segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O DIÁRIO ROSA E O LIVRINHO NEGRO

Arte de Fra Filippo Lippi

Não existe segredo quando escrito.

Minha irmã Carla, 14 anos, mordia a caneta Bic e arredondava a letra em seu diário. Passava horas a fio com o caderninho rosa, acolchoado, formato de coração. Ela nunca nos permitia folhear, muito menos ver onde guardava.

Eu e os outros três irmãos queríamos descobrir o que ela escrevia. Devia ser o namoro proibido no portão, os beijos na boca, as juras e promessas eróticas e tudo aquilo que provocava risinhos quando ela cochichava com suas amigas no recreio.

Irmão foi feito para denunciar; não fugíamos à regra.

Um dia, quando ela estava no dentista, destrancamos a veneziana e pulamos a janela para investigar seu quarto. Abrimos todas as gavetas, remexemos as roupas, torturamos suas bonecas. Óbvio que as barbies eram mulas do tráfico do amor, conheciam o paradeiro e não entregavam sua dona.

Encontramos o embrulho quase desistindo da tarefa, no fundo falso da escrivaninha.

Nem abrimos, entregamos diretamente aos pais - ainda dizendo que Carla pediu para que eles avaliassem os erros de português.

Nossos pais viram tudo, menos os desvios de concordância. Carla apanhou, chorou, ficou de castigo.

Eu ri a princípio, depois me arrependi da maldade.

Para me retratar, decidi fazer, então, um diário. Redigia duas ou três linhas sempre antes de dormir, como uma reza profana, e mantinha minhas confidências distantes dos manos.

Se eles descobrissem, estava ferrado. Evidente que não me poupariam do vexame e repassariam o objeto para a censura familiar. E queimaria na Inquisição da churrasqueira.

De madrugada, quando ninguém me enxergava, confiava o meu livrinho negro, com desenhos de caveira, na fronha do travesseiro. Miguel ou Rodrigo, um dos dois, fingiu dormir e desvendou o esconderijo.

No dia seguinte, pedi de joelhos que me devolvesse, implorei que não mostrasse aos outros, ofereci minha coleção de bolitas de gude, nada contentou a dupla.

Meus pais me chamaram para conversar. Fizeram questão de ler alto a todos o que estava anotado em meu diário.

"Adoro lavar a louça e varrer as folhas do pátio, minha mãe precisa de ajuda para não envelhecer."

"Meu pai tem sido um bom conselheiro, quero ser igual a ele no futuro."

"Os irmãos são anjos que me protegem dos tropeços na escola."

"Nada melhor do que uma missa para começar o domingo."

Fui extremamente elogiado, paparicado, reverenciado. Meus irmãos tiveram que me engolir como exemplo durante anos.

Coloquei minhas mentiras no diário para viver as verdades em segredo.

Literatura é confundir. Ou você acha que isso que escrevi também é real?

14 comentários:

Bel disse...

Uau! Queria ser esperta assim...

euEumesmaEaline disse...

Ótimo! =)

segunda flor disse...

"Coloquei minhas mentiras no diário
para viver as verdades em segredo."

Que lindo! Já nasceu escritor.

Pablo Vinícius de Oliveira disse...

Muito legal. Soube país de uma situação difícil e ainda se deu bem.

Fernanda disse...

Olá! Sou professora e hoje quando perguntei aos meus alunos do 6º ano o que eles tinham lido nas férias, um deles disse que pasou as férias tentando ler o diário da irmã, e que ele esconde muito bem o dele pra ela não ler. E agora descubro este texto lindo. Vou levar pra sala de aula amanhã mesmo!

Margareth Senra disse...

... "senããoooooooooo"... eu lá fazendo tudo que você queria... meus programas de tv mais importantes... seus... os carros que eu era dona na rua... seus..."senããoooooooooo"... tb o dia que eu descobri o "cigarrinho de folha de caderno e papel de pão"... que os três fumavam.. a coisa melhorou.. por pouco tempo ...

Miriam disse...

Irmãos...as vezes anjos...as vezes diabinhos em nossas vidas...

Blog da Cris disse...

Incrivel! Por isso que sou apaixonada pelas letras! Elas fazem e acontecem nas mãos de bons maestros! Parabéns!

Augusto Dias disse...

Companheiro...

Você é impressionante!!!

Adorei! Um abraço!

Kauana Botelho disse...

"não é preciso que uma história seja real, desde que ela seja possível."

é, acho que aprendi.
um baita abraço!

Marcia disse...

O que que se pode dizer sobre isso?
Simplesmente... adorei!

Mara Melinni disse...

Feito tantos outros, admiro muito seu trabalho, espero conhecer mais a partir de agora. Quem dera um dia ofertar meus escritos de um jeito próprio tb...

P.S.: Acho que a história é verídica!! rsrs...

Abraços

.h disse...

Acho que a coisa mais divertida, como autor, é ouvir a pergunta "mas isso aconteceu mesmo? É tudo verdade?" E eu só fico rindo e pergunto de volta "O que você acha?"

Suzy Rhoden disse...

'Literatura é confundir', eis a razão do meu amor por esta área, a graça, o mistério... Você dá e retém ao mesmo tempo, nunca se sabe o quanto. Os acréscimos ou decréscimos ficam por conta da imaginação do leitor...
Bela crônica, como sempre!

Abraço.