segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PARA QUE SERVEM OS HOMENS

Arte de Richard Estes


Meu pai saiu de casa quando tinha sete anos. E entrei em pânico.

Atormentado de coração. Porque a mãe só reclamava que não havia mais ninguém em casa para matar baratas.

Não lamentou o fim do casamento de três décadas, a despedida brusca, e sim o término da proteção contra o esgoto.

Pensava que o pai era um inseticida. Logo contraí saudade de seus olhos brilhantes de naftalina.

Assumiria a tarefa masculina da residência. Algo muito precoce, recém havia me acostumado a usar calça comprida. O mesmo que sustentar a família antes de entrar para a escola.

O duelo prometia. Na minha infância, as baratas experimentaram uma fase transgênica, de helicóptero. Balofas, imensas, crespas e voadoras. Acho que encontravam comida com excessiva facilidade (não varríamos bem o chão?), a questão é que pareciam ratazanas escuras nas costas de morcegos. Saltavam de um lado para outro. Planavam longamente. Com suas antenas delirantes, representavam a televisão 29 polegadas da época.

Eu não podia confessar que sentia nojo. Na primeira vez que ouvi o grito da mãe, ela me entregou seu chinelo havaiana azul 36 e me lançou ao batismo: “Mata rápido!”. Não contei com preparação psicológica nem fiz estágio com formigas.

O animal estava escondido na máquina de lavar. Persegui sua sombra, respirando pela boca. Meus cílios também se mexiam como patas.

O negócio é que não bati o chinelo com firmeza no piso, arremessei longe e a barata desapareceu na favela dos cascos de refrigerante.

A mãe não escondeu a decepção. Fechamos a cozinha por um dia, almoçamos e jantamos fora, tudo minha culpa. Deixei de crescer três centímetros devido àquela manhã de fracasso.

Já adulto, mato baratas sem piedade. Lamento que não recuperei o atrasado, seria mais vistoso com 1m80cm.

Talvez tenha adquirido o respeito de minha mulher. Ela também esperneia e solta gritinhos. Não compreendo porque ela sempre sobe no colchão quando vê uma barata. Seu susto brinca de cama elástica. Vou lá e resolvo a pendência com rapidez. Virei um justiceiro implacável e de sangue frio. Esmago a baranga e limpo com papel higiênico.

Gostaria que Cínthya matasse baratas em nome das mulheres do mundo. Mas sei que não posso confiar em mulheres que matam baratas. Fiquei satisfeito quando ela pegou uma mosca com as mãos. E comprimiu os dedos com a pupila tremendamente malévola. Foi uma atitude ninja, de reflexo judoca.

Na verdade, aquilo me deu mais medo do que de minha mãe. Ela me humilhou, eu que mal conseguia apanhar mosquitos. Não pretendo medir minha altura de novo.




Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, coluna quinzenal, p. 3, 06/12/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16541

33 comentários:

TÂNIA CAVALHEIRO disse...

BRILHANTE!Como sempre....

Mas HOMENS servem pra muito mais que matar baratas...
Isso eu também faço.
Com (MUITO) nojo (e berrando!) mas faço.

OBRIGADA POR ENTRAR EM MINHA VIDA...
Viva o TEATRO!

Dani Gomes disse...

Não entendi porque as mulheres que matam baratas não são confiáveis...

Eu mato! E só não o faço na presença masculina. É nosso "jeitinho" de deixá-los fazer o papel de super-macho.

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

Tania Aires disse...

Sensacional!!!! Nunca achei tanta graça!!!

Sue disse...

Sempre incrível! Sou fã incondicional...

Mai disse...

(me acabando de rir)
Não mato baratas; eu grito.
Mas você salvou o meu dia, com a favela de cascos, as havaianas arremessadas e a pupila malévola da cinthya. genial!

Cah Felix disse...

Fecho os olhos e dou a chinelada! É o jeito, mais sempre de olhos fechados e fazendo altas caretas, medo misturado com nojo!

Sempre demaisssssssssss, muito fã!

Anônimo disse...

Não só mato baratas como já trabalhei em dedetizadora.
Na presença do marido a gente tira par ou impar para decidir quem cuida da intrusa...

Dani Bender disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dani Bender disse...

Tbm não entendi pq as mulheres q matam baratas não são confiáveis...hehehehe...eu mato!
E te digo mais, sou melhor "no meu chinelo 36" do que meu filho e marido...nenhuma barata escapa.

Sensacional!!

Deisita! disse...

Estou curiosa para saber saber por que não sou confiável.
Será que desenvolverei mais uma neurose?!
Que horror... Eu mato baratas!

PERSONA disse...

NOOSSA! FOI MUITO DIVERTIDA ESSA CRÔNICA, NÃO PO
DERIA DEIXAR DE VIAJAR IMAGINANDO A CENA. SINCE-RAMENTE, Dirla.

Vampira Dea disse...

Os homens também servem para abrir potes. No entanto acho que tem algo de errado na minha vida. Sou uma única mulher numa casa de homens que me pedem aos gritos que mate baratas e abra os potes,coisas que faço com um olhar de superioridade de cima dos meus 1,60 contra os quase dois metros de cada um deles, dependem de mim, e conformada as vezes suspiro, tb queria ser salva.

Milena disse...

No meu caso preciso de um homem para colocar os plugs nas tomadas! morro de medooo! hahahaha
tenho mais medo de eletricidade do que de barata!

Genial sua crônica, pra variar..

PERSONA disse...

NOOSSA! REALMENTE RIO MUITO. ESSA CRÔNICA É UMA
DIVERSÃO, ATÉ IMAGINO A CENA. FABRÍCIO É UM SÁBIO EM NÃO QUERER, VIRAR "MELECA" NAS MÃOS DE CÍNTHYA. SINCERAMENTE, Dirla

Dalva Maria Ferreira disse...

Ihl!

Adriana Sousa disse...

Sempre matei baratas. Acho que também devo ter assumido o lugar de um pai que tinha medo de matá-las. Mas tenho um acordo pacífico com elas. Se ficarem no quintal, saem ilesas. Se entrarem em casa, já era.

Renata disse...

rs, tenho tanta fobia desses bichinhos asquerosos que pra ler o texto, imaginando a cena, foi complicado pra mim...

Cynthia Osório disse...

preocupada rsrsrsrs... se um homem servir pra matar baratas, pra mim, então, não tem serventia. Não tenho medo de baratas, acho mais nojento matá-las que vê-las passando, deixo-as em paz.As baratas passam. Quero um homem que sirva pra ficar!
Amo-te

Anônimo disse...

rsrsrs, amei, mas não só mato a barata como adoro pegar ela pelas antenas e sair correndo atrás daqueles homens que se tornam simplesmente umas bibas quando vêem uma barata.Isso deve ser por minha infância no meio do mato matando não só baratas mas qualquer bichinho que muitas julgam nojentos. Eu só não fico histérica com a presença de um bichano tão pequeno.

Karla Ketylin disse...

Oi Flávio!
Excelente crônica. Parabéns.

Tem um selinho de qualidade para você lá no meu blog! Passa por lá depois! Abraços Karla

http://arteboxflower.blogspot.com/2010/12/meu-primeiro-selinho.html

Lara. disse...

HAHÁ, demais! Admito que não sou fã de matar insetos, mas se a auto-defesa for muito necessária, até faço. E parece que essa pequena violência não combina com mãos femininas. Mas tem tanta coisa que parecia não combinar com as mulheres, e que hoje tiramos de letra (...)
Talvez a independencia feminina tenha começado com um chinelo na mão.

aline disse...

acho que não deveria confiar em mulheres que comem baratas, como aquela de Clarice, sabe?

Yohana d'Arc disse...

Rs...muito bom, confesso que dou gritos e saltos estilo matrix quando vejo baratas e não sossego enquanto o exterminador não me mostrar o corpo da bendita!rs Meu namorado tira sarro de mim e diz que é meu pecado feminista, que sim, só um homem pra fazer isso e nessa hora a razão é toda dele...rs*
Fabrício, adoro tudo que você escreve, descobri seu blog e agora não desgrudo mais! Estou lendo desde a última quinta-feira o "Mulher Perdigueira" e juro, não era pra rimar!rs...abraço!

Carla disse...

Estágio com formigas, hahhaa...
Nem que eu quisesse !
Tenho asno a baratas,nossa é impossível
nós duas no mesmo ambiente.
Quando isso acontece, meu beibi ta lá, rs


Beijos

Isabela Moraes disse...

entendo perfeitamente.
mas afinal, para que servem homens que não conseguem nem matar insetos?

Roberta Mendes disse...

Isso é que é fazer cócegas no nervo mais sensível! Me torci de rir diante do computador, um tanto histericamente, eu diria, talvez potencializado pelo nervosismo subjacente causado pela mera evocação da imagem da barata supersônica. Isso me lembrou muito da minha infância, quando morávamos no interior do Ceará, cercados de bichos assombrosamente rurais, para nós que nos pretendíamos urbanos: eram aranhas caranguejeiras, lacraias, cobras!!!

Meu pai, claro, era o único responsável por matar esta estranha fauna, no entanto, como trabalhava em outra comarca, passávamos a semana entregues à própria sorte, minha mãe,minhas irmãs e eu. Acho que era por isso que os bichos proliferavam tanto: nossa incapacidade de matá-los na ausência do pai.

Eu deveria ter uns dois anos e meio quando acordei um dia e dei com uma variante de barata rural, uma de casco azul cintilante, que, eu juro, era do tamanho da minha sandalinha havaiana da época. Cresci, mas a referência ficou: sempre que vejo uma barata titânica, digo que ela é do tamanho de uma havaiana. E as pessoas acham que eu estou exagerando...

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

Os homens servem para amar as mulheres! Amor lindo de proteção ao coração tão frágil que ela tem. Para isso servem os homens...

palavrinha:
aunhal

Aula de unhada? hehe? kkkkkkkkkkkkkkkkk

Ivi Medau disse...

Tenho uma amiga que não mata as baratas.Ela sente o cheiro delas no ambiente! Hahahhaha...

Um beijo, querido!
(mandei um e-mail pra você)

Teodoro disse...

Para isso inventaram os inseticidas spray. Pena que nem todos os nossos medos a gente pode enfrentar de longe.

Márcia Luz disse...

Crônica fidelíssima! Ajo exatamente assim com as baratas: subo no sofá, na cama, grito meus filhos (morro de pena do mais velho que sente muito nojo, mas alguém tem que fazer o serviço sujo...). Agi exatamente assim com o fim de meu casamento: lamentando a dificuldade de resolver coisas desse tipo.

Anita Pimentel disse...

Tão cotidiano. Tão poético. Um barato!

Eu sou bem confiável. Devo ser alguma exceção entre as mulheres-matadoras-de-baratas-e-outras-pragas!?!?!?!
Aliás, eu não gosto de depender de ninguém para quase nada(?!), então, melhor saber exorcisar meus demônios.
Meu irmão tem uma belíssima coleção de esculturas de baratas feitas por ele - nas exposições das esculturas, as reações eram dicotômicas: algumas pessoas diziam que 'Só assim pra eu gostar de barata!';'Como pode ser tão bonita uma barata?'; 'Tão linda! Pena que é barata!'. Algumas pessoas não abstraiam: 'Que nojo, barata!'E teve até o caso de uma senhora que quando viu a primeira barata, não entrou na exposição.
É interessante mesmo a repugnância que causa, mas acho estranho quando alguém diz que tem medo. Tenho uma amiga que jura que uma barata perseguiu ela pelo apartamento, enquanto ela emprendeu uma fuga desabalada.

Anônimo disse...

Eu ri muito da crônica e dos coments. Mas eu tb matava baratas, agora não tem baratas aqui em casa.é um BARATO esta parte que fala sobre a BARATA.
Mas mato com nojo tem que ter um bom estômago na parte do nojo. Eu tenho um parente que é bem valentão mas coloca a mulher na frente para matar aranhas pode? E ele não esconde de ninguém
(Ele foi assustado por um tio nosso que o fechou num galpão e disse que tinha aranhas) mas por sobrevivência qdo a esposa não tá em casa ele vai a luta para defender seus filhos.
e ai que vença o melhor hahahha...tenta imaginar a cena Fabrício.
abraço da arlete.

Anônimo disse...

Confesso que não li os outros comentários e se o meu for parecido, me desculpem.
Certa vez li, e não saberei dar os créditos a quem merece, mais o medo de baratas, por parte das mulheres, vem desde o tempo das cavernas. Esse, infeliz inseto, aprecia pequenas e úmidas cavernas. Seguindo essa linha comecei a entender o pavor feminino por esses bichinhos. Em terra de cego, quem tem olho é rei e as vezes aceitamos qualquer explicação como verdade, mais acho essa bastante razoável para explicar tal medo. Um grande abraço e ja sei que esse comentário nao será lido. haha.