terça-feira, 13 de dezembro de 2011

GUIA MICHINELÃO DE HOTEL

Arte de Richard Estes

Sobram críticos dispostos a definir se um hotel merece cinco ou quatro estrelas. Nunca faltaram voluntários ao luxo. Qualquer um quer fazer parte da equipe secreta do Guia Quatro Rodas.

Por outro lado, já não é fácil conhecer um palpiteiro para nos prevenir dos piores cafofos, dos muquifos sem nenhuma constelação, com neon do letreiro falhando e eletrocutando insetos.

Para evitar roubadas, formulei o primeiro Guia Michinelão do país.

Não espere nada da estrutura hoteleira se o recepcionista entrega o controle da TV com a chave do quarto. Não espere nada mesmo se ele entrega também as toalhas de banho. Não espere nada sinceramente se ele entrega junto um rolo de papel higiênico. Isso é acampamento.

Não espere nada do quarto se não consegue efetuar ligação para a recepção. Não espere nada mesmo se não observa um telefone no local. Não espere nada sinceramente se apitar um interfone na parede. Isso é cortiço.

Não espere nada se a porta depende de uma manha para girar a chave. Não espere nada mesmo se as lâmpadas estão queimadas. Não espere nada sinceramente se o frigobar aparece vazio e desligado. Isso é a casa da sogra.

Não espere nada se não há ar-condicionado. Não espere nada mesmo se não há ventilador. Não espere nada sinceramente se não há janela. Isso é presídio.

Não espere nada se a TV não disponibiliza pay per view. Não espere nada mesmo se a TV possui só canais abertos. Não espere nada sinceramente se a TV apenas transmite o circuito interno do prédio. Isso é zeladoria.

Não espere nada do banheiro que tem uma cortina de plástico floreada no box. Não espere nada mesmo se não vê nenhum desnível do piso demarcando as áreas da privada, do chuveiro e da pia. Não espere nada sinceramente se tem um rodo atrás da porta. Isso é serviço militar.

Não espere nada quando entrar no quarto e o lixo transborda de sujeira. Não espere nada mesmo quando deitar e comer mechas loiras do travesseiro. Não espere nada sinceramente se você é careca. Isso é trabalho comunitário.

Não espere nada quando o hotel oferece prostitutas na recepção. Não espere nada mesmo quando o hotel oferece prostitutas no corredor. Não espere nada sinceramente quando chegar ao quarto e encontrar uma prostituta na cama, com o valor do programa incluso na diária. Isso é bordel.

Não espere nada quando não achar cardápio no quarto. Não espere nada mesmo se não achar a lista telefônica. Não espere nada sinceramente se não achar a Bíblia na gaveta.

Todo hotel tem Bíblia. Desculpe informar, mas você está no inferno.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 13/12/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16916

5 comentários:

Puto Transtornado disse...

É vero, cara! Se o sujeito lhe entregar o controle remoto com a chave, fudeu!

Alice Mânica disse...

Eu adorei essa crônica! A cada parágrafo eu dava uma gargalhada!!! Fantástico!

Mauro Castro disse...

Dia desses, um passageira me achou parecido com o Gianecchini (depois do câncer, é claro). Mas não deixa de ser um evolução: antes me confundiam contigo...
Há braços!!

O sofrologista católico disse...

Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão. Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.

Anônimo disse...

Ufa, demônio! Agora estou começando a gostar do inferno.