terça-feira, 31 de maio de 2011

SALINHA

Arte de Van Gogh

O cheiro é meu alfabeto.

Esqueço nomes, não apago cheiros. Esqueço rostos, não abandono cheiros.

O cheiro é minha memória.

Não há como repetir certas fragrâncias: a da merendeira, por exemplo. Precisaria alternar maçãs e bananas, reeditar a porção certa de queijo, de manteiga e de mortadela dos sanduíches preparados pela mãe, refazer a umidade precisa do guardanapo que envolvia o pão e derramar o Nescau na hora de desenroscar a pequena térmica, durante cinco anos seguidos, para alcançar algo parecido.

O cheiro me explica, o cheiro é que me puxa. Revisei os principais cheiros de minha vida – o do cabelo de minha mulher após o banho, o do estojo de lápis de cor, o do balcão do armazém do Seu Zé, o do lençol novo de hotel, o de estofado de carro zero, o do forro das gavetas – depois de visitar a Escola Estadual Leopoldo Tietbohl, em Porto Alegre.

Entrei na biblioteca para uma palestra, e respirei fundo o ambiente das prateleiras de metal, das cartolinas e do universo retangular das mesas e cadeiras creme.

Levei um soco do vento, um solavanco.

Foi uma nebulização mais do que um acesso nostálgico.

Eu tenho uma biblioteca imensa, tenho amigos com bibliotecas imensas, pais com bibliotecas imensas, mas nenhuma delas tem um cheiro semelhante ao da biblioteca da escola.

As residências exalam um olor de visita, de horário marcado. Uma lufada impessoal de escritório, lustra-móveis, ar-condicionado. Apesar das estantes forradas e do convívio familiar, não é o cheiro da salinha de livros do colégio.

Não identifico o que existe de diferente. Mas vejo, sinto, confirmo a diferença.

Será que a passagem de milhares de alunos muda a textura das paredes? Que cheiro é aquele? Uma mistura de ventilador, de mimeógrafo, de papel secando, de bala azedinha... Um cheiro inexplicável, doce e salgado ao mesmo tempo, como alguém que mastiga bolacha de sal e bebe refrigerante.

Todas as bibliotecas de todas as escolas do mundo têm o mesmo cheiro. Pode ser a pressa das vozes ou as mãos suadas dos alunos nas páginas ou a combinação entre avental e uniforme ou a caneta bic falhada na ficha catalográfica ao final dos volumes ou a manta da bibliotecária ou seus suspiros por um amor platônico.

Ou pode ser que não entreguei algum livro emprestado e agora pago multa com as palavras.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 1º/06/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16716

16 comentários:

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Sabe o que é mais espantoso em você?

Sua capacidade genial de engarrafar estas essências.

Elizabeth. disse...

Nossa como me identifiquei com essa crônica. Muito mesmo. Parabéns.

Fernanda disse...

Amei a crônica! Lembrei do cheiro da biblioteca da universidade que estudei... Saudosismo brotou instantaneamente! O cheiro continua na minha memória.

Ana Paula Miola disse...

Ao abrir, todo santo dia, a página do teu blog, o cheiro que sinto é de cidreira colhida atrás de casa para fazer mate doce. Você é um grande escritor. Parabéns!

Silvestre Gavinha disse...

Cheiro é uma coisa feroz mesmo.
Talvez não em todo mundo. Em mim é. É o porteiro da minha memória. É o sentido que uso para comprar roupa, livro, escolher amigo, restaurante. Quando viajo é meu guia.
Adorei a crônica. Totalmente cinestésica. O cheiro atravessando a tela.
Um beijão Fabrício

Sue disse...

Sabe o que é mais espantoso em você?

Sua capacidade genial de engarrafar estas essências. [2]

Tb me lembrei dos cheiros das bibliotecas da minha infância e universidade, incrível isso!
Beijos!

Natasha disse...

O "cheiro" de tuas palavras confortam minha mente. Parabéns! Sempre brilhante!

A Mina do cara! disse...

e o cheiro dos livros antigos...? acho que todo mundo que é apaixonado pela escrita adora cheiro de livro antigo.

abraço

paulo disse...

totalmente excelente!

Gabriela Guimarães Cavalcanti disse...

Tua genialidade e inteligência emocional são feito sombra merecida d'uma tarde escaldante.

Anônimo disse...

AMEI!
(e isso é novidade?*rs*)

Um beijo da sua fã-bibliotecária,

Tati.

agoraéagora disse...

digo de novo, de novo e de novo: adoro-te!
simples como a vida é.

segunda flor disse...

Seus textos têm cheiro de bolo feito em casa, alfazema de vó,o aconchego em palavras.

Identificação total, me fez rever os cheiros da minha infância.

Parabéns e obrigada!

***

Jaciele Sell disse...

tudo q sempre tentei explicar sobre o que sinto sobre cheiros..
cheiros definem meus dias..tudo tem cheiro..e cada coisa tem um cheiro diferente...
nossa, mto bom 'se encontrar nas palavras de outro'...
aah, fazem 10 minutos q conheci teu blog! Me ganhou!

Anônimo disse...

Me lembrei de outro cheiro que invadia 'minhas narinas' quando eu passeava entre as pequenas prateleiras da Biblioteca e identificava meu cantinho predileto: cheiro de entusiasmo ao pegar uma história nova da coleção que eu gostava. É outra espécime de cheiro, hehe. Um abraço, vou guardar esse texto fantástico para aplicar em sala de aula, além de continuar acompanhando seu Blog!
Janine Lorenzo
https://www.facebook.com/profile.php?id=100001831194435

Jones Nicole disse...

meu namorado de dois anos, deixe-me por outra garota, porque eu acusá-lo de vi com outra garota e, desde então, tenho tentado fazê-lo, mas ele se recusar a voltar para mim, ele não estava respondendo a minha chamada ou e-mail e ele mesmo unfriend me no facebook e ele me disse que ele é feito com me.i estava pesquisando na internet para ajudar e eu vi um testemunho de como um lançador de magias ajudá-los a obter o seu ex de volta, então eu decidi dar uma chance e eu contactado ele e eu explicar meus problemas com ele e ele lançou um feitiço de amor para mim e me garantir de três dias que o meu ex vai voltar para mim e para a minha maior surpresa, o terceiro dia de um grande milagre caiu sobre mim e minha ex volte para mim no terceiro dia e ele me pedir perdão spellcasttemple@gmail.com eu vou continuar a publicar o nome dele, porque ele é o meu Salvador, e estamos prestes a ficar married.if você precisa dele para ajudá-lo Email spellcasttemple@gmail.com