terça-feira, 17 de setembro de 2013

PEQUENOS CÉUS SOMADOS

Arte de Carel Fabritius

O pássaro que voará mais alto é o pássaro que nunca desistiu de puxar a coleira.

Será a ave amarrada pelas patas que não se conformou com o confinamento da gaiola e que toda manhã esticará seu corpo até o máximo.

Até o máximo daquele dia.

Não pode se soltar, mas nem por isso se sentirá preso. Não é livre, mas nem por isso deixará de admirar a possibilidade de flanar.

Se não tem condições de brincar com as árvores, brincará com sua sombra.

Se não tem como brigar pela comida, valorizará o alpiste que recebe em sua tigela quebrando minuciosamente cada grão.

Se não tem vento para expor sua plumagem, baterá as asas para fazer vento em si.

Se não tem o sol na cara, levantará as unhas pelas barras das grades por um punhado de luz.

O pássaro que voará mais alto sempre é o que – enquanto não pode voar – canta, é o que – enquanto não pode subir – caminha, é o que – enquanto não pode planar – afia 

o bico.

Não reclamará da falta de opção, usará as opções que tem.

Não pode voar, mas treina seu voo esticando a coleira até o máximo. Até o máximo daquele dia.

Puxará a corrente ao limite. Somará pequenos céus com os centímetros de sua corrente.

Tudo o que voará depois será resultado de tudo o que andou em seus limites. Cinco passos repetidos à exaustão darão o condicionamento de quilômetros. Não estará 

destreinado para as alturas, já que exercitou seu fôlego no chão.

Não desistiu de avançar mesmo com a ausência de espaço. Não se restringiu a uma aparência apagada. Não se encabulou pelo sofrimento.

Quando não havia chance de sair dali, aproveitou a solidão para se conhecer.

Quando não havia com quem conversar, aproveitou o silêncio para afinamentos.

Deveria ser triste pelas suas circunstâncias, porém é feliz pelo temperamento.

Deveria ser melancólico pelo destino, porém é confiante no acaso.

O pássaro que desaparecerá um dia no alto das nuvens, como se fosse mais uma nuvem, foi o pássaro que jamais parou de tentar.

Só voará alto quem carregou suas penas.

Só voará alto aquele que criou seu lugar um pouco por vez, aquele que formou sua virtude em segredo, aquele que não culpou a vida para se manter parado.

Liberdade vem com o tempo, liberdade vem devagar, liberdade é esforço. Não ser do tamanho de nossa prisão, mas ser do tamanho de nossa vontade.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 17/09/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17556

10 comentários:

NetDaniels disse...

:)

Olhos Espertos disse...

Delicioso texto, revigorante mensagem.

Zoraya Silva disse...

Uau!!! Que tapa na cara!!!

Claudia almeida disse...

Muito bom! me identifiquei com este pássaro!Abraco!

Alex Calderari - jornalista disse...

oi fabrício, já ouviu? http://www.youtube.com/watch?v=foAkdkCBayQ

Severina disse...

... e quando você chega em casa achando que teve um dia terrível e que não há muito o que fazer, você lê Carpinejar e aí? recobramos a nossa consciência e algo se reaviva em nós! Adoro seus textos!

Hanna Aikel disse...

Maravilhoso! :)

Eva disse...

Lindo demais, emocionante! beijos!

may disse...

"eu sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura"

Achei lindo! Importante lembrar como a falta e a pena nos movimentam, como a angústia é criativa e como a gente não pode deixar de estar em movimento (ainda que estejamos fisicamente parados/limitados/amarrados) para que estejamos, de fato, vivendo...

Cleia Lima disse...

Texto maravilhoso.