quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CAINDO NA PEQUENA ÁREA

Arte de Cínthya Verri


Assim como atacante simula um pênalti, o casal cava brigas.

Grande parte das discussões de relacionamento não acontece por uma justificativa clara e evidente, é pressa, desejo de resultados imediatos.

O divórcio tem motivo, a briga não. É aleatória, e invade inclusive os momentos felizes. O atacante poderia fazer gol e comemorar com a torcida, mas preferiu se jogar na área e contar com a cumplicidade do juiz. A esposa poderia beijá-lo, mas decidiu teimar com a aproximação de uma colega de trabalho e tecer perguntas constrangedoras.

Não existe briga legítima. Todas são forçadas, artificiais e teatrais. É um ranço à toa, uma provocação passageira, uma vontade de incomodar que escapou do controle. Há o equívoco de se pensar em criticar algo e logo mudar de assunto, ferir e esconder a arma, como se a palavra não fosse bumerangue e não viesse de volta, com muito mais força, cortar nossa cabeça. Planejamos a briga, o que não prevemos são as consequências. Entrar numa discussão é fácil, o orgulho não nos deixa sair.

A mulher tem algumas cartadas implacáveis para puxar seu parceiro ao ringue. Mesmo quando ele não quer e programou assistir seu futebol tranquilamente.

Eu já sofri com o blefe. Fui um zagueiro que não atingiu a centroavante e ela simulou agressão.

Estava quieto, pensativo, aguardando a rodada do Brasileiro, e minha namorada começa a antecipar a lista de tarefas da semana. Eu respondo educadamente, não entro em detalhes. Nada nos magoou durante o dia. Ela repete um ponto, replica de novo. Não que eu não tenha respondido, é que a resposta não a agradou. Tento reagir diferente, com outras palavras. Tudo sob controle, vocábulos neutros, os times entraram em campo.

Na hora do apito, como não encontrou qualquer argumento para discutir, ela vem com a tese de que a minha voz está diferente. Que voz de homem não fica diferente assistindo sua equipe?

Eu me ferrei, ninguém se salva dessa abordagem. Em vão, busco dissuadi-la da ideia, não reparo que é uma ideia fixa, indicando uma obsessão incontornável.

— Não, minha voz está a mesma.

— Não me engana, sei que aconteceu alguma coisa, o que foi?

— Nada, estou ótimo, te amo.

Apliquei o “te amo” para espantar as desavenças, um “te amo” preventivo. Faltou experiência no ramo, sempre que mencionamos um “te amo” solto do assunto é que virá guerra, é visto como um ato falho ou um sentimento de culpa.

— Eu conheço, sua voz está diferente.

— Não está, não está…

— Está sim! Está sim!

Ela aparecia com o velho papo de que me conhecia melhor do que eu, o que é irritante. Meu timbre permanecia igual, até que não aguento mais a insistência e passo a gritar.

— Que merda…

— Viu?

— Viu o quê?

— Está brabo, acertei, sua voz estava diferente. Vai agora me dizer a verdade?

Não me pergunte qual foi o placar do jogo.



Crônica publicada no site Vida Breve

19 comentários:

Dani Gomes disse...

Não existe pior mentira que o dito popular "quando um não quer, dois não brigam."

Se a mulher quiser não tem opção: Ou briga ou briga! rs

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Anônimo disse...

Fabro, alguns casais brigam pouco. E algumas mulheres evitam brigas... De uns anos pra cá vc tem tido umas ideias estranhas sobre relacionamentos, na minha opinião. Como se relacionamentos que contém brigas e picuinhas fossem normais... Saudade do seu tempo de "Ana".

Anônimo disse...

...E algumas mulheres entendem perfeitamente o momento sagrado do futebol.

Mariana Khalil disse...

Fabrício, um texto melhor que o outro.

E como assim as mulheres brigam por "nada"? Isso não ec-xiste.
Duvida?
Quer partir pra briga?


Abraços,
Má.
_____________
http://www.odeavida.blogspot.com/

Efeito Caos disse...

O placar eu não ia perguntar, ia perguntar se o goleiro defendeu o pênalti, ou se foi gol, ou se foi pra fora, ou se foi na trave.

Franklin disse...

"Apliquei o “te amo” para espantar as desavenças, um “te amo” preventivo. Faltou experiência no ramo(...)"

Adoro essas brincadeiras com as palavras!!!

um abraço

Iuaminha disse...

Hahahahaha... esse texto tá um pouco machista, porém, bom demais, como qualquer outro que sempre escreve.

Blog da Carlinha M. disse...

Muito bom o texto. Nós mulheres sempre arranjando um motivo bobo pra brigar.É verdade.

ruavazia disse...

Gostei da crônica, mas estou aqui por outro motivo.

Odeio acordar cedo, mas foi um presente assistir sua palestra hoje de manhã em Brasília. Deixou meu dia feliz.

Muito obrigado.

Lucas Reis disse...

O efeito retroativo do "te amo" preventivo é tão devastador quanto não ligar depois de chegar do jogo.
Ótimo (e verdadeiro) texto!

Abs.

viviano disse...

Ouviste o Sala de Redação.É um canhão.Procurei o texto que escreveste sobre O gremio Imortal ou Imoral que o Cacalo falou no Sala.Na hipótese do Inter jogar com um misto ou reservas contra o Botafogo, creio que deverás te pronunciar.O artigo foi muito cruel com o tricolor.Estou esperando alguma manifestação tua.

Maraguary disse...

... e com suavidade você segue dizendo verdades... Amo!

lilith disse...

uma briga que vira crônica, é melhor que uma briga crônica que não vira nada. ou melhor do que o nada, quem nem briga quer mais. postar sobre sua discussão é um gesto de carinho, manifestação de que está no relacionamento, é atento a ele, mesmo nos momentos mais irritantes. no fim das contas, a briga gerou escrita e isso é bom. pq o jogo não terminou. : )

Cacá disse...

Eu já descobri uma infalível: é só dizer que está deprimido, que a vida não presta, elas morrem de pena e baixam a guarda na hora. rsrs. Não podia dizer isso aqui em público, mas não resisto a uma estratégia de conciliação. Abraços. paz e bem.

Humberto de Lima disse...

Mulher calada é sinal de que há realmente problema. Melhor chamar pra conversar! Homem calado? Fiquem tranquilas; ele está apenas reunido consigo mesmo.

mARa disse...

Olá, gostei imenso! por isso voltarei...

Cheguei aqui por indicação da Bebela...rssss..veja tua importancia, uauu!

Beijo!

Mileny disse...

Muito bom... ADOREI!!! Mas hoje em dia respeito muito o meu marido nos jogos... Aprendi a ser civilizada... porque mulher é punk... como precisamos de atenção...


Beijos!!!

Juliana Schirmer disse...

Pra variar, parece feito pra mim! Fora a parte do futebol, pq nessa hora estamos os dois focados no jogo.

Sim, depois de iniciar uma briga até dá vontade de sair dela, mas e quem disse que o meu orgulho me deixa abandonar a batalha antes de ouvir EXATAMENTE o que eu quero? Mas já fui pior, hoje em dia, mesmo que seja dito com outras palavras eu "aceito". Tenho trabalhado com a possibilidade do meu querido não conseguir advinhar tudo o que eu quero(!).

Abraço!

Deborah disse...

já cheguei a pensar que tu era mulher, mas definitivamente nem mulher conhece tanto a alma feminina como tu. é inconcebível como vc consegue desvendar comportamentos com tanta perspicácia.

bjo