quinta-feira, 23 de junho de 2011

ATRÁS DO BALCÃO

Arte de Cínthya Verri


O privilégio irrita. É esperar numa fila e um barbado que acabou de surgir ser chamado antes. Nossa paciência não é recompensada pela igualdade. Não há problema nenhum em reconhecer o trabalho e a importância de alguém, desde que eu não seja envolvido como moeda no pagamento.

* * *

Mas o que mais irrita de verdade é perder o direito a ponto do direito do outro parecer um privilégio.

Rubem Braga foi pedir um ovo numa lanchonete paulista, o olhar armado com os talheres das sobrancelhas:

— Ovos fritos, por favor?
— Não, não temos ovo — o atendente respondeu para servir o sujeito ao lado com farta porção de omelete.

* * *

A humilhação é maior do que a raiva e retira as palavras — talvez seja uma raiva fria e demore a ser engolida. O cronista não teve reação, não brigou, não revidou, guardou suas sobrancelhas no guardanapo do rosto e tomou as dores da rua.

* * *

É um pouco assim no amor. Ou muito assim. O marido recusa ovos estrelados para esposa enquanto prepara omeletes para as demais freguesas.

* * *

É terrível para uma mulher acompanhar seu companheiro feliz com os amigos do futebol, disposto e incansável para missões profissionais no final de semana; e totalmente ausente em casa. Não de presença, mas de espírito. E um espírito analfabeto que sequer escreve cartas do além.

* * *

É ele pisar no capacho que fecha o rosto, é ele entrar na sala que resmunga. Não aceita carinhos, conversas, delongas. Sucumbe à mecânica da rotina: tomar banho, jantar, assistir televisão e dormir. Quase como um recruta em serviço militar, adotando uma série de tarefas físicas para não pensar.

Já porta afora saca gracinhas com as balconistas, diverte-se com o porteiro do prédio, ri sem parar ao telefone.

* * *

A esposa conclui que vem sendo um monstro, responsável pela desgraça familiar. As mulheres sempre assumiram a culpa — os homens sempre recorreram ao ódio.

* * *

Ela se ressente de não agradá-lo como no início. Vai ao terapeuta, inscreve-se em ginástica sexual, frequenta yoga, ocupa o dia inteiro criando alternativas para salvar o relacionamento.

* * *

Não há ninguém para avisá-la que não deve sofrer pelos dois, seu marido é que deixa o melhor para o mundo e o pior para ela.

* * *

O amor não é um privilégio, é um direito.

* * *

Se não entendeu, por precaução, é bom lembrar ao marido que faltam ovos em casa.




Crônica publicada no site Vida Breve

14 comentários:

Silene Neves disse...

Perfeito!

Ótimo feriado pra ti!

Beijos vermelhos

Sil

Marcela disse...

E.x.c.e.l.e.n.t.e!

Diana Pichinine disse...

Digamos que você apresentou bem a perspectiva de uma certa condição feminina (não universal, mas muito frequente)!
Adorei seu texto!
Forte abraço!

Camille disse...

Sei exatamente do que você está falando...
Adorei!
Alguém precisava dizer a verdade, sem meias palavras.
Abçs

Camille

Mãe Coruja disse...

Obrigada pela lucidez da vida! Teu texto faz parte do concretizar as sensações, vira vida a crueldade e a verdade!

Pam disse...

Nossa que maravilha!
Descreveu perfeitamente.
beijo

destempo disse...

---olá, Fabrício, me chamo renato pessoa, sou escritor e moro no Ceará. Publiquei um livro de poemas intitulado O CORPO ARCAICO.
Como posso fazer pra te enviar meu livro?
me passa um endereço seguro.
segue email: renatopessoa_21@hotmail.com

Ludmila Rodrigues disse...

céus! nao conte para mais ninguem...

Anônimo disse...

"é bom lembrar ao marido que faltam ovos em casa" - Eu ri muito dessa parte hahaha

beth disse...

Lindo! Encantador seus textos.
Que leveza nas palavras! Eu te amo, Capinejar.
Vc é DEMAIS!

eliza disse...

Realmente, a humilhacao é pior que Raiva.
Meu tio era assim do jeitinho que vc descreveu. Alegre na rua e em casa , um cara rabugento, calado, ausente. Era um cara muito chato. Tadinha da minha tia que engolia tudo calada e ainda assumia culpas que nem existiam...velho casamento...o casamento durava uma eternidade por isso!!!!Um, fazia papel de algoz, e outra, de vitima.
Capinejar, vc é MARAVILHOSO!

Ivana disse...

Esta foi a perfeita descrição de minha vida familiar qd criança e adolescente, eu e minha mãe éramos as vítimas e ele (na rua e no trabalho)o simpático, Aos 17 anos abri mão deste papel, minha mãe não.
Resultado:ela anos depois desenvolveu um problema no cérebro, 3 meses de coma e a morte.E eu tenho 2 filhos que não conhecem o avô.
Tu és genial em descrever uma tragédia desta forma tão delicada

Liz G. disse...

Ei.. A arte feita por Cínthya é o que? Foto de algo? E esse algo é o que? Uma escultura? Qual o material? Acheeeei muito legal, se puder falar..

Achei muito interessante, gostaria de saber. Obrigada!

Sibele disse...

nossa, que texto perfeito!!!