sábado, 6 de agosto de 2011

TERAPEUTA DOS CAVALOS

Mais conhecido especialista em treinamento de equinos de Passo Fundo, Paulo da Costa Lamison já domou 120 garanhões e éguas em três décadas. Fotos de Tadeu Vilani


O redondel é o divã, as baias são a sala de espera, o minuano agitando as figueiras forma a música ambiente.

Paulo da Costa Lamison, 53 anos, é o mais conhecido terapeuta de cavalos de Passo Fundo, cidade de 185 mil habitantes, situada a 284 quilômetros de Porto Alegre. Domou 120 garanhões e éguas em três décadas de atividade. Criadores largam em suas mãos o destino de animais valiosos, que custam mais de R$ 100 mil.

Natural de Soledade, com passagem por Mato Grosso, pai de dois filhos, Lamison é perito em relinchos e montaria. Não há raça que não se adoce com seu rosto triste, anguloso, de olhos fundos e negros e sobrancelhas em formato de acento circunflexo. Vestido como o figurino campeiro manda, de botas, bombacha, lenço e chapéu, ele não admite frescura no trato com seus pacientes e desdenha o palavrório difundido por filmes como O Encantador de Cavalos:

– Ternura sim, pose não. Ué, cavalo não é retardado para papear todo momento em suas orelhas. Excesso de voz cansa. Treinador que somente fala o que fazer será considerado chato pelo bicho. Cavalo é feito de silêncio.


Lamison suspende o corrimão das legendas e confia na inteligência do envolvimento.

– A rédea é minha voz. E a única verdade é o contato.

Andando de cabeça baixa, para demonstrar humildade, o domador leva quatro meses para cumprir a doma e 11 meses de preparo aos rodeios (o equivalente a uma segunda gestação). A terapia já se inicia pelo modo que se ata o laço e as cordas do cabresto.

– Um nó malfeito irrita e machuca.

Muitas vezes, Lamison é procurado pelos donos para curar traumas. Complexos de Édipo e de Electra, de Cinderela e Peter Pan não têm serventia na cocheira. Os problemas são outros:

– Complexo contornável é quando o cavalo se fere ao pular arame, e passa a temer a proximidade das cercas. Brabo de superar é quando o cavalo corta a boca com o buçal. Estraga a educação: sangrará sempre na mínima mexida. Ele se torna absolutamente arisco, antissocial.

O analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Verissimo, conheceria novos métodos do pelego. Assobiar, por exemplo, é pré-requisito do terapeuta, uma graduação necessária nas lidas do inconsciente equino.

– A mãe Benedita me educou ao assobio de longa distância. Sem assobiar, cavalo não abre o coração.

Quem concebia a doma pela força, na base do grito e da pressa, acaba se surpreendendo com as sutilezas da negociação. Seduzir não corresponde a apenas mandar, fazer muxoxo e ter firmeza para colocar a sela e arreios. A longa convivência é que gera o entendimento.

– O bichano é uma antena, não recomendo esconder nenhum sentimento dele.

Distinto de sua fama, o cavalo não é resistente, mas hipersensível. Pode morrer de cólica, gripe ou tétano. Não se deve tirá-lo do campo e substituir sua alimentação simplesmente pela ração. O essencial é reconstituir a atmosfera rural de nascença.

– Cada cavalo é um idioma. Temos que descobrir sua habilidade, ver se gosta de trabalhar com o boi, saber quem foi o pai e a mãe, observar o temperamento de irmãos e irmãs, compor a árvore genealógica para definir quais os melhores comandos e evitar que ele dispare e enqueixe à toa.

O fim da análise – e a alta – representa a fase mais espinhosa. Quando Lamison coloca de lado o atendimento individual e se impõe como terapeuta de casal. Período de explicar e repassar os fundamentos do treinamento ao dono, para que o trabalho de respeito seja mantido. A tarefa agora é domar o patrão para domar o cavalo.

– Trato o cavalo, para depois tratar o cavaleiro, para em seguida tratar os dois juntos e acasalar o ritmo.

Além da liberdade por fora, cavalo feliz é o que fica solto no próprio pensamento.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 33, 06/8/2011
Porto Alegre, Edição N° 16784
Veja vídeos de nossa passagem por Passo Fundo

7 comentários:

Pedro Bravo de Souza disse...

Gostei muito do texto. Teu jeito de descrever é surpreendente Carpinejar, e as falas do Paulo me impressionaram muito também: "Cavalo é feito de silêncio."

Parabéns aos dois.

Abraço,
Pedro Bravo
http://www.fotosdepalavras.info/

Mara Melinni disse...

Uma lição de vida que deveria ser lida por todos nós, seres humanos, racionais pela capacidade de pensar, mas estupidamente burros pela maneira grosseira de tratar o nosso próximo, que dirá um animal.

Belo texto, estou aprendendo muito aqui!

Belo exemplo de vida, fiquei encantada.

Abraços

Mima disse...

Eu me lembrei de quando li As Viagens de Guliver. A partir do livro, comecei a ter certa paixão por cavalos. É bonito aprender um pouco mais sobre eles..

Abraços

XOXÓ NO SEU FIOFÓ disse...

amigão, te espero lá no blog:

http://cariboxoxo.blogspot.com/

entre e leia história de Alexei Bueno e Ivan Junqueira (código alexena)

Super disse...

Fabro, Fabro...

Os acasos da tua escrita sempre tão próximos de meu fantasma, tão impossível prmanecer indiferente após a leitura..
Que lindo as palavras que escol este para descrever tão belo trabalho! A própria leitura trNsmite paz. E silencio.

Martina

Ceiça Honorato disse...

Suas palavras são gotas douradas, regadas com cheiro de terra molhada, levitar a alma na doce estação do encontro.
Parabens! Quando puder, Acesse esse simples blog http://docestacao.blogspot.com/
Abraços,
Conceição Honorato

EUSTAQUIO OLIVEIRA disse...

Achei bacana demais o texto. Muito obrigado por compartilhá-lo :-)
Queria postar aqui o trailer pra cavalos com apartamento que a gente faz. Talvez interesse a alguém aqui. Vlw!