quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

COMPLEXO TÊ

Arte de Cínthya Verri

A residência materna tem T na maioria das tomadas. Não precisaria me preocupar com extensões e revezamento para carregar aparelhos. Nem exercer acrobacias com laptop e celulares.

Só que a mãe odeia que usem duas entradas. Tem uma fortuna de adaptadores e vem obrigando os filhos e netos a empregar uma fonte de energia de cada vez.

Ela não é engenheira ou eletricista, não realizou cálculo de ampères para adotar a medida. Não há um fundo científico em seu medo.

O abajur não pode conviver com o remédio de mosquito, a televisão não pode dividir a vizinhança com o DVD, e sucessivamente. O “benjamim” existe para bonito. Não admite sequer duas posições ocupadas, imagina três, que ajudaria ao menos o raciocínio da sobrecarga.

Seu olhar arrasta os chinelos, vasculha os rodapés, varre as quinas. Quando localiza um T inadequado arma um escândalo:

— Ai santo Pai, a casa vai queimar.

Eu é que entro em curto. O que me irrita é que ela adquire o T para negar sua finalidade.

Por que, então, comprou a ferragem inteira?

Primeiro, pensava que mãe não falhasse; tudo correspondia a desígnios de uma sabedoria secreta, milenar, inatingível. Era um embate entre Confúcio e seu discípulo imaturo. Depois é que percebi que ela não tinha as respostas do mundo, muito menos dominava as perguntas.

Talvez espalhasse T pelo simples prazer de restringir. Loucura é tolher quando não há necessidade, é sofrer quando não há dor, é duvidar quando não há indício. Não que a minha mãe seja insana, ela inventou um sistema para enlouquecer a família em seu lugar.

O complexo “T” atinge grande parte das relações, é a tirania do não-sei-o-quê.

Não sei o que quero. Não sei o que tenho.

Funciona desse jeito: você está em crise de identidade e tem vergonha de ser direta, entende o que incomoda e não vai assumir, faz de conta que está descobrindo.

A questão é colocar seu par dentro da crise para que ele ajude a esclarecer a dúvida. Mas não há dúvida. É um falso T. Criam-se as opções das outras tomadas para descartar seu emprego.

Não escolhe, responde com beiço, com talvez. Não aceita e também não recusa.

Acorda contrariada, dorme insatisfeita. Não é que não quer alguma coisa, finge que não tem noção do que falta. Provoca o triplo de esforço do parceiro para culpá-lo por indiretas.

Diz que está com fome, ele prepara italiano, tailandês, japonês, árabe. Nada a contenta.

Diz que pretende viajar e descansar a cabeça, ele arruma um final de semana em Gramado, uma quinzena no Nordeste, um mês em Santa Catarina. Nada a contenta.

Diz que está com vontade de estudar, ele inspira que se matricule no italiano, nos cursos de escrita criativa, cinema, yoga. Nada a contenta.

Seu plano é que ele se canse com as tentativas, que se veja como um inútil, sem competência para agradá-la.

De todas as saídas possíveis, prefere não pagar a conta e esperar o corte da luz.



Crônica publicada no site Vida Breve

13 comentários:

Dani Gomes disse...

Melhor que aguardar o corte da luz, só tira-la da tomada mesmo... rsrs

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Patrícia Proença disse...

Só posso comentar que gostei, pois nem uma outra palavra seria capaz de transmitir o que realmente senti,suas metáforas são perfeitas...se não fosse pelo RG diria que foi uma mulher que escreveu isso;não que os homens não tenham sencibilidade...deixa assim...gostei e pronto.

Ela disse...

O que resta, cuidar pra não dar uma de mãe, rsrrsrs


"Loucura é tolher quando não há necessidade, é sofrer quando não há dor, é duvidar quando não há indício."

ADOREI DENOVO!

Gesane disse...

Gostei da teoria, vou usar na minha psicologia com os pacientes essa metáfora.
Cada vez melhor os seus textos e sua maneira de ver os avessos do indivíduo. Parabéns

Gesane

Anônimo disse...

Sua mãe ia ficar estressadíssima lá em casa. Algumas tomadas têm um T em cima do outro! São 5 aparelhos ligados juntos. E não queimou a casa...

Cecília Sousa disse...

Sempre um prazer te ler.
Mas é preciso também entender de onde vem o tal "Complexo T". Ouso te convidar a ler o que escrevi a respeito:

http://bernardoececilia.blogspot.com/2009/06/fluxo.html

Diz o que achou! Espero que goste, senão terá sido um tiro no pé. Mas uma crítica vinda de você, será uma honra, não importa o teor de acidez.

Luis Felipe de Assis Pinheiro disse...

Essa dificuldade em resolver...

É tanto empecilho...

Tão desnecessário...

Queremos até que isso seja necessário.

Interessante a teoria.

Abraços!

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá. É um prazer estar no seu espaço e beber desta fonte inesgotável de poesia e prosa. :)

Acredita que eu não conhecia o seu trabalho? (Não me pergunte em que planeta eu estava vivendo, pq posso me ofender!) kkkkkkkkk.

Mas eu vi uma matéria com vc na TV Cultura (TV Escola) e achei vc muito bom (e tb hilário). E eu gostei demais! Então fiz uma pesquisa de 5 segundos no Google e eis que estou aqui, descobrindo mais sobre vc. ADOREI seus textos!

Sim, como todo mundo, tb virei fã.
Abraço e minha admiração. :)

Patrícia Lara

borboleta disse...

Boa mesmo é a sensação de menino pequeno mesmo quando gente grande: esperar a mãe sair para poder ligar a televisão e o dvd ao mesmo tempo e assistir algum filme enquanto coloca a pipoca no microondas e o celular pra carregar... juntamente com o liquidificador para o suco de maracujá!

E fazer isso só porque sabe que é errado mesmo que seja certo. Se pra mãe é errado, é errado e pronto, a sensação passa a ser de erro infantojuvenil.

A bronca é se a mãe chega antes do previsto...

Fiquei por um bom tempo (um bom tempo lê-se anos) imaginando como seria a transa e o transe de suas palavras com a da Viviane Mosé. Que espécie de filho ia ser gerado. Esses pensamentos deram vazão quando li a 'orelha' do livrinho dela, o pensamento chão que já começa deliciosamente com suas palavras na contra capa. Genial!

Carla Alencar

www.catando-vento.blogspot.com

Janine Sobreira disse...

Ficando apaixonada e intrigada com seus textos. Sigo, então, me inspirando...abraços!
http://impressoesminhasimpressoes.blogspot.com

cacaumendonca disse...

Antes aguardar sentada e paciente o corte 'súbito' da luz, do que atear fogo na casa com o uso 'inapropriado dos T's como as loucuras sadias de uma mãe.
É mais fácil disfarçar as incertezas que no fundo são certezas, do que encarar as mudanças e a incerteza de um futuro.

Yohana SanFer disse...

E sabe que a "pirraça" ganha forma e vida inconscientemente?
Sua escrita e talento me encantam Fabrício...um abraço!

Margareth disse...

Deus uniu tudo a todos. A última pose do seu filho foi na cruz e por coincidência tem a mesma imagem do T. Fabrício depois do seu texto, pensando nisso, observei o alfabeto e elejo o T como a melhor letra, pois através dos fios e laços sentimentais conecta objetos e pessoas conduzindo energias para manter todos ligados, Que tenha ou não mãe para vigiar e dar broncas quando flagra teimosias e desobediências, assim como os encaixes das relações que se dispõe a intimidades de interesses e necessidades que tenha ou não insatisfação. A função do T é agradar os interesses
Margareth.