quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ETIQUETA DA CAVALARIA

Arte de Cínthya Verri


Os homens não confessam suas fraquezas, realmente são discretos em suas lamúrias. Diante da pancadaria verbal da parceira, apanham em silêncio. Têm preguiça de se defender. Resmungam apenas, e se entregam a polir os cascos. Não respondem nem quando cobertos de razão. Esvaziam qualquer xingamento com miados de falsa obediência: “Já vou”, “ok”, “certo”, “desculpa” e “logo faço”.

Se as patroas estão dispostas a comprar briga, eles não emprestam o cartão de crédito. Saem das zonas de conflito, que costumam ser o quarto e a cozinha (não tem sentido brigar na varanda). Procuram os ferrolhos do polícia-ladrão doméstico. Afinal, descobriram que a discussão depende mais do aposento do que da fragilidade de seus envolvidos. Alguns marmanjos se encaminham para a trégua da garagem, outros sujeitos investigam a origem das mesas mancas. Os trabalhos de marcenaria e de mecânica permanecem sendo os favoritos para espairecer.

A verdade é que a turma masculina não sobreviveu à vigilância materna e chegou, exausta, à vida adulta. Porque, na infância e adolescência, nenhuma mãe concedia folga, pedia para ajeitar algo a cada minuto. Arrumar o quarto, então, era uma cobrança implacável. Toda mãe tem alma de governanta, toda criança é vocacionada à camareira.

A esposa deveria pôr a mão na consciência, fazer um exercício de generosidade e concluir que seu marido não é um filho da m. ou da p., e sim o filho da sogra. Um pensamento singelo capaz de revolucionar os relacionamentos. Num instante de lógica, verá o quanto ele sofreu e agradecerá que não é tão sequelado, que pode caminhar e se barbear sozinho.

O macho merecia mais respeito, suporta em segredo o insuportável. Por exemplo, nunca vi marido reclamar dos tufos de cabelos no box. É um argumento implacável, porém proibido pelas regras de etiqueta da cavalaria.

A mulher abandona um monumental aplique nos azulejos do banheiro, larga a cabeleira de Elke Maravilha no cantinho, e não recolhe. E permitimos que ela desfile pelo corredor após o banho. E deixamos que vá impune ao serviço.

A mulher doa mechas inteiras ao piso, empreende um reflorestamento sanitário, e não falamos nada.

O ralo sempre entope; e ela jamais entende o que aconteceu, e dá-lhe inferno e dá-lhe Diabo Verde.

E ainda reclamam dos respingos de nosso mijo.




Crônica publicada no site Vida Breve

17 comentários:

Foquinha! disse...

Já estamos progredindo para melhor serví-los, hahahaha, abraços!!!

Patty disse...

Mulher é um bicho sensível, mas esse instinto de mãe que possuímos em querer tudo arrumado pelos maridos (filhos) é terrível. Avançaremos!!! rsrs

Sexo c/ Amor? disse...

Eu adorei. Meus cabelos não caem, eles se atiram!
beijo

Mima disse...

kkkkkkkkkk

Muito bom.

Minhas Caixas disse...

é perfeito de tão esclarecedor!!rsss..

Cinderela disse...

Sabia que stress faz cair os cabelos? Geralmente causado pela convivência tensa com o outro, por um ou outro motivo, considerando isso, a culpa será sempre dele, não tem jeito.

Anônimo disse...

Cinderela tem razão.
E em relação à infância e as exigências maternas, mulheres sofrem muito mais.
Acho que cabelos no ralo são mto pouco, perto dos respingos de xixi e outras peripécias dos homens.

CLAUDIA disse...

Não sei do que gostei mais, se da crônica ou do comentário da Cinderela hahahaha.
De qualquer forma .... muuuito bom!

Gabriela Pecantet. disse...

Se diante da pancadaria verbal os homens ficam em silêncio é pq tem, pelo menos, um pouquinho de culpa no cartório! Adorei o comentário da Cinderela!!

Lidiany Schuede disse...

Mas olha, eu vou continuar reclamanda dos respingos de mijo, viu? hahaha
Muito interessante o texto, principalmente por ser tão sincero! Beijos :)

Arissa disse...

A Fabro, vai dizer que você contribui para os pingos de xixi no vaso?
Você sempre me pareceu pertencer ao grupo dos que fazem xixi sentado pra evitar o estresse feminino.

Cinderela disse...

Eterna guerra, nunca vai acabar. Às vezes eu fico com pena, principalmente quando leio a crônica, mas aí eu me lembro do quanto a gente sofre, e logo passa. Melhor você desistir.
PS.: Fico horas olhando as fotos de Fazendo a cabeça, gosto de JESUS e NECAS, e CIO também, gosto da parede vermelha que aparece (a que está brincando de esconde-esconde), muito. É você mesmo que faz? É que fica meio tortinho.

Juliana Medeiros disse...

Impressionante a semelhança com o espécime lá de casa...

Val Pacheco disse...

Cara... eu sou sua fã, mas fã mesmo! :)
Adoro essa coisa de redação do cotidiano, acho lindo! digno! fodah!

Seria pedir demais... fazer um convite pra visitar meu blog e dar uma opinião?
http://donavalpacheco.blogspot.com/

bjus
val

Francisco Carrasco. disse...

Belo texto. Adorável e revelador. Espero que a minha esposa leia sem que eu presise pedir, talvez ela entenda as minhas esquivadas.

Maria Tereza disse...

Que Revolta Farroupilha, Fabrício! hahahahaha... =)

Janine Lorenzo disse...

hahahaha pior que é verdade!