segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OITO ANOS

Arte de Howard Hodgkin

Vivo uma maratona de viagens, descanso numa cidade e acordo noutra. Como durmo pouco, a namorada insistiu para que pelo menos aproveitasse o travesseiro e adquirisse abrigos e camisetas brancas. Dolorido gastar com o sono, sair com uma sacola do shopping para desaparecer, anônimo, entre os lençóis. Eu me via como um idiota, a quantia deveria ter sido direcionada a melhorar o visual no trabalho.

O homem tem pavor do acessório. Não costuma inaugurar roupas na hora de deitar. Usa a que for mais folgada, e não pensa mais nisso. Da mesma forma não se preocupa com cuecas e meias. Nunca repara na cama, nas colchas e edredons, a não ser no início do casamento. Não sei como nossa espécie não foi extinta até hoje. Depois que aceitamos o pijama, também não precisamos mais pagar ônibus – é que ficamos velhos. Aliás, macho não compra pijama, somente recebe de sua mãe ou de sua mulher.

Mas atendi a mudança de costumes e separei as peças para testar no hotel de Torres. Vencido o compromisso, de banho tomado, sossegado no quarto, abri a mala para colocar a calça. Ela murchou, não entrava. Estranhamente encolheu. Parecia grande, mas não o suficiente. Confundi o número na loja? Botei a perna esquerda e trancou mesmo. Observei que não era minha, mas de Vicente.

A possibilidade do engano é que me transtornava. Como meu filho amadureceu tanto a ponto de confundir minha calça com a dele? Cético, pasmo, estendi o abrigo na cama para comprovar sua altura, assim como meu pai conferia meu crescimento com a fita métrica – lembro que ria todo orgulhoso com o veredito. Às vezes, o pai mentia o avanço (não podia crescer três centímetros todo dia), porém acreditava, não desconfiava das boas notícias.

Acariciei cada linha do pano e imaginei o peso, o tamanho, a envergadura atual do meu Vicente. Não é que sou distraído, é que ele me surpreende sempre. Fui tocando em seu tempo, nos fios costurados de seu tempo, revendo suas gargalhadas na banheira azul, o espanto com o vaivém do balanço, as corridas vacilantes de cisne, o andar firme e decidido ao atravessar a rua, a concentração na primeira aula, o temperamento de virar a cabeça quando apanhado no colo, os cabelos compridos de roqueiro. Seus oito anos deslizaram pelos dedos. Transformei as mãos num ferro elétrico, desamassando os vincos, desfazendo as dobras. O rio subia os muros, avançava as marcas. Já havia uma enchente na minha respiração.

Ai,Vicente, você cresceu e nem me avisou.




Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 25/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16499

16 comentários:

Giliard disse...

Lindo, meu velho. Com "Ai, Vicente, você cresceu e nem me avisou.", tu não precisavas dizer mais nada. Sentimento puro.

Nat disse...

Desculpa comentar algo que não diz respeito ao texto aqui, mas acabo de ler no twitter "a ternura é uma cilada no namoro. É o que mais se parece com amor, mas só gera amizade." Tão verdadeiro isso. Mas, então, o que devem fazer os doces e meigos? Socorrro!

Marinha disse...

Lindo isso!
Escrevi no final de semana um texto sobre filhos e despertar. Se tiveres um tempo, dá uma conferida. Adoraria de ver por lá.
Um semana cheia de descobertas pra ti, Fabro.
Bj,
http://www.construtoradepalavras.com.br/2010/10/amor-incondicional.html

Dani Gomes disse...

Eles nunca nos avisam... Snif!

Fazer o que? É a vida!

Adorei a crônica e me identifiquei horrores: também venho trocando figurinhas, digo, "roupinhas" com a minha filha.

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Kate Batista disse...

Tudo o que você escreve parece perfeito.
Me tornei uma grande admiradora de seus escritos, suas crônicas são simplismente incríveis.
Gostaria de saber me expressar assim tão bem quanto você.

http://www.sobaminhapele.blogspot.com/

Escritos disse...

Muito lindo!
Poético!

Eu, eu mesma e Irene disse...

Vixe!Fan-tás-ti-co!
Lembrei de um domingo em família contando esses e outros causos.
Beijo pra ti.
Eu, eu mesma e Irene

Lixo.In.Process disse...

Belo é crescer e mais belo ainda é perceber.

Tania Aires disse...

Lindo!!! Adoro seus escritos!

Pedro Bravo de Souza disse...

Caramba, muito lindo mesmo!
Soube do seu blog faz pouco tempo, realmente seus textos são ótimos.
Gostei muito.

Pedro Bravo,
http://fotosdepalavras.blogspot.com/

Larissa Guimarães disse...

Lindo e tão doce texto...
Eu adoro suas descrições e a pormenoridade de seus escritos. abraços

Lara Amaral disse...

A idade dos filhos parece pesar mais para os pais do que a própria.
Belo texto!

Abraço.

Carol Godoi disse...

Me identifiquei de pronto, me fez chorar. Beijos.

Kílvia Cavalcante disse...

Carpinejar sou sua fã!
Que lindo,que palavras maravilhosas,que serenidade,que tamanha doçura em falar claro e envolvente.
De fato, muito bom!

Anônimo disse...

esse não merece ser lido, pois o rio corre no rosto do leitor desavisado

Jacelena Dourado disse...

Expressão espontânea de puro sentimento!!!
Amor paterno...perfeito!
Carpinejar/Vicente!