domingo, 8 de maio de 2011

MÃE NÃO TEM FIM

Eu (direita) e Rodrigo no colo de minha mãe Maria Elisa, em 1974.

Minha mãe não tem igual. Eu não dormia fácil de pequeno, com aquele resmungo de cólica. Minha mãe me carregava no colo, me segurava pela barriga, e não me aquietava. Recusava bico, leite, conforto espiritual. Desdenhava da cama, do móbile, do carrinho, do andador. Aflita, ela pegava o carro e me levava para passear de madrugada. Na terceira quadra, me entregava ao sono. O carro foi meu segundo ventre. Até hoje quando sento no banco de trás, eu fecho docemente as pálpebras. É o único lugar em que fico em silêncio. Não me apresentei: sou o filho preferido de minha mãe. Meus irmãos também acham que são os filhos preferidos. Ela criou todo filho como se fosse único. Para cada um separava uma cantiga de ninar e um segredo. "Não conta para ninguém, tá?", ela me alertou. Como eu não falei para meus irmãos, nem meus irmãos falaram para mim, ninguém sabe qual o segredo que é meu, qual o segredo que é deles. Vários segredos juntos formam um mistério. É um problema quando estamos reunidos. Eu acho que ela cozinhou para mim, os outros também acham. É um problema quando estamos longe. Eu acho que ela só ligou para mim, os outros também acham. Ela reclama imensamente de mim, nunca está satisfeita com o que eu faço. Penso que somente reclama de mim, reclama da família inteira na mesma proporção. Assim como divide um doce de forma igual. Assim como divide o pão em fatias gêmeas. Mãe não tem dedos, tem régua. Reclamar é sua lista de chamada. Reclamar é um jeito disfarçado de sentir saudade. No fundo, torce para que eu me distraia de uma de suas regras. Ela aponta a louça para lavar, e logo limpa a pia. Ela pede uma carona, vou me arrumar, já tomou um táxi. Nunca pede duas vezes. Ou ela é rápida demais ou eu demoro. Na verdade, ela é rápida demais e eu demoro. Mãe é gincana. É agora ou nunca. Nem invente de responder nunca para ela. Sua reclamação tem virtude, sua reclamação é um quarto privativo, reclama só para mim. Para os demais, me torna muito melhor do que sou. Não me elogia para mim porque não quer me estragar. Tem esperança de que não me estraguei. Ela vibra quando encontra algo que não fiz. Inventa necessidades para ser reconhecida. Atrás da mínima palavra, pergunta se eu a amo. Ela escreve isso com os olhos, eu leio isso em seus lábios. O que a mãe mais teme é ser esquecida. Não tem como: mãe é a memória antes da memória. É a nossa primeira amizade com o mundo. O que parece chatice é cuidado. Cuidado excessivo. Cuidado a qualquer momento. Cuidado a qualquer hora, ao atravessar a rua, ao atravessar um namoro. Para o nosso bem, repete conselhos desde a infância. Para o nosso bem. Repetir o amor é aperfeiçoá-lo. Mãe não cansa de nos buscar na escola, mesmo quando não há mais escola. Mãe não cansa de controlar nossa febre, mesmo quando não há febre. Mãe não cansa de nos perdoar, mesmo quando não há pecado. Mãe não cansa de nos esperar da festa, mesmo quando já moramos longe. Mãe se assusta por nada e se encoraja do nada. Entende que o nosso não é um sim, que o nosso sim é talvez. Avisa para pegar o último bolinho, o último bife, em seguida arruma uma marmita para o lanche da tarde. Mãe tem uma coleção de guarda-chuvas prevendo que perderemos o próximo. Está sempre com a linha encilhada na agulha e caixinha de botões a postos. Conserva nosso quarto arrumado como se houvesse uma segunda infância. Mãe passa fome no lugar do filho, passa sede no lugar do filho, passa a vida guardando lugar ao filho. Mãe é assim, um exagero incansável. Adora chorar de felicidade nos observando dormir. Minha mãe chorava quando finalmente descansava no carro. Ela sussurrou o segredo, disse que eu era seu filho favorito. Não fofoquei para meus irmãos, não pretendia machucá-los. Eles também não me contaram que eram os favoritos dela.

É O INÍCIO DE TUDO.

24 comentários:

Jean Almeida disse...

Mãe é tudo, mesmo quando não se tem de nada.
Mãe é minha, mãe é sua.
Mãe também é pai.
Mãe além de tudo pode ser considerado um estilo de vida, no qual é capaz de abrir mão de sua própria felicidade para ser feliz através da felicidade do filho.
Mãe é tudo.
Sim, mãe é tudo.

honey disse...

nossa... que tudo! bravo, carpinejar!

Kelly disse...

Belíssimo. Mãe é anjo.
Navegando em blogs amigos, por acaso achei o seu.
Que bom. Gostei daqui.

cfk disse...

Parabéns pelas palavras, acredito que traduz a minha tb!!!

Carlos Magno disse...

Lágrimas... de dor, de alegria, de amor. Obrigado!

Laura Vasconcelos disse...

Parabéns pelas palavras. Mãe é tudo e um pouco mais.

Dirceu disse...

Bela reflexão, expressa a alma... a mãe...

Ramiro Conceição disse...

“MÃE NÃO TEM DEDOS”…

Talvez,
por isso,
tenha sido ela,
que esqueceu…

A ESCADA
by Ramiro Conceição


Há uma escada esquecida no telhado.
Quem subiu, e a esqueceu?
Mas, se subiu, foi pra onde
(acima há somente o céu)?

Será que foi Sábato que, quase aos 100,
morreu numa quarta longe do sábado?
Será que alguém pulou, fugiu e deixou
aquela escada esquecida no telhado?

Talvez tenha caído d’algum helicóptero
americano que invadiu o espaço aéreo
ao seu bel-prazer, como é de costume.
Ou será que caiu de dentro dum ovni?

Convoquemos a corja da grande imprensa.
Organizemos uma miríade de intelectuais,
de bandidos, digo, de políticos; de padres;
de pastores; e não esqueçamos do dito
papa bento com o seu defunto papa santo.
Coloquemos de prontidão a armada!

Faz-se necessário, que sejamos sensatos,
por favor, enquanto há tempo, contratem
qualquer um do quilate de Hebe Camargo:

“Quem foi a graciiiiiinha que esqueceu
a escada no telhado?”

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Afetivo, enxuto e sem rebarbas. Li num dos cantos do 'Uma Viagem à Índia', do Gonçalo Tavares, algo como a mulher, pela maternidade, ser o único ser humano. O resto da cidade são mamíferos. Valeu!

Gislene disse...

Linda a tua homenagem.

Um abraço.

Fernanda Schena disse...

Fabrício.. Li ontem a noite a tua crônica das Mães no anúncio da Panvel, no ZH. Eu, neste findi, fiz a minha mãe chorar com uma que eu escrevi sobre as mamães, tão simples... rárárá E você, meu caro, me fez chorar ontem quando lia a sua..
Você é demais. Adorei teu jeito de contar a história, tuas vírgulas, teus pontos.. Parabéns! Tu é do caralho com as palavras mesmo!
Eis que procurando, procurando, encontro teu blog.. Vou te seguir aqui.
Também tenho blog, se gostar da ideia, passa por lá!
Abração,
Fernanda Schena
Jornalista

adriano moreira disse...

grande poeta admiro muito teu trabalho valeu abraços.....

adriano moreira disse...

Fabrício admiro de mais teu trabalho literário.Parabéns pelos livros.Sigo teu blog.Adriano Moreira.
adyacolimoreira.blogspot.com/

adriano moreira disse...

Feliz por te encontrar.Grande abraço.Acompanho teu tabalho literário.sigo teu blog.

Anônimo disse...

Olá, Maurício, tudo bem?!

Acho bacana seus ensaios, você é um poeta legal.
Daria para escrever um conto, uma poesia, ou uma crônica sobre Jesus?
Vou ficar aguardando. Obrigada!
Abraço,

Clau

Anônimo disse...

Ah, e por favor, tire essa mulher pelada da ilustração do seu blog, pois esse é um sinal de machismo e sexismo, o que não combina com um poeta humano, sensível, gentil e amigo das mulheres. Abçs

Anônimo disse...

GOSTEI BASTANTE DO CONTO SOBRE A MAE, PORQUE AS MULHERES MERECEM SER LEMBRADSA COM TODO RESPEITO, POR TODAS AS PESSOAS QUE TÊM DIGNIDADE. MAE, PAI E FAMILIA SAO CONCEITOS SAGRADOS QUE NUNCA IRAO CAIR FICAR RETR[OGRADOS

MAS CONCORDO QUE A APOLOGIA DO SEXO, E DA COISIFICAÇÃO DA MULHER PARECE UMA DESCULPA OU UMA AUTOAFIRMAÇAO PARA AFIRMAR QUE É HOMEM E TER O DIREITO DE PINTAR AS UNHAS. SINCESRAMENTE... . NADA A VER. O MUNDO ESTÁ PRECISANDO DE POETAS MAIS HUMANOS E MAIS SENSIVEIS, MAS MACHISTAS NAO!!!!!

PELAMOR, NINGU[EM AGUENTA MAIS ISSO. É UM CLICHE HORRIVEL, TIRA ESSA FOTO DAÍ MAURICIAO, E PÁRA COM ESSA BOIOLOCE DE PINTAR A UNHA.... NAO LEVE A MAL O COMENTARIO, TAMBEM CURTO SUAS POESIAS. ABRACAO.

Camila disse...

Mãe é o amor em forma de gente. Me confudo então com a definição de amor, pois muito ela me criticou, gritou. "Apredi comigo pra não precisar aprender com a vida, ela dizia".

Tua mãe é muito mãe. Apenas.

Tania Aires disse...

Achei tão linda essa crônica que tomei a liberdade de publicá-la no meu blog tb! Com as devidas credenciais, claro!

Anônimo disse...

Beijo de Mãe! Beijo de mãe pois Mãe que sou,me achei em todos os quesitos mencionados e nos que não,tb!
Lindo,adorei!

Debora

Joice Buzzi disse...

Nossa lindo mesmo, adorei a crônica e me emocionei! Parabéns Carpinejar, por ser esse excelente escritor!

Ramiro Conceição disse...

Ao “Anônimo” que está grilado
com as unhas pintadas do poeta…



SAGA DE UM PUTO
by Ramiro Conceição

Quando menino,
Jair Bolsonaro
quis ser bailarino,
mas seus pais não deixaram
porque isso era para putos.
Então quis ser cabeleireiro,
mas seus pais não deixaram,
porque isso é coisa de putos.
Então quis ser costureiro,
também não deixaram…
Agora Jair Bolsonaro cresceu,
não é puto, mas um deputado!

Tânia Costa disse...

EMOCIONANTE....MATERNAL. VOU TE CONTAR UM SEGREDO: VOCÊ É ÚNICO: SINGULAR E PLURAL.

Anônimo disse...

mais q tudo de bom!