terça-feira, 14 de julho de 2015

AGUENTE DECLARAÇÕES DE AMOR SEM GRACINHAS

O sarcasmo destrói a sinceridade.

Já fui vítima e já fui algoz.

O homem, principalmente, tem vergonha de se declarar e vive se escondendo em brincadeiras. Tem vergonha de se emocionar e vive mascarando com piadas os momentos próximos das lágrimas.

É perceber que vai chorar ou umedecer os olhos que ele retira uma ironia do fundo de si para escapar ileso da entrega.

Em vez de retribuir uma delicadeza ou entrar no clima romântico, ele vem com uma grosseria para tentar descontrair.

Não faça mais isso, aprendi a não fazer.

É tão difícil ser sincero, leva muito tempo para o outro encontrar força para dizer algo importante, não banalize o encontro com a sua desatenção.

É custoso formular o que talvez nunca tenha sido dito para ninguém, não estrague com o deboche.

Sua namorada pode ter atravessado décadas naqueles minutos para entender um sentimento e partilhar uma verdade.

Relembre seus amores platônicos e doloridos da infância: quantas vezes procurou se declarar para uma menina, as frases subiram até a boca e voltaram ao silêncio? Você deseja que sua companhia passe pelo mesmo sofrimento?

Ninguém é covarde sozinho. Somos covardes porque nos deixam sozinhos com as palavras, não somos ajudados a falar o que nos incomoda.

Apoie a coragem de sua namorada.

Devemos economizar e preservar as confissões de amor. Devemos valorizar e inspirar as confissões de amor.

Temos que diferenciar a hora da ironia da hora de falar sério.

Não desestimule a sinceridade com palhaçadas. Drama pede meia-luz, mãos dadas e olhos nos olhos (o gênero comédia romântica é uma mentira – é só romance, colocaram comédia no nome para forçar o namorado a ir ao cinema).

Não dê motivos para que ela desconfie de seu compromisso – é o que acontece quando reage superficialmente diante de conversas mais profundas.

Fique quieto, parado, ouvindo, sei que você se enxergará emparedado, encurralado, assustado com a queda repentina de testosterona no corpo, pronto para abrir a porta do riso e sair correndo, mas segure a respiração e suporte escutar que você é a pessoa mais importante de alguém, sem baixar a cabeça, sem buscar refúgio no celular, sem nenhuma gracinha.

Serão juras que salvarão o relacionamento quando estiver em crise.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  14/07/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18223

2 comentários:

Cleydson Ramones disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cleydson Ramones disse...

"Não desestimule a sinceridade com palhaçadas. Drama pede meia-luz, mãos dadas e olhos nos olhos..."

Achar o meio termo que essas aspas representam, de saber a hora certa de deixar o personagem comediante de fora, é um obstáculo.

Eu,
que sempre fui bem humorado - citando isso como característica, e não
como qualidade -, sempre tive muita dificuldade com isso tudo que é
relato nessa Crônica.

Só agora, quase na casa dos 30 anos, estou aprendendo isso de maneira melhor.
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