quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

É DAS CRIANÇAS O REINO DOS CÉUS

Arte de Cínthya Verri


Eu vi o umbigo de Cínthya brilhando na praia, com o rescaldo do protetor. Era lindo. O círculo perfeito, como uma laranja oferecendo seus gomos lânguidos, como um ouvido e seu brinco perolado, como uma concha cintilante de espuma. O cálice de ouro da Herbelle que o pai não permitia usar.

Fiquei com vontade de recitar o Cântico dos Cânticos. E beber caipirinha de vodka no umbigo. Embriagar-me; um Salomão do litoral gaúcho.

Aproximei meu braço vagarosamente em sua direção, com o dorso inofensivo da mão, descendo dos seios até a cintura.

Quando entrava em suas cobiçadas bordas, ela soltou um grito. Por pouco, não recebi uma bofetada para alegria da indiscrição praiana. Foi um beliscão. O beliscão é uma agressão infantil, um tapa introspectivo.

“Nunca mais toque aqui!”, ela advertiu. “Nunca mais ou acabou nossa relação.”

Eu me assustei, cavei um buraco na areia para me esconder como uma tatuíra. Nem discuti, muito menos argumentei. Sondei que fosse um trauma. Ela agiu com uma tal sanha que pareceu que tinha cometido o mais grave pecado matrimonial. Algo óbvio, unânime, básico, tipo roubar ou matar. Talvez fosse uma nota de rodapé dos dez mandamentos.

Como não me ensinaram isso na educação sexual na escola, bem que a professora poderia ter me avisado no momento em que colocou uma camisinha numa banana catarina? Como não me alertaram no curso de noivos? Como o padre não me disse, antes do sim definitivo: não coloque o dedo no umbigo dela e será feliz!

A mulher não admite marmanjo manuseando seu umbigo. É molestá-la, pior do que passar a mão em sua bunda ou assoviar barbaridades na rua. É uma afronta ao narcisismo, passível de divórcio. Entra na categoria de abuso, de assédio moral.

O umbigo é o ponto de hibernação da feminilidade. É como mexer em sua bolsa, em sua nécessaire, em seu estojo de pintura.

Cabe ao esposo ser um voyeur, chupar os dedos, admirar de longe.

O reino dos céus do umbigo da mulher é restrito aos filhos.

Diante da curiosidade dos pequenos, ela facilita o acesso. Para o marido, o umbigo é pântano com jacarés esfomeados. Para o filho, é uma piscina natural, uma duna para descer de prancha.

Acolhe a pureza e a ingenuidade de sua criança. Deixa o moleque brincar, espiar, instalar uma plataforma de petróleo. Não espantará o rebento com ameaças. Explicará a origem do mundo com serenidade amorosa.

A concavidade demarca um elo exclusivo da maternidade. O filho continua preso ao cordão umbilical. Por todos os tempos. Já o homem, mesmo que seja seu homem, é um tarado com segundas intenções.



Crônica publicada no site Vida Breve

24 comentários:

Tati disse...

Odeio que mexam em meu umbigo! Argh!

mirian, disse...

Hahaha, adorei!
Embora meu marido tenha total acesso ao meu umbigo sem reclamações ou caras feias... isso me torna uma mulher anormal??

George Dantas disse...

A minha namorada adora quando fico brincando com o dedo no umbigo dela! Pra mim, fazer isso é uma terapia de relaxamento! Mt bom!

Luis H disse...

Enquanto criança brinque, abuse, faça o que quiser com o umbigo alheio, pois depois que crescer, só poderá admirar de longe.

Anônimo disse...

EU ADORO TUDO O QUE VC ESCREVE. VC É GENIAL.
MAS QTO A CRÔNICA ,QUEM SABE CERTAS MULHERES NÃO GOSTAM QUE TOQUEM NO SEU UMBIGO PORQUE É ALI QUE ELA TEM O ELO MAIS DOCE QDO GERA UM FILHO ! EIS AI UMA QUESTÃO A SER PESQUISADA HEHEHH...
UM ABRAÇO CARINHOSO .
ASS: ARLETE (LLELLETTI)

Valéria disse...

Mexer no meu umbigo = morte! Carpinejar desvendando mistérios femininos.

Juliana Oliveira disse...

Eu também nunca deixei meu namorado mexer no meu umbigo, e vc acertou de novo, é propriedade não acessível para os homens, menos os filhos, como vc msm flo! HUAUHAUH

Leandro Lima disse...

São essas pequenas observações que te fazem ser o que é!
Sempre foda (com perdão da palavra)!

Marina disse...

Ufa... Me senti normal agroa. hahahaha
Eu ODEIOOOOOOOOOOOOOOOOOO que encostem no meu umbigo!

Mundo of World disse...

Muito bom! Assim que possível vou testar minha mulher! rs

Janaina Cruz disse...

Taí, ainda não tinha observado por esse ângulo, o umbigo como a porta central da feminilidade, imprópria para marmanjos, mas ao alcance dos filhos...
Isso é verdade, além de ser porta de prazeres carnais, é a nossa aliança eterna com nossos filhos... :)
Gostei de mais blog, passo a segui-lo.

Mikaela: disse...

Ah, eu não concordo com você Carpinejar.

Eu simplesmente ADORO quando o meu noivo acaricia o meu umbigo, seja com a ponta da língua ou dedos. É delicioso.
Sentir a ponta dos seus dedos descendo suavemente dos seios até o umbigo? hummm...
Vontade de quero mais, com certeza.

Bem, cada pessoa conhece perfeitamente os seus pontos mais sensíveis ao toque e aqueles que não devem ser tocados jamais. Ao menos assim deveria ser. ahaha... Se a sua gata não curte, então não faça. ;)

Beijo intenso,
Mikaela.

Ana Ribeiro disse...

Que umbigo é esse afinal, ao qual você se refere? Com que maestra concavidade desvenda os segredos dessa palavra orifício... Encantador... fascinante.

Patricia Lio disse...

Achei que fosse só comigo, mexer no meu umbigo sempre foi violação, o que parece atrair a curiosidade masculina. Agora entendo o motivo.
Uma paranóia a menos, obrigada.

Bjs

Patricia Lio

Maria Tereza disse...

não vejo nada demais em mexer no umbigo. =|

Letícia Ferre. disse...

Achei que eu fosse anormal... Parabéns por cada letra escrita.

Anônimo disse...

Sou anormal então?? rsrs

Glaysson ST. disse...

'Até que o umbigo os separe...'. Excelente.

Evilanne disse...

Incrível como certas coisas, mesmo sendo mulher, só consigo ver explicação/fundamentação depois de ler alguma crônica sua! Sintia o mesmo mal estar quando meu namorado mexia no meu umbigo e não possuia nenhuma ideia sobre o porquê... agora posso ao menos dizer que tenho alguma explicação. Parabéns por cada palavra escrita!

Dalyane disse...

Adorei!!! Tenho a mesma reação da sua amada Carpinejar...Meu umbigo é sagrado.Todas as reações que você descreveu são as mesmas que sinto ao mexerem em meu umbigo.

Umbigostoso disse...

Oi Carpinejar !
PARABÉNS pelo tom poético como escreveu este texto. Tomei a ousadia de transportá-lo para o meu blog(claro preservando os direitos autorais e de fonte de pesquisa)...
Você soube escolher cada letra, cada palavra ao escrevê-lomcom doçura.Excelente!
Mas, como toda regra tem exceção, a exceção sou eu. Adooooooooooooooro que o meu marido mexa em meu umbigo e adooooooooooooooooooooooro mais ainda mexer no dele: beijá-lo, sugá-lo, acariciá-lo e uma série de outras delícias....

Abraços

Umbigostoso.

PS. Visite meu blog: umbigostoso.blogspot.com

Anônimo disse...

Oi Carpinejar

Parabéns pelo tom tranquilo e poético como escolheu cada letra. Seu texto é genial. Fiquei mais feliz ainda em saber que você colocou em público aquilo que eu pensava ser só um pensamento meu.
Em outras palavras, cara, minha esposa adora bagunçar em meu umbigo. Sou vítima desta sanha há dez anos (quase onze). Tenho dois filhotes e os danados aprenderam o que não deve com a mãe. Para ela o meu umbigo é espaço de prazer e para eles, espaço de lazer.
Eu, pobre coitado, não posso nem pensar em tocar no umbigo dela. Já tentei e sofri o diabo ( beliscão, bofetada, mordida e ataque de cócegas promovido por ela e meus filhos)...Diante disso, percebo que devo ser refém dos três mas, não devo me atraver a tocar no umbigo da Sarah, só olhar de longe e sem ser notado...

Obrigado por refletir tão bem, em palavras, meus sentimentos em relação ao umbigo de uma mulher, ou melhor, de nossa mulher.

abraços e sucesso

Ronnie Machado

Crédito Pessoal SP disse...

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Anônimo disse...

Nossa eu devo ser a normal... Pq eu sinto prazer pelo umbigo....tipo desde criança isso me dava um sensação boa e quando cresci o prazer pra ficar bom eu tinha que no mínimo "machucar" claro por fora....tipo apagar fósforos, apertar com alicates , botar ele pra fora e apertar enfim tinha que doer para me dar prazer....tanto que adoro uma lingua no meu umbigo....hj n acho mas graça machucar mas a lingua é perfeito....ate mesmo o dedo....sério e da prazer.....nuss sou doente !