terça-feira, 8 de novembro de 2011

QUERO UMA CASA NO LITORAL

Arte de Allen Jones

Meu desejo é ter uma casa no litoral gaúcho.

Não me aquieto até que cumpra meu objetivo. É uma espécie de aposentadoria, testamento emocional. Uma residência em Porto Alegre e outra para o veraneio. Fugiria nos dias quentes para o refrigério marítimo. Xangri-lá seria minha Isla Negra, onde escreveria as memórias e guardaria a coleção da revista Placar.

Desde adolescente, observo classificados à procura de barbadas. É surgir uma placa de “vende-se” no alto de uma janela que arregalo as sobrancelhas e decoro o número da imobiliária. No celular, deve existir mais de 30 números de corretores.

Sei que os filhos já cresceram, que não vale a pena manter um endereço fechado o ano inteiro para reabrir nas férias, que terei que pagar caseiro, taxas e impostos, que o melhor é viajar pelo país com o mesmo dinheiro.

Apesar das contraindicações, não desisto, teimo que quero e quero, como uma criança segurando chocolate no supermercado. Compenso a falta de argumentos com beiço.

– Você já parou para pensar o motivo de tanta vontade? – perguntou a amiga Diana Corso.

– Para descansar – respondi.

– Me engana que eu gosto, busca uma casa na praia para brincar de Interior.

Sua frase entrou na perna como um anzol. Ela me pescou, tirou o chão das palavras. Exata definição: ambiciono uma casa na praia para reaver a rotina simples e bucólica do interior do Estado, é meu modo de voltar a ser menino e não me preocupar com paranoia, travas, fechaduras, alarmes e cerca eletrônica.

É minha saudade do quintal, das roupas dormindo no varal, do mosquiteiro e das janelas abertas. É minha saudade da facilidade de fazer amigos, do chimarrão na varanda e de brigar sobre política com os vizinhos. É minha saudade de cumprimentar qualquer um que passa pela rua – qualquer um! – sem a necessidade de conhecer. É minha saudade de jogar cartas e rir novamente de piadas antigas. É minha saudade de preparar bolo de surpresa, de cultivar horta, de comprar veneno para formigas. É minha saudade de ser educado e pontual, do artesanato da vida, da carpintaria dos minutos.

Está explicada a adoração do gaúcho pela sua orla. A Estrada do Mar é o nosso túnel do tempo. O fanatismo pelas praias retilíneas é a possibilidade de retornar às origens, a uma época em que as crianças saíam a andar de bicicleta e apenas ressurgiam no jantar. E não havia o medo do pior, mas a confiança no melhor.

Ao passar pelo nosso litoral, vejo empresários cortando a grama, jogadores de futebol arrumando o telhado, pesquisadores varrendo a calçada, um mundaréu de gente morrendo de saudade, como eu, das discretas e deliciosas cenas domésticas e interioranas.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 8/11/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16880

23 comentários:

Rosi disse...

Legal o texto, mas eu faço tudo isto aqui mesmo em Porto Alegre. Cumprimento todos os meus vizinhos, varro minha calçada aos domingos, cultivo flores no meu pequeno quintal e passo os sábados fazendo tortas maravilhosas para meu filho! Embora trabalhe como uma escrava de capital de segunda a sábado.

Michel Ribas disse...

"E não havia o medo do pior, mas a confiança no melhor." Onde foi para este mundo? Saudades,saudades, saudades...abraço grande mestre Carpinejar, como sempre mais uma obra de arte!

Kinha disse...

bRINCAR DE INTERIOR... NOSTALGIA, NÃO É?

Marla disse...

Disse tudo!!! Foi esse o argumento quando sobrou dinheiro para comprarmos nosso primeiro imóvel e, para a estupefação familiar, adquirimos uma casa na praia.Garantimos nosso cantinho quase atemporal...

Eliane Ratier disse...

Delícia, liberdade para ser gente e só! Beijo, desejo que seu desejo se realize.

juliana disse...

Casa do litora gaúcho é pra matar Fabrício, o mar não ajuda nem um pouco, eu sou mais da Serra Gaúcha.

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

Carpinejar, acabei de chegar da praia. Maresias, litoral de SP. Moro no interior. Tem um pouco de fundamento isso aí, sabe? rs... No litoral volto a ser criança, minhas reminiscências são de despreocupação e de alegria sem fim, na praia. E o mar, segundo alguns, leva embora as más energias. A praia é o lugar da nostalgia. Abs

Escritos disse...

Muito lindo o texto! Como sempre. E é verdade... Praia nos remete a tempos bons, coisas boas. Mas, não querendo cortar o embalo, temos que lembrar que até mesmo nossas praias já tem sido alvos de violência, assaltos, etc. A vida tranquila na praia, de uns tempos pra cá, já não é tão tranquila assim. Inclusive lá também corremos riscos. Lástima.

Gisa disse...

Ir à praia é praticamente um dogma do porto-alegrense. Lembro de quando fui morar em Porto Alegre achava essa atitude estranha até conhecer o meu primeiro verão. O sol derretia o asfalto e o calor parado era irrespirável. Amo Porto Alegre e confesso que tenho muitas saudades. Sempre que posso retorno. Mas o verão... Prefiro evitar.
Um grande bj querido amigo (até o twitter)

Cristiane Q. Pimenta disse...

Perfeito Carpinejar! Voltei ontem de Maresias, litoral sul de sampa onde passei a última semana com meu amore da Bazófia que comentou logo aqui acima! É tão bom renovar as energias e como vc msmo disse voltar a ser menina e não me preocupar com paranoias, enfim...nada como voltar ao nosso interior! Ah...e lá tivemos a surpresa gostosa de assisti-lo no café filosofico! Maravilha! Grande abraço!

vervedirlass disse...

Ai que saudade me dá...lá, da correria das crianças da minha rua; como se fosse hoje as crianças que não correm mais. Praia não, serra sim!

Willian Ferreira disse...

Me sinto até estranho ao ler, sinto falta de algo que eu nem vivi, talvez nessa carne.

Leti Abreu disse...

acho que é só o nosso litoral que é assim, essa gostosura...

Anônimo disse...

Concordo com seu texto completamente. Que saudades...Estou perto de ter a minha lá em Imbé! Queria ter em bombinhas? Sim, sempre, mas ficaria muito longe dos filhos, que aos finais de semana vão encher minha casa, assim espero. Parabéns e boa sorte...Julio Prusch-Novo Hamburgo-RS

Ramiro Conceição disse...

Não há mar que console quando...


DOR QUE MÓI
by Ramiro Conceição


O fim do amar… é desvencilhar-se
duma dor que mói, não se sabe onde,
que zumbe… parecendo pouco,
mas que ensurdece… e deixa louco.
É um batuque a bater… no centro:
um triste-alegre… ao mesmo tempo.

Guilherme disse...

Parabéns! Lindo texto... Nasci em Porto Alegre e por 40 anos lá vivi.... Hoje moro em Pernambuco, mas já morei em São José dos Campos/SP, em Araucária/PR e em Maresias?SP (Que é litoral NORTE), goso da minha terra, mas a 5 anos me sinto muito feliz por não ter que voltar, as vezes me pergunto por que? ainda não encontrei a resposta, mas com certez, qdo voltar, espero que não seja no verão, assim como a Gisa comentou .... kkkkkkkk
Pena que o litoral já não seja mais o mesmo, tantas lembrança das férias de verão junto dos meus avôs queridos na casa da velha Pinhal, patinação ao lado da igreja, nossa... melhor nem falar se não a emoção já começa a aparecer.. Qum não teve esta oportunidade, sinto muito ....

Marina Ramos disse...

Nem sempre o desejo vem com argumento, bula, ou baseado em algo racional, né? As vezes a gente deseja, e pronto! Adorei o texto!

Dalva Maria Ferreira disse...

Belo texto, como sempre. Você estava um amor no Café Filosófico.

Paulo Caldas disse...

sempre penso em um dia morar numa beira de um rio manso, largo e comprido, tendo uma canoa atracada bem perto da minha porta. nesse lugar morrerei. quero uma vizinhança aconchegante, próxima e ao mesmo tempo distante. daquelas com as quais nos comunicamos com um grito: ô fulaaaaano! e ela responde: diiiiga sicrano! nos visitaremos a qualquer hora do dia ou danoite. mas cada qual no seu canto. vamos andar de barco, pescar, pedir um punhado de farinha e ter uma colher de sal caso precise. jogaremos baralho, dominó ou dados e falaremos da vida dos poucos alheios que estiverem ausentes. faremos fogueiras, contaremos e ouviremos causos, histórias de trancoso e mentiras de pescadores e caçadores dali e de além rio... quero morrer num lugar assim!

Luciana Castilhos disse...

Bah...Carpinejar!!! Como sempre lindo texto. Ele me levou para tempo idos no Pinhal...nossa como era bom...saber que estava na hora de voltar da praia, pelo cheirinho de pão da padaria Golfinho, pelo molhadinho da grama nas manhãs quentes...passar pelo Túnel Verde..nossa é muita lembrança boa. Mas agora moro em Natal/RN a cinco minutos da praia e por mais incrível que pareça não é com a frequencia da infância que chego a molhar os pés... estranho, não sei...diferente...adulto demais agora. Antes era tudo mais leve, mais poético... Mas o Pinhal estará sempre aqui, grudado na retina e no olfato das melhores lembranças! Beijocas.

Ranúzia Mello disse...

No fundo, no fundo, sabemos exatamente o caminho da nossa felicidade. Adoro seus textos.

Anônimo disse...

mariapivetta@terra.com.br Eu li este testo na ZH,e pensei, qual praia ele quer? Tenho casa no litoral, foi arrombada 3 vezes ,levaram maq.de lavar roupa,frezer ,etc,etc, hoje pago empresa de segurança todos os meses e por aí vai, tudo igual a POA ou qualquer outro lugar,minha casa aqui na ``CAPITAL´´ é toda gradeada, porque também foi arrombada diversas vezes quando eu estava no LITORAL.....SEGURANÇA,ONDE ???

Anônimo disse...

Olá, boa tarde. Super identifiquei com o texto, e é pura verdade. Sou do litoral norte SP, São Sebastião, aquela cidade que tem praia de Maresias (bairro). Atualmente moro no interior paulista, fui em busca da minha graduação. Irão completar 2 anos que mudei da praia,mas,ainda, sinto imensa saudade e conexão com o litoral, tanto que, após me formar pretendo fazer especialização em batimetria ou a fim para permanecer na praia. Quando o sentimento arrebatador aperta, recorro as músicas de reggae, tais como Armandinho, Planta e Raiz, CBJr,entre outros, para aliviar a angustia e que ao mesmo trás paz interior e tranquilidade.