terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MÃO AUSENTE


Toda semana recebo um cartão de Cínthya, é meu álbum de ex-fumante.

Eu me acordo com a sensação de que estou descabelado. Procuro baixar os tufos com as costas da mão. Seria um gesto insignificante se não fosse minha cabeça totalmente raspada.

Sinto o cabelo ainda que não tenha. Assim como alguém procura mexer uma perna amputada e ousa controlar uma mão ausente.

Fumo não fumando. Permaneço levantando o indicador à boca, optando por permanecer na varanda quando o ar-condicionado está ligado na sala, mexendo no bolso à procura do isqueiro.

Completei três semanas sem cigarro. É pouco para muitos, é muito para mim. Persevero, com a consciência de que não terei paz. Enquanto controlo os dias, permaneço fumante. Serei fumante sempre. Um hábito de 22 anos não desaparece por completo. É isso, não há conserto.

É engraçado escrever para não fumar quando eu só escrevia fumando. O cinzeiro é vaso de clipes e elásticos (por que não o joguei fora?). O suor é frio, a pressão sobe e desce, brinca de abrir veias com os poros.

É uma febre sem febre, um vazio transbordando, uma greve do corpo. A fissura pode durar alguns minutos. É fulminante, de farejar o vento à cata de um cigarro aceso nas proximidades. Meus olhos estão no olfato.

Venho elaborando teorias para aliviar o sufoco. Uma delas é que ia de carro ao trabalho, troquei pelo metrô. Mudei meu transporte, meu itinerário, demoro mais para chegar, mas a viagem é mais em conta.

Convenço-me por inversões. Fui feliz quando fumei, não é que deixei de ser feliz.

A mulher Cínthya me anima dia e noite, nos dias que são minha noite. Avisa que os fortes conseguem. Tem funcionado sua guerra psicológica, entendo que apenas o maniqueísmo reabilita viciados. Mas há fortes que fumam, há fracos que não fumam, há fracos que param de fumar, fortes que voltam a fumar.

Desagradável é que perdi a credibilidade. Qualquer desejo durante a abstinência é desmerecido, confundido com a intenção de interrompê-la. Ao me mostrar solícito para fazer compras ou passear com o cachorro, transmito a suspeita de que assaltarei a primeira tabacaria que encontrar.A opinião se mantém viciada aos familiares.

O sofrimento ganhou um novo fiador. Se estou mal-humorado ou dispersivo ou calado, é culpa da privação. Também me aproveito da fama quando careço de explicações para grosserias ou para não precisar pedir desculpa.

O que se evidenciou no processo é a rixa entre fumantes e não-fumantes. Já larguei a correria do primeiro grupo para entrar na concorrência do segundo.

No começo, existia um boicote dos fumantes baforando perto de mim, simulando discussão, reavivando lembranças. Sugeriam que comemorasse a marca de três semanas com unzinho.

Vejo agora uma disputa entre os que pararam de fumar, para ver quem é o mais ex-fumante. Verdade. Como todo antigo tabagista se acha um vencedor, a turma luta pelo melhor tempo. Quanto mais longo, melhor. É uma maratona de retardatários.

Ontem avisei do meu desempenho e um amigo replicou: "Isso não é nada, eu estou sem fumar há vinte anos". Outra amiga pediu a palavra: "Parei há três décadas". E formou-se um grupo de atletas reivindicando o recorde sul-americano.

A mania por marcas é a base das dietas e das reabilitações. A vida se transformou num esquisito e insuperável guiness book.

20 comentários:

Thalita disse...

O meu namorado também está na mesma batalha. Todo dia é um incentivo novo, uma vontade nova. E a cada post seu sobre essa sua luta eu passo pra ele, pois será a visão de alguém que se encontra na mesma situação. As noites pra ele são as piores. É pra você assim também?

Lili disse...

tão lindos cartões. =)

Ivan Pielke disse...

Ficar sem é vitória. Agora imagine se a competição fosse a de quantos cigarros conseguiu fumar em um único dia.
Teríamos sonâmbulos aos montes.

Por enquanto só fumo acordado.

Jefhcardoso disse...

Fabrício, eu me lembro de, no ano passado, no Pingüim, em Ribeirão Preto, durante a feira literária, você levantar-se para ir à área livre fumar após o almoço. Sabe, cara, eu nunca tinha tido a oportunidade de sentar-me à mesa de um grande escritor e fazer minha refeição. Não falamos de Literatura. Você perguntou em quem eu e Andréia votaríamos. Estavam próximas as eleições. A Eliane Ratier puxou para o futebol, era o jogo de abertura da copa. Você vaticinou que a Espanha seria campeã. Eu apostei numa zebra africana.
Quanta bobagem! E só hoje percebo que o tempo daquele cigarro era justamente o tempo que eu teria para lhe perguntar: _Cara, o que acha de Machado? Sinceramente.

Abraço do blogueiro Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

Lízia Adriane disse...

Um maniqueísmo que o fará entrar para os primeiros nessa frenética disputa do guiness book da vida.

Adoro teus textos.

Maria Rita disse...

Parar de repetir qualquer ato vicioso é como deixar algo que nos faz tão mal e ao mesmo tempo tão bem...essa dualidade humana é de matar...rs

Dizer que amo o seu trabalho já é um clássico, mas mesmo assim vou dizer...AMO!!!

Beijos pra Ti

aline disse...

parei por três dias quando ganhei uma bicicleta.

ana disse...

Nesta fase o que ajuda muito é fazer algum esporte que usa as mãos. Resignificando o uso delas.

Priscila disse...

Deixar de fazer o que gosta e ter que fazer o que não gosta? Difícil, mas vale a luta se acreditar que o resultado será bom! Sorte!

dizcorra disse...

E o aniversário não é outra marca pro Guiness Book tbm?

Tudo é estatística.

Muito bem colocado sobre a situação toda...gostei do texto.

Tabus e recordes...qual o sentido...?

Morremos de qualquer forma.

Espero que não use esse conformismo que acabei de dizer como desculpa pra voltar a fumar. O cheiro é ruim. Afasta pessoas e te mata mais rápido. xD

Só pra ajudar um pouquinho. ;D

Abraços!

william disse...

wi l l i a m diz:
*Eles [fumantes] se colocam numa disputa, né?
Ingrid diz:
*...
*Segundo o texto sim.
*Mas parece que sim mesmo.
wi l l i a m diz:
*É uma auto-disputa que usa outras pessoas como adversários... sendo que, no fundo, ele próprio é o maior concorrente...
*E a pressão de fulano ter completado 30 décadas de ex-fumante, pode desanimar tbm...
*Outro ponto: mesmo que ele deixe de fumar, sempre será um ex-fumante.
*Não só para fumantes, mas na nossa vida sempre seremos 'ex', né?
*Já pensou nisso?
*Ex-carnívoros, ex-vivos, ex-políticos, ex-amigos...
Ingrid diz:
*Uhumm...
*"ex-carnívoros..."
wi l l i a m diz:
*Mas tipo, para os fumantes, eles não podem recomerçar um ciclo. Tipo, carnívoro>vegetariano>carnívoro. Não fumante>Fumante>ex-fumante>fumante>ex-fumante...
*Saca?
*Voltar ao que eram.

Evelin Araujo disse...

Fumei por três anos e parei de fumar. Em março fará um ano (há de fazer!) Sinto a mesma vontade do primeiro dia em todos esses dias de abstinência. É como ser muito cretina se eu não conseguir por mais 24 horas. Ok, meu comentário não serviu para te aliviar. Boa sorte!

Silene Neves disse...

Oi Fabrício!

Então... hoje é meu dia (digo noite!) de sorte. Estava na busca por frases, textos ou poesias de sua belíssima escrita, e acabei chegando aqui!

Meu blog tem uma frase sua... que define tudo pra mim e sou sua admiradora!

Preciso comprar o livro "Mulher Perdigueira" para me deliciar com suas palavras!

Deixo meu beijo... e carinhos pra ti!
Saio daqui muito feliz!
Sil

Fernando Imaregna disse...

Olá Fabricio...

Quando resolvi retomar meu blog, naveguei pela blogosfera para encontrar a turma que anda "fazendo a cabeça" da moçada por aí, neste ambiente que se tornou uma febre...acabei te encontrando, seguindo e, vindo aqui para dar uma espiadinha nos textos contundentes com os quais nos brinda sempre.

Um dia, há dez anos atrás, parei de ingerir bebidas alcoólicas mas, me "programei" para pensar que seriam somente por 24 horas...Hum rum...Um dia de cada vez, sem longos projetos, sem ansiedades, na perspectiva de que se torna mais fácil largar um vício se pensarmos na brevidade do tempo em que não faremos uso dele...

Um dia, no futuro (e principalmente depois de ler esta matéria), vou parar de fumar também, já que sinto o cigarro como um apêndice em minhas mãos, e preciso delas ainda para poder escrever...dez dedos me bastam, eu sei, mas o desejo ainda se sobrepõe à força de vontade...

Sorte para ti...
Um forte abraço
Fernando

Gleide Pereira disse...

Ai...que saco isso tudo, viu??? Gosto tanto dessa bosta de cigarro e ele me faz tanto mal...igual ao cara que eu juro que amo...
Tô na estrada também. Depois de algumas tentativas frustradas de parar abruptamente, resolvi diminuir a quantidade. Antes, 10 a 15 por dia; hoje, dois. Meu cardiologista disse que dá no mesmo: "lutar contra um é igual a lutar com 15...",quase eu dô uma resposta mal criada pra ele!

Bem, força e coragem, viu? Vamos em frente!

Você é massa.

ana disse...

Ih Fabricio , tem tanta gente se espelhando em você...Agora você não pode mais voltar a fumar, pois muitos dependem da sua perseverança para também parar. Inclusive meu irmão. Eu falei para ele : de acordo com o Fabricio mesmo que você pare sempre será um fumante. Então é melhor ser um fumante que não fuma do que um fumante que fuma. Ele adorou a ideia. Não dá para entender a lógica de um fumante...(risos)

Anônimo disse...

me deu uma vontade de fumar um cigarro....

Anônimo disse...

Fabrício,

já fumei, não por muito tempo, mas intensamente, filtro vermelho, sempre! Digo que ainda sou um fumante, só estou sem fumar há quatro anos.

Sempre fui um ferrenho defensor dos direitos dos fumantes, tal como Mário Prata. O fumante virou a personificação do mal, excluído, isolado, olhado com desdenho.

Todo mundo que fuma ou começa a fumar sabe dos malefícios, é só problema dele. Têm de se respeitar reciprocamente. O fumante já paga caro pelo produto - em impostos - pra compensar os males que ele terá no futuro e o fará usar o SUS. É um tipo de aposentadoria!

Acredito que o problema do cigarro seja a dependência psicológica, ou vinculações, se podemos chamar assim. Entra no carro, mesmo sem vontade, acende um cigarro. Atende telefone idem, abre uma cerveja, duas, três... Pra dormir, acordar, pro café, depois do almoço...

Minha maior dificuldade foi me desvicular desses hábitos... Não foi nem tanto ver alguém fumar. O que na verdade passou a me incomodar na maior parte do tempo. Aí comecei a acreditar que mais chato que um fumante é um ex-fumante.

O curioso, porém trágico, é que eu fui o primeiro a deixar de fumar de uma turma e não fui incentivado por ninguém. Todos diziam "larga a mão disso", vai voltar daqui 3 dias... Hoje a maioria resolveu parar!

Fumar é "bom", dá prazer, se assim não fosse, ninguém fumaria... Eu era daqueles que irritavam os outros dizendo "espera um pouco, vamos fumar mais um cigarro antes", pra ter mais cinco minutos de conversa... Isso as 5 da manhã!!! O que eu costuma chamar de "a pá-de-cal"...

Uma amiga, que não fumava, dizia que fumar é ter companhia... Você está parado fumando e alguém pergunta "está sozinho?", sempre respondemos, "não, estou fumando"... Depois de um tempo notei que ela tinha razão...

É uma grande muleta!

Mas quando você se liberta descobre que tudo é melhor ainda não fumar, voltar a sentir sabor, odor... O seu cheiro em si muda e isso foi o que mais pesou na minha decisão. O cheiro de si muda, não há perfume que resolva o fedor da fumaça que impregna invariavelmente...

Quando eu ia pra balada, na volta minha roupa tinha que ficar do lado de fora do quarto... Fuma-se em qualquer lugar fechado. Hoje, ao menos aqui em São Paulo isso está vetado, mudou os ambientes... Até os fumantes gostaram, apesar de ter que sair do lugar pra fumar...

Aí você começa a pensar: num lugar, animado, cheio de gente bonita, ter que sair pra fumar? Não é muito, aliás, não é nada racional... Fumar escondido, debaixo de chuva, no frio, no banheiro... Se o fumante se der conta do que ele passa pra saciar o vício, acaba vendo que não vale a pena!

Mas apesar de tudo isso ainda me pego às vezes olhando pro meu Zippo agora sem uso, paro em tabacarias... Mas o que eu gosto de ver mesmo são filmes antigos, nos quais todos os personagens fumavam, claro, marketing da indústria tabagista. Esse dias estava revendo "Os Caça-Fantasmas" e praticamente todos eles aparecem fumando, o que seria impossível hoje em dia... Mas chega encher a boca d'água, coisa que não será boa pra quem está no início da jornada!

Raramente, cedo à tentação e dou umas "pitadas" num cigarro de palha com o autêntico fumo-de-corda mineiro! É a única exceção, pois em termos de cigarro, a radicalização é necessária...

Acho que falei um pouco além da conta. O assunto é estimulante, apesar de ver amigos e parentes padecerem de câncer devido ao vício. Todo prazer tem seu preço, esse acho que é um pouco caro demais! Pena que existam pessoas que ainda não se convenceram disso, minha mãe é uma delas...

Abraço...

Rodrigo.

P.S.: Se existir algum erro, perdão, escrevi de primeira!

Margareth disse...

Oi Fabrício, sua mente se mantém fiel as lembranças e saudades de um companheiro de dedos e boca que te hipnotizava com sua fumaça em disfarce de amigo. Mas seus pulmões estão em festa é o que demonstram seus membros inquietos de felicidade em sua abstinência. Mantenha-se firme e forte, se distraia com leituras, escritas, verdadeiro amigos, ... Em fim tudo que te traga prazer e satisfação. Que a sua paciência te deixe convencido que esse é o tipo de amigo que você não precisa assim como ele não precisa de você. Continue usando a sua catacumba colocando pequenos objetos que te servem, deixe-as nos locais de sempre, como um troféu do fim, testemunhando a sua vitória, pois os cinzeiros não servem só para depositar corpos em cinzas. Aproveita um para plantio, para que um dia possa dizer: o meu cinzeiro foi à arma que venci a guerra. Até lá, muita garra nessa luta.
Margareth.

Anônimo disse...

Fabro,

Eu tive um amante, amante no sentido daquele que se ama com tanta força, vida, ama-se mais que a si, mais que aos outros, mais que a tudo que se passou até então....Aquele amor extasiante como uma montanha russa: as melhores subidas e as piores descidas...Um dia vc decide que na sua vida não há mais espaço para esse amor...Mais tarde, quando o tempo passar só daí conseguirá ver: não importa o quanto tempo passe, vc sempre será aquele amante ou sempre será um fumante...O fato é que todos os dias decide o que terá ou não em seus dias...

Fran