quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AMOR É ALERGIA

Arte de Cínthya Verri


Vários leitores me perguntam quem é a cadela que está na contracapa do meu livro Mulher perdigueira.

É Cora, animalzinho branco de minha namorada. Tão estapafúrdia que fica engraçada. Eu me identifico. Sou um desajeitado que se esconde na irreverência.

Cínthya comprou como se fosse um maltês. Desejava um cão manso, comportado, obediente. Procurou um criador registrado no Kennel Club. Pagou R$ 600,00. Assim que recebeu a encomenda, uma veterinária alertou da trapaça, não havia pedigree naquela desengonçada figura. Enfurecida, a namorada sustou o pagamento. O vendedor foi atrás, convenceu que se tratava de um tipo especial de maltês, Cínthya ingenuamente caiu na conversa e liberou o cheque.

Cora nada tem de quieta e disciplinada. Uma vira-lata imprevisível. Muda de estação a cada três horas.

Sua aparência é circense. Tem duas orelhas assimétricas. Uma permanece deitada enquanto a outra está pelo avesso. No começo, tentava ajeitar a aba, mas logo comprovei a inutilidade do esforço. Para acentuar a comédia, é vesga, vive observando seu nariz, pensa que o focinho é mais um osso a ser enterrado.

Ela é o cão mais carente que conheci. Treme quando vamos sair ao trabalho. Forja um ataque epiléptico. Impressionante como inventa febres — pena que não tinha seu dom na infância para escapar das provas finais.

Cora depende do recolhimento de apartamento: três dias na rua e morre. Cheia de fragilidades, rações especiais e remédios ultramodernos. Adoece depois de interagir e brincar com cães na praça e na residência de amigos. Visitou sua quinta clínica em um ano e não encontramos uma poção miraculosa que resolvesse as pendências de pele. Ela tem mais xampu do que sua própria dona.

No bairro, tornou-se famosa pelos rompantes antissociais. Morde os calcanhares das pessoas na rua e salta em motoqueiros. Ela não caminha, nos arrasta, a exemplo de farejador de drogas da polícia. Buscamos adestrá-la, porém regride com a mesma facilidade em que avança. Passear com ela significa se incomodar com metade da vizinhança.

Cora é um babuíno, um gato, um hamster, um coelho, raramente é um cachorro. Às vezes é um travesseiro. Durante o dia, pesca roupas sujas da cesta da lavanderia para dormir em cima. Sente prazer em sestear no cheiro de Cínthya.

Não podia ser mais problemática: uma calamidade, capaz das mais altas histerias, de trepar com a cama, de estraçalhar óculos, de pular a escada, de latir para plantas. Ao mesmo tempo, é um bebê de bolso. Levá-la no colo é receber a fincada suave e generosa de suas unhas, pedindo para nunca ser abandonada. Tomada de felicidade, morde o rabo. Arrebatada pela tristeza, geme gregoriano.

Sofre por antecedência. Ao quebrar algo, refugia-se debaixo do sofá. Enxergá-la ali é descobrir que aprontou. Nem precisamos localizar as provas. Entende tudo rápido, assim como esquece tudo rápido.

Tem complexo de Gulliver. Foge de borboletas. De baratas. De moscas. Já a testemunhei correndo de formiga. Menor o bicho, maior é seu medo. Por contraste, não guarda nenhuma noção do perigo e enfrenta cavalos, vacas e pit bulls.

Cora já engoliu veneno de rato. Sobreviveu. Já engoliu botões de camisa, ímãs de geladeira e teclas de computador. Sobreviveu. Confunde todo rosto que se aproxima com porta de geladeira. Senta e espera um farelo com as roldanas dos dentes. Uma mendiga especializada em estragar um jantar romântico.

Tenho incompatibilidade com Cora. Nossa relação é impossível. Um amor alérgico. Seus pelos provocam o diabo da rinite. Uma tosse seca, irritante, interminável.

Cínthya diz que o mal-estar é culpa do cigarro, faz vista grossa e cria condições para a invasão da pestinha em nossa cama. Procuro dissuadir a entrada, tranco a passagem do corredor; Cora acha um jeito de aparecer. Acordo com longos fios grisalhos pela camisa.

Quanto pior o cachorro, mais nos apaixonamos.



Crônica publicada no site Vida Breve

36 comentários:

Dani Gomes disse...

As mulheres que o digam: "Quanto pior o cachorro, mais nos apaixonamos..."

Bela crônica!

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Fátima Nascimento disse...

Já leu a crônica pra ela?

Bj

Marinha disse...

Apaixonante a crônica e, ainda mais, a endiabrada da Cora.

Livs disse...

Eu tenho, dois... um é jacaré e pensa que é tubarão... A outra é papagaio e pensa ser leoa...

Cora disse...

ai, essas Coras são sempre assim. tá no nome, só pode. depois de ter lido a crônica pude concluir que, tirando a parte do latir pras plantas, sou um pouco canina assim.

Dani disse...

Adorei a crônica... é bem assim..qnto pior o cachorro mais nos apaixonamos...qualquer semelhança com o meu juca é mera coincidência hehehe

Ana disse...

Fabrício eu te achei!!!
Faz tempo que o descobri entre um voo e outro, numa livraria de aeroporto e despois esqueci do assunto. Estou dando uma série de oficinas sobre crônica e resolvi fuçaro o Google e... dei com "Amor é alergia"... e lembrei de um ex-amor, não sei se por causa do amor dele por vira-latas ou por ele próprio ser um deles... Bem, mas passei por aqui pra falar de minha inveja: estudo a crônica de Rubem Braga há anos, publiquei dois livros sobre o assunto e não sou capaz de escrever nenhumazinha que preste!
bjo!

Dani Cezar disse...

demorou, mas ainda bem que hoje eu prefiro os gatos aos cachorros... hehe...

Jacelena Dourado disse...

Rsss...
Nos apaixonamos sempre pelos piores...E esses são os melhores!
Jacelena,
admiradora incontestável das crônicas de Fabrício Carpinejar....

Maria Tereza disse...

Já amei a Cora! E seu texto mais ainda! =)

Franklin disse...

Fabrício, não sabia que seus textos eram tão famosos, aliás nunca te segui por ser famoso, mas por escrever muito bem.

Nunca perco um texto teu e tento entender todas as linhas que são escritas, entretanto, tive que até na prova de vestibular ter a honra de interpretar uma de suas crônicas em um dos vestibulares mais concorridos do país, o da UFRJ.

Meu sonho sempre foi ter um texto meu sendo obrigatoriamente interpretado por milhares de pessoas em uma prova de vestibular.

Portanto, fico muito feliz em ver um dos meus autores-escritor de blog tendo essa oportunidade de ter um texto em uma prova de vestibular.

P-A-R-A-B-É-N-S!

fernanda jaques disse...

A minha shiti-zu, que tem duas patas na viralatisse (segundo meu pai), é igualzinha:

"Twiggy é um babuíno, um gato, um hamster, um coelho, raramente é um cachorro. Às vezes é um travesseiro."

:)

Leandro Lima disse...

Indiscutivelmente verdadeiro!

Monie disse...

Ótima crônica! Concordo plenamente com a última frase. =]

Alexandre Matzenbacher disse...

sensacional!

Anônimo disse...

Amei a crônica! Mto bem escrita, divertida e apaixonante! Parabéns, Carpinejar!

taylaborges disse...

Cora certamente tem uma prima aqui em Minas que tem o DOM de achar o Livro : O Menino Grisalho autografado por vc na bienal do livro aqui em BH para deitar em cima... creio que Maria Morgana ou Cotinha( para os intimos) também seja a sua fã.
Sucesso.
Tayla

Camilinha Wander disse...

Amei!!!!!!!!!!!!!!!!!! E amei mais ainda a Cora... que tem muito da minha Sofia (uma cachorrinha que eu já apelidei de : gata, lagartixa, ovelha, coelha e baleia... rsrsrsrs)
Parabéns!

Gesner Brehmer disse...

Ótima Crônica!
Tenho uma prima que tem exatamente uma "Cora" dentro do seu lar...

Carpinejar, se possivél, e seria uma honra para min e para os meus amigos se vc pudesse seguir e comentar este blog

http://cincobics.blogspot.com/


São cinco amigos(incluso eu) que criamos e estamos postando nossas maneiras, mazelas, confortos e desconfortos sobre todas as coisas

se pudesse seguir, ou apenas olhar para ver se achava interessante, agradeceriamos

Abraços

Jack vestida de loba e uivando...ou balindo? disse...

Cara de um focinho de outro? Rs...Que os deuses mantenham Cora amada por muito tempo!!! A vida é sempre melhor com seres não humanos bem perto da gente!!!!

Anônimo disse...

Creio que a cadela da sua namorada seja uma schnauzer branca, pois também tenho uma com as mesmas características físicas da sua: branca, tem as orelhas caídas e possui essa barba da imagem do post. A minha possui pedigree, sendo proveniente do sul do país. Pesquise mais sobre a raça. O mais engraçado é que a minha deve ser irmã dela, você descreveu minha cadela. Parabéns pelo seu trabalho. Beijos.

Pólen Radioativo disse...

Querido Fabrício,
Crônica massa!!!

E que alegria poder te ouvir pessoalmente aqui em São Luís. A noite de ontem foi uma delícia!!!
Tua visita foi um presente para nós aqui na Feira do Livro.

Beijinhos...

Carla disse...

Hahaha !
Adorei a Cora e sua crônica!

Bjs

Nana Maia disse...

Cães são os amigos mais sinceros em que a falta de palavras se compensa pela intensidade do olhar. Me conte, Carpinejar, se a Cora (nome significativo)não te diz com o olhar quando está triste, você identifica aquele brilho diferente e as sombracelhas unidas como se perguntasse "E ai não vai fazer cafuné?"
E quando está com fome, não vai e volta no saco de ração, e quando o vê servindo sua tigela o rabo não balança de expectativa e quando está a comer não lhe rosna avisando que "Muito obrigada, daqui eu assumo?".
Pois é... os cães... um amigo que protege ou acha que protege, que se você tem não consegue viver sem. E que quando se vai, lá para o céu dos cães te tira o sentido...
os cães...

Deyse Batista disse...

Meio por acaso, eu confesso, me deparei com a sua palestra na Feira do Livro de São Luís, ontem à noite. E como não poderia deixar de ser diferente, fui conquistada de imediato pelo seu dom da palavra. Acompanharei o seu blog, lerei tudo o que for possível e já estou de olho nas suas publicações que com certeza farão parte em breve da minha estante de livros já lidos. No mais, agradeço a oportunidade de ter lhe ouvido e volte sempre, porque desejo ainda muitas oportunidades como a de ontem.

Até, Carpinejar.

ana disse...

O amor é mesmo o maior antídoto contra o preconceito. Se a pessoa que a gente ama gosta de cachorros passamos a amar os cachorros e tentar estudar sobre as raças. Se por acaso ela gosta de pintura, passamos a amar os pintores, etc.etc. Existe coisa que nos faz crescer mais do que o amor ?

ariane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ariane disse...

E eu entendo tão bem de cachorro cheio de personalidade!
O meu está com 11 anos, todos os dias toma remédio pro coração que resolveu ficar ainda maior com o passar do tempo; ficou ceguinho e agora me faz de seu cão guia...e eu o amo mais a cada dia.
Amei a Cora também.

Marcos Paulo Souza Caetano disse...

"Cora é um babuíno, um gato, um hamster, um coelho, raramente é um cachorro"

"Quanto pior o cachorro, mais nos apaixonamos"

Ótima crônica! Irreverência sempre.

omerengue disse...

Você é simplesmente, incrível! Inspirador!

Edson Roberto disse...

Cara... vi minha July Maria na Cora!!!
Sensacional!!!!
Dizem que o animais vem ao mundo... para nos ensinar o que é o amor!!!
Que assim seja..... me rendo!!!

L.M. disse...

Ótima crônica!!
tem carisma,e amor.
bjs

L.M.

Jorge Ferreira disse...

Olá Carpinejar, acabei de conhecer seu blog e estou adorando.
Sou musico/compositor e ao montar um dos clipes no qual faz homenagem a alguns poetas
tomei a liberdade de usar um imagem sua, espero que nao se importe.
http://www.youtube.com/watch?v=zT8FJ0g1PAE
Vou continuar por aqui.
Abraços!
http://heyamigovelho.blogspot.com/
Jorge

aleiob disse...

Que ótimas essas últimas crônicas! Bom de mais ler. Beijo estalado na bochecha.
Ale

Edione Soares disse...

Vou apresentar a cadela de uma amiga ( e não a amiga cadela).Ciça o nome dela(da cachorra),que é filha de um morcego com uma foca. Acho que elas podem ser amigas rsrsrsr.

Adoro suas crônicas.

Shaiana M Fernandes disse...

Muito bom!
A Cora parece a Bella minha york.
São terríveis, mas apaixonantes!