terça-feira, 17 de maio de 2011

ANEL DE LATA SERVE DE ALIANÇA

Arte de Eduardo Paolozzi


Uma moeda antiga, uma almofada de alfinetes, uma pulseirinha colorida.

A gente se prende a uma coisa pequena, insignificante para o mundo, especial para nós. Não há como esclarecer o sentido da devoção.

É algo que combina com a alma mais do que com o corpo, que gira nas mãos como uma chave do pensamento.

*

Na infância, guardava uma pena de ganso dentro do estojo. Ai se algum colega tirasse do lugar. Minha irmã Carla usava uma correntinha de coração. A bijuteria barata seguiu pelo seu pulso vida afora. Nunca trocou por nenhum brilhante.

Eu senti o apego durante um voo de volta a Porto Alegre. Estava com um terno cinza, retrô, escrevendo no caderninho e, de repente, a caneta estourou. Demorei a perceber sua ação. A ponta transformou-se num soro, pingava cada vez mais grosso. Uma mancha de petróleo se espalhou pelo mar de linho. Eu me desesperei, peguei os guardanapos e comprimi as áreas atingidas pela tinta. Pedi ajuda para a aeromoça, que me alcançou um pano com água quente.

*

Redundei a poça ao esfregar o tecido, pichei sem querer as próprias roupas. A aeromoça me aconselhou:

– Por que não põe a caneta no lixo?

Apesar da sujeirada que causou, segurava a esferográfica o tempo todo. Protegia aquela peça suicida, de veias abertas.

– Por que não põe a caneta no lixo? – a aeromoça agora levantava a cesta, quase me ordenando.

– É verdade – disse, mas não a descartei. Bateu uma impotência. Fiquei com compaixão da caneta, do que ela havia anotado comigo, de sua fidelidade à minha letra.

*

Abandonaria o objeto quando ele mais precisava de mim. As roupas sujas não me doíam, mas a caneta gritava, era um osso de meu dedo. Porque ninguém iria se importar com ela, a não ser eu.

Sempre foi dessa forma: a caneta explodia em meu bolso e ia socorrê-la, alheio ao estrago que produzia em mim. Poderia ser uma Mont Blanc ou uma Bic. Não é pelo preço, e sim pelo misterioso valor emocional.

*

Se já temos uma relação obcecada e incompreensível com um simples pertence, imagine a loucura que é o nosso gosto amoroso. Desisti de justificar a um amigo o que sinto por uma mulher. Amor é muito pessoal. Não se explica. Não requer motivo. Talvez aquilo que seja o inferno para os outros seja o éden para mim. Nem procuro mais disfarçar as manchas.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 17/05/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16702

13 comentários:

Felipe Teles disse...

A caneta sempre esteve ali pra voce não?
E sua alma era forte e fiel, mas seu corpo fraco não aguentou e sangrou diante de sua própria fidelidade.
Qualquer outro abandonaria a caneta.

Amor é muito pessoal.
As vezes pessoal demais pra uma vida a dois não??

Parabéns Fabricio.

marri disse...

Caneta..amor .. tudo um mistério.
parabéns, amei.

Carmem Sanches disse...

Ah o apego, das coisas mais simples, aos amores mais inesquecíveis, é tão difícil, é como se desapegar de você, do que viveu, de momentos, bons ou ruins, mas momentos vividos na intensidade única do presente, que se foi, mas se personaliza num objeto ou pessoa.
Amei seu texto!
Obrigada!

Dalva Maria Ferreira disse...

Belo.

Letícia disse...

" Desisti de justificar... o que sinto"
Amar sem motivos
sem mentiras
amar, amar e amar...

Excelente!

Maria Tereza disse...

"Amor é muito pessoal." #superconcordo!

adriano moreira disse...

Amor ou algo de sentimento para nós é motivo tão grandioso,fabuloso que trascende o nosso coração,nosso corpo,nossa alma.Simplesmente existe,simplesmente é tudo,simplesmente é fato e ao tentar explicá-lo nos sentimos enexatos...
Valer Carpinejar.Muito bom!

JasonJr. disse...

...um membro, uma tatuagem, um sabor inesquecível ou uma amiga inseparavel e fiel...

Anônimo disse...

Esse cara é um Deus da escrita.
Carpinejar, meu maior idolo.

Marco C. Leite disse...

e são nas manchas que ficam as lembranças do trabalho que as canetas e pessoas nos dão, trabalho no sentido de nos ver, nos perceber e ser feliz com os nossos defeitos... é.. esse é o trabalho amor, nos manchar e nos mostrar a mancha que nos tornamos, nos deixando cada vez com mais manchas, de cores diferentes, até que ficamos belos, não pelas manchas mas porque fazemos parte da arte da nossa amada...

Abraços

Alessandra Safra disse...

adorei o texto.

"mas a caneta gritava, era um osso de meu dedo"

ai, que frase ótima. grita muito.

beijos nos seus dedos.

Mih Julich disse...

és exceção na minha teoria sobre as canetas...http://bloggerdasantinha.blogspot.com/2010/12/refletindo-e-aprendendo.html

Anônimo disse...

Caneta preta...Sei!hhahahahahaha...Zoeira! Pior que aquelas merdas estouram com facilidade mesmo.