo algo errado na vida, posse ser uma excessão em conhecer tantas assim, mas o fato é que conheço, e acho proibição excessiva corrompe o processo de crescimento da garota!

Abraços!

Nat disse...

Nossa, ler esse texto acabou comigo. Explico. O texto está excelente! Mas é que voltaram muitas lembranças de um passado que eu me recuso a voltar sempre.
Você está certo: "Trata-se de um massacre intelectual com enormes prejuízos para a estima."
=(

Maria Cláudia Cabral disse...

Fabrício, adorei o texto. Fato esse ciúme paterno. Isabella sofre com o pai. Fazer o quê se nem todos conseguem olhar a si mesmos com uma crítica sincera e humana. Mas quero aproveitar para dizer que gostei muito do comentário do 'anonimo' que assina Felipe. Verdade, Felipe, a cultura patriarcal responde em grande medida por esses arroubos de possessividade insana. Obrigada, Fabro por nos brindar mais uma vez com uma bela crônica.

Maria Tereza disse...

Pais escorpianos são o máximo! O meu é! =)

♥*•.¸¸.•*☆Paula☆*•.¸¸.•*♥ disse...

Ha. Mãe também é muito assim. De fato, no meu caso, o ciúme e possessividade é materno mesmo.

Anônimo disse...

Tenho uma filha de oito anos.
Ri feito um imbecil enquanto lia, me olhando no espelho.
Não me acho autoritário, mas reconheço minhas dificuldades na educação da minha filha.