quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CRISTALEIRA



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi

No centro da sala da escritora Martha Medeiros, reina uma cristaleira impecável, linda, com os vidros desenhados.

Estanquei na porta de acesso do corredor para observá-la com calma. Não era mais uma cristaleira, e sim uma religião.

Quando fui elogiar, Martha já se desculpou:

- Comprei pela metade do preço. A loja avisou que estava arranhada.

Procurei encontrar a avaria no móvel, alisei longamente a textura da madeira e não localizei nenhuma fissura, fenda, risco que pudesse ser chamado de dano.

- Onde está o arranhão, Martha?

- Embaixo das gavetas. Mal dá para ver.

Mal é eufemismo, não dava para ver mesmo. De modo nenhum.

Depois sozinho em casa, ruminei a  cena vivida com a amiga, e constatei que repetimos o tratamento culpado  da loja com a cristaleira.

Sofremos por um defeito que ninguém enxerga, ninguém repara, e nos vendemos para os outros pela metade do preço.

É uma desvalia que retira o nosso orgulho de viver, a nossa confiança, e nos rebaixa a aceitar qualquer valor, ainda que humilhante.

É alguém que se acha feio, alguém que se acha pobre, alguém que se acha burro, alguém que se acha inexperiente, alguém que se acha lento, alguém que se acha travado, alguém que se acha tímido, alguém que se acha tolo e se entrega quase de graça, não exigindo nada, suportando tudo, sendo criticado ou zombado e sem condições de revidar porque colocou na cabeça que tem um arranhão invisível.

Quantos se acham estragado e entram num casamento ou num emprego para serem maltratados por algo que nunca será descoberto? Quantos acreditam que não merecem um amor inteiro, desenganados pela ilusão de um problema pessoal, e aceitam a insalubridade dos amantes? Quantos se rendem a uma dificuldade inventada e se submetem à caridade e às sobras das horas de terceiros? Quantos sofrem à toa por algo que nunca será percebido?

Quantas pessoas, lindas, impecáveis, no centro de um relacionamento, que não se respeitam por uma falha absolutamente imaginária?

Coluna Semanal
Publicado no Portal Vida Breve
03.08.2016

3 comentários:

Yan Gabriel Banks disse...

Palavras Deslumbrantes!!!!!

wander disse...

Sempre cativando...vc é otimo

wander disse...

Sempre cativando...vc é otimo