domingo, 13 de novembro de 2011

ALEGRIA DEPOIS DOS 85

A RECEITA DE QUEM VIVE MAIS NO INTERIOR

A cidade do interior é uma aliada da longevidade.

Velhos não são velhos, tornam-se referência cultural, são chamados respeitosamente pelo sobrenome, não abandonam a própria casa, mesmo com a independência dos filhos, e assumem o papel de conselheiros dos netos.

A receita é permanecer trabalhando e sendo visto, não mudar os hábitos, não fugir do convívio, continuar encontrando os amigos e seguir com as atividades domésticas e familiares. Dois personagens mostram que envelhecer não é sinônimo de isolamento.

Em Ibirubá, município de 18,7 mil habitantes da Região Noroeste, Etwin Schweig completou 95 anos sem tirar o pé do acelerador do seu trator vermelho. Já nas Missões, em São Luiz Gonzaga, terra de 34,5 mil moradores, Giovani Fontoura está com 85 anos bem alinhados. Todo dia veste terno e gravata para atender os clientes no balcão de sua joalheria.

TANGO DE ALEMÃO

Disposição não falta a Etwin Schweig, 95 anos, para tocar bandônion ou cortar lenha. Fotos de Marcelo Scapini.

– Onde está Etwin Schweig?
– Cortando lenha.
– Onde está Etwin Schweig?
– Foi para o centro buscar o jornal.
– Onde está Etwin Schweig?
– Na rádio, tocando bandônion.
– Onde está Etwin Schweig?
– Com seu grupo de Tiro ao Alvo.
– Onde está Etwin Schweig?
– Nos festivais.

O que Ibirubá mais pergunta é onde está Etwin Schweig. Ele não cessa um minuto. Ou está carpindo ou limpando o pátio ou gemendo sua sanfona para alegria dos cachorros, que uivam sincronizados às frequências musicais.

Sua disposição é lendária na pequena cidade. Artista autodidata, faz questão de autografar o CD Schweig e seu bandônion com a data de nascimento: 3/1/1916. É o toque final para humilhar os preguiçosos.

– Minha base espiritual é sesta e chimarrão. E não se meter em confusão. Se o outro não me bate, eu não brigo.

Com 95 anos, viúvo, não há como controlá-lo. Morador de 36 hectares às margens da rodovia Cruz Alta-Tio Hugo (ERS-223), investiga o movimento das ruas em cima de seu trator vermelho (entre as crianças, mais famoso do que o trenó do Papai Noel). Das janelas das casas, meninos e meninas acenam quando avistam a simpática e fofa cabecinha branca do motorista.

– Troquei a pressa pela memória, e saí ganhando – pontua.


Se contar o tamanho da família, os shows pelos festivais de Passo Fundo e Frederico Westphalen nunca estarão vazios. Tem oito filhos, 26 netos (incluindo o prefeito Gustavo Schroeder), 22 bisnetos e seis tataranetos.

– É uma torcida desorganizada, numerosa demais para controlar – brinca o filho Rudi, professor aposentado, 64 anos.

Schweig toca nas escolas da região, ensaia manhã e tarde, não falta a um encontro do grupo de amigos “Os Divertidos”, joga conversa fora na Agência de Correios e não passa uma data sem mexer na terra ou limpar sua Massey Ferguson.

– Teimoso é quem teima com ele – afirma a filha Lor, 62 anos.

Mambembe, extrovertido, econômico, sempre se virou com pouco. Aprendeu meia dúzia de composições antes de servir ao Exército. Viveu com esse limitado repertório durante uma década, animando os bailes alemães.

– Como não tinha recursos para aulas particulares, começava e recomeçava as seis canções por noites inteiras – confessa.

– Hoje gravei 13 peças, já estou melhor do que naquela época.

Seu segredo é tocar a mesma música como se fosse uma nova. Com igual frescor e sincera descoberta. Todo mundo pensa que é outra e dança com a força de uma estreia.

– Acho que é assim que sou, não canso de me repetir.

CONDUZINDO MISS JESY

Com vitalidade de sobra, Giovani Fontoura, 85 anos, madruga para trabalhar na sua joalheria. Fotos de Rogério Sartori.

Ninguém acerta sua idade, até Giovani Fontoura erra de primeira, diz que tem 83 anos, vacila, coloca a mão no queixo para acertar seus 85 anos na segunda tentativa.

Não é problema de desmemória, é excesso de vitalidade.

A cada amanhecer, ele desmente sua certidão de nascimento. Morador de São Luiz Gonzaga, casado há mais de seis décadas com Jesy Poppe, 81 anos, não reclama de coisa alguma. Nem do casamento, sequer de dor nas juntas. Muito menos de levantar cedo, às 5h, para abrir sua joalheria, onde continua atendendo ao lado da mulher.

– Os minutos que usaria para reclamar uso para agradecer – esclarece.

Puro sorriso, irônico, proprietário de um jazigo para ter sorte, costuma se antecipar às situações para oferecer ajuda e se mostrar necessário. Tanto que se tornou o motorista oficial da própria empresa. Não transfere responsabilidades aos empregados. Viaja semanalmente para Cruz Alta e Porto Alegre com objetivo de renovar o estoque.

Com jeito de lorde, não abre mão da modernidade, do estofado de couro creme, do som de última geração e do câmbio automático.

– É um velhinho trigueiro – conceitua Jesy.

Bota trigueiro nisso. Anda embecado, relógio grande, sapatos envernizados. É um dos homens mais elegantes da Avenida Senador Pinheiro Machado, a ponto de ser chamado pelas lojas de roupas masculinas a dar palpite nas compras de cada estação e preparar o nó das gravatas das vitrines. Típico sujeito que toma café puro, usa mesóclise, esconde o apelido familiar dos outros (Nenê) e tem um lenço branco no bolso do terno.

– O máximo de seu despojamento é dobrar as mangas da camisa – confessa a companheira.

Ostenta nobreza sem sacrificar a rotina atlética. Não difere de quando era adolescente. Faz musculação três vezes por semana e corre nos domingos. Para completar o quadro, abusa dos traços românticos.

– Se o sonho feminino é receber joia, dei uma joalheria inteira para minha mulher.

Filho de agricultores, sobrevivente das dificuldades da roça, onde dividia a fome com oito irmãos, desdenha da aposentadoria.

– Trabalho há 71 anos. Comecei consertando relógios, talvez tenha aprendido a atrasar meu próprio tempo.

Giovani brinca de ser a campainha da loja. Grita bom-dia assim que alguém ameaça atravessar os limites do capacho do prédio. Qualquer visitante que entra ganha atenção de um profeta.

– Não gosto de cidade grande. Na cidade pequena, você vive melhor e todo mundo lembra quem você é. Morremos quando somos esquecidos.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, ps. 34-35, 8/11/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16885

4 comentários:

Lu disse...

"Se o outro não me bate, eu não brigo." Isso é ensinamento à beça. :)

~ ' laura velho ' ~ disse...

Oi, adorei ver meu tio Giovani nesta reportagem, quando o vi a última vez estava, aprendendo a tocar piano, quanta vitalidade e força de vontade.
Marinês Fontoura

Marco C. Leite disse...

Sensacional.. como sempre... abraços

antoniolopesteatro disse...

Bah!Tenho por quem puxar!! Quero envelhecer com essa disposição!