segunda-feira, 18 de outubro de 2010

S_OGRO

Arte de George Grosz


O sogro é um tipo temido, e não tem lógica ser diferente. Seu papel é defender a filha do desamor, e, principalmente, do amor. Quando acolhe muito bem um candidato no primeiro encontro, desconfie do fim próximo da relação. Sugere que sua namorada troca de parceiro toda semana. Deve estar acostumado a receber a sequência de namorados e não perderá tempo comprando briga ou testando personalidades. Afável e carinhoso na aparência porque convicto de que não precisará mais vê-lo. A reação do sogro entrega mais o passado da moça do que hipnose. Expressões simpáticas como “a casa é sua” ou “volte sempre” indicam o contrário. Sogro algum oferece a intimidade de bandeja.

Ele tem mais regras do que CTG. Dissimulado, não expressa diretamente o que sente. Sogro bondoso não existe se a paixão é verdadeira. Somente gostará de você se tem ganas de enforcá-lo. Genro é o filho indesejado, onde não se oculta o desejo de aborto.

Não tive facilidade com a Cínthya. Não sou príncipe, nem o cavalo branco. Doutor Ciro, seu querido pai, foi meu serviço militar, logo eu que não servi.

Ele me tratou tão mal, que suspeitei da chance de casamento. Não era um problema, mas um trauma: homem oito anos mais velho, dois filhos, separado, escritor e de unhas pintadas. O que poderia ser pior para quem alimentava esperança de um partido perfeito? Como explicar que sua Barbie largou o sonho do Ken e se encontrava escondido com Frankenstein?

Ou ele se matava ou me matava. Adotou a segunda opção. Apareci num almoço de sábado e ele me ignorou, sequer pronunciou meu nome. Duas horas de completa invisibilidade. Cínthya se esforçou para me introduzir no seio familiar. Não saiu leite, apenas pedra. Ela arriscava:

– O Fabrício é colorado, tem cadeira no estádio...

E Dr. Ciro pedia para passar a salada, enterrava assuntos com a contundência do garfo.

Depois, em casa, reclamei da humilhação. Generosamente, a namorada reeditou uma revanche. O Natal permitiria a quebra do silêncio. Comprei um uísque 12 anos. Não esperava nenhum pacote, só rezava para não embrulhar novamente o estômago. Mas ele me entregou uma sacolinha. Despejei uma gargalhada infantil, a felicidade existiu até desvendar o conteúdo. Uma camiseta rosa! É evidente que ele insinuava a homoafetividade de meu estilo. Agradeci, e abandonei a fé para curtir o inferno.

Ele não confia em mim apesar dos dois anos de convivência, porém lança sinais de que me suporta. Um dia chegou até a me telefonar, não descarto a hipótese de engano. Outro dia, confessou que pretende ensinar meu filho a assar churrasco – faço de conta que não entendi a provocação.




Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 18/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16492

22 comentários:

Dani Gomes disse...

Só há um ser mais cruel que o sogro. E atende pela alcunha de... Sogra! rs

Ótima crônica, Carpinejar (como sempre)!

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Roberta disse...

Se é assim com o sogro, imagina com a sogra...
Ela, que sempre foi oráculo, consolo, lider de torcida, passa a ser a mãe.

rs

Crônica muito boa!

Arturo disse...

Adorei Caro Carpinejar. Minha última história é o revés da sua hehe. Sogro amável, afável de abrir a porta do quarto da filha e dizer, a casa é sua. Deu no que deu. Fim do namoro e ponto final. Vou procurar um algoz a minha altura hahahah. Abçs

Claison Melo disse...

Ah, o que seria do relacionamento se não houvesse os gritos contra? Apesar de o seu sogro ser algo totalmente averso aos sogros que tive (porque eles não perpetuaram tanto a minha antipatia - talvez porque eu era bom de papo, ou porque poderia ser-lhes solução).
Sua crônica apresenta algo que muito me intriga: naturalidade coerciva de manter o leitor preso até o fim dela (o que não daria nenhum trabalho caso rendesse umas 500 folhas), além da mistura reflexão e fato real.
Conhecer pouco a pouco a sua escrita intimista e até mesmo intrigante é realmente marcante.
Como sempre, um excelente texto, sem perder o brilho deste para outros que, graças ao seu twitter, tive o prazer de ler.
É que também moro em Minas, numa cidade tão pacata quanto retrógrada quanto à Literatura, principalmente a contemporânea.
Parabéns.

ana disse...

Talvez ele veja em você um lado que sufocou em si mesmo. A psicologia explica isso.Nós sempre procuramos namorar com pessoas que tenham traços que lembram os nossos pais. POr isso a convivência entre nora e sogra ou sogro e genro são difíceis. É um contenda de espelhos.

Denise disse...

relaxe..
vc deve exalar desespero....
ele sente......
tente ignorá-lo.....
faça dele nada...
surtirá efeito

torço por vc e pela cinthia

denise camargo

Bia Bernardi disse...

Há! essa foi boa! É tipo sogra, né? Se é legal é porque tem algum problema... rs

Bêju!
(cuidado... estou te seguindo! rs)

farinhademandioca disse...

Ahahahahahah

Excelente!

Alexandra disse...

Ótimo!! Gostaria de uma versão com a S_OGRA. Se precisares de subsídios, posso fornecer.
Abs
Alexandra
www.destemperadinhos.com
www.cafeviagem.blogspot.com

Maria Tereza disse...

"O que poderia ser pior para quem alimentava esperança de um partido perfeito? Como explicar que sua Barbie largou o sonho do Ken e se encontrava escondido com Frankenstein?" kkkkkk Ótimo, Fabro! =)

Maria Cláudia Cabral disse...

Fica chato ficar reiterando que gosto dos teus textos? Bem, se um dia você nos der a honra de umas oficinas de escrita criativa em Brasília, saiba que seria a primeira a me inscrever e a última a deixar o curso. Olhos arregalados, caneta em punho - como se ainda conseguisse escrever com dedos fora do teclado - e coração na boca.

tks,

Camila disse...

Nossa, como amo tudo o que tu escreve! Se eu escrevesse ao menos uma parte milimétrica das tuas palavras já estava feliz... Enfim, ótimo texto, como todos, e as frases do twitter são de guardar pra sempre.
Abraços

Cacá disse...

Lá na minha terra tinha um teste infalível para testar a tolerância/aceitação: a gente faz o seguinte: Chega um dia, pede uma toalha para tomar um banho, vai com a escova de dentes no bolso da camisa ou outro lugar visível e faz xixi com a porta do banheiro semi aberta. Se o sogro não botar a gente pra fora no xingamento ou na porrada é porque está aprovado. rsrs. Abraços. Paz e bem.

Sara Albuquerque disse...

Tão bom ter descoberto seu talento com a escrita neste mundinho virtual!
Estou há dois anos no ramo dos blogues...E desde pequena, domada pela escrita (mesmo que só tenha descoberto isso depois).
Gostei muito da sinceridade com a qual você escreve seus textos. A relutância em "escrever o que outros não tem coragem para tal" geralmente vigora para a maioria.
Inclusive para mim mesma, às vezes... Quando acobertada pela "política" social do estar bem com todo mundo. Estou mudando. Sempre uma borboleta.

Muitos bons ares por aqui.
Comprarei em breve seu livro.
Parabéns pelo amor à escrita.

Abraço azul pra você.

De tudo um pouco disse...

Esta é versão da sogra de calças...
Os pais veneram as filhas...
As mães idolatram os filhos...
Por isso as sogras se dão bem com os genros..
e os sogros com as noras...

Não sei... só sei que é assim...


beijocas

Loisane

Sonhos de Sigrid disse...

Muito boa a observação, no entanto preciso argumentar que só quem tem uma sogra pra entender que é preferível ter um sogro... hahaha minhas sogras nunca foram megeras comigo, mas já vi seu "dotes" e garanto que uma sogra super-protetora é de enlouquecer e afastar qualquer mulher. Muito bom o espaço. Parabéns.
Beijos.

Lara. disse...

Um uísque 12 anos por uma camiseta rosa: cômico.
Gostei do texto, como sempre, bem realista. Beijos.

Ramiro Conceição disse...

Aos ogros e ogras do mundo…


O PECADO DE SODOMA
by Ramiro Conceição

Você
negou-me acolhida - tal qual a um estranho
que chegasse a sua casa e pedisse comida.
Mas eu não era um estrangeiro; e, se o fora,
você
devia me olhar, porque quem sabe um bem
bem-vindo eu fosse; porém, como sempre,
atrasado cheguei qual chegam as estrelas.
E você, feito sempre,
deixou-me ao relento;
trancou a porta; e foi dormir
em seu seguro… aposento.

Eis o pecado - daqueles seres de Sodoma:
negar acolhida a quem trazia luz à moradia.

Então como cantarei às coisas claras,
qual cigarra, se você não me guitarra?!

Alessandra disse...

Incrível!
Ao ler pude visualizar meu marido, em alguns anos recebendo um coitado que ouse aproximar-se de nossa princesa Barbie. E pior junto dele estarão dois carrascos, os irmão mais velhos. Eu diria que pior que irmãos mais velhos, são os irmãos bem mais velhos.É de dar medo!
Hehe
Alessadra

thanin disse...

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Marta disse...

Tudo de bom passar por aqui... sorrisinho não saiu dos lábios. abraços

Marcelo Soares disse...

Ainda não tive um sogro tão monstro assim, na maioria das vezes faço o simpático, mesmo odiando ele, tudo pelo bom ambiente familiar, mas no seu caso complica, não sei se devo ter dó!

Abraços!