sábado, 4 de junho de 2011

A CHAVE DA MOSQUITA

Foto de Adriana Franciosi

Adivinha quem tem a chave da terceira mais antiga igreja do Rio Grande do Sul? O padre? O bispo? O prefeito?

Não, a beata!

É ela que abre e fecha a imensa porta azul de seis metros da Igreja de Santo Amaro, em General Câmara, cidade de 9 mil habitantes, a 75 quilômetros da Capital. Para facilitar o controle, mora numa casa verde na esquina, ao lado da construção religiosa de 1787.

Elenita Terezinha de Souza Vianna, 61 anos, conhecida como Mosquita pela magreza de osso e hiperatividade, é a responsável há 21 anos pela belíssima igreja açoriana, que fica às margens do Rio Jacuí.

É ela que chama o sacerdote Fábio Lúcio Santos para a missa às 18h no domingo, que varre e encera as tábuas da sacristia, escova a pia batismal, prepara a mesa da hóstia e do vinho, lava a roupa e a toalha das cerimônias, puxa os cantos da celebração, toca o sino, corta a grama do pátio, fiscaliza goteiras, expulsa morcegos e demônios do assoalho e resolve problemas hidráulicos.

Sua vida é orar. Muda de ambiente conforme o estado de espírito. O ambiente muda seu estado de espírito. Quando fica chateada, reza na varanda. Magoada, senta no sofá da sala. Muito sofrida, desfia as orações sem sair da cama.

– O sofrimento vai me tirando espaço. Dor é quando o divino me põe de castigo no quarto.

Por um triz não renunciou a fé, e não cerrou as cortinas de seu aposento para sempre: quando seu marido morreu em 1994. A viuvez de Edílio Vianna fez sua esperança escurecer. Foram casados 26 anos, gerando quatro filhos (Solângela, 43 anos, Élida, 41, Alexandra, 39, e Lissandro, 31) e seis netos.

– Nunca briguei com ele. Foi meu marido, pai e avô. O luto durou nove meses, uma gestação ao contrário. O luto acabou, não a tristeza. Casei cedo, casei menina com 16 anos, casei na Igreja Santo Amaro em 1966, cuidar dela é ainda uma forma de cuidar do meu marido – desabafa.

Disposta a não ceder ao ceticismo, dentro de sua residência, está armada de cinco terços, duas flâmulas de Santo Amaro e São Jerônimo e três estatuetas de Nossa Senhora Aparecida, São Jorge e Santo Amaro.

– Decoro qualquer estante como se fosse um altar – confidencia.

Mosquita experimenta a autoridade de um diácono de saias. Ensinou catequese, encaminhou corpo, abençoou morto, passa a tarde dando conselho amoroso para o bairro.

– Eu mesmo erro, me penitencio e me absolvo. Sou um pronto-socorro espiritual, enfermeira da alma.

Mas quem espera uma beata ranzinza e repressora, de véu preto e verruga no meio do rosto, encalhada e invejosa, pode tirar o cavalo da chuva. Ela gosta de falar bobagem para facilitar a confissão. Não sofre de moralismo de calcinha (como ela diz), mostra-se generosa com as falhas dos amigos, tampouco esconde o que tem de ruim para parecer boa.

Órfã, com instrução até a 5ª série, aceita o que o destino oferece e não pede mais do que pode viver.

– Converso muito comigo. Rezar é reclamar para mim. Na hora de acender as velas, eu me xingo pelo hábito de guardar fósforo usado na caixinha de novos. Quem se xinga logo começa a rir.

Com os olhos espertos e uma loquacidade interminável, prefere economizar Deus a gastá-lo em longas leituras. É uma chocólatra dos evangelhos.

– Bíblia é como chocolate, leio um pedacinho por dia, senão tenho que fazer regime.

A chave é com ela, e só com ela, os vizinhos já decoraram o caminho da fé.

– Minha casa é de barro e pedra, sem cimento, tijolo por tijolo encaixado.

Elenita faz uma pausa e se dá conta:

– Igual à Igreja de Santo Amaro.

Homem e Deus são feitos do mesmo material. A Palavra.

Amém.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 35, 28/05/2011
Porto Alegre, Edição N° 16713
Acompanhe os vídeos com a beata Mosquita.

7 comentários:

Toni Caldas disse...

Mais uma bela história embebita do seu talento fantástico de escrita. Sou seu fã, cara! Acompanho seu blog faz tempo, e quase nunca comento, mas resolvi agora expressar isso.

Aproveito para deixar aqui a minha indicação sem-modestias: o meu blog.

Sou estudante de Jornalismo pela UFRB e pesquisador em Jornalismo Litérario. Lá exponho alguns contos, crônicas, poemas, fotografias, e claro, reportagens em lítero-jornalismo.

www.anonimatoliterario.blogspot.com

Espero que curta. Um reconhecimento seu pra mim seria o máximo - mesmo que não seja positivo.

Há-bração

agoraéagora disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jeferson Cardoso disse...

Queria eu que tivesse a maior importância o meu comentário. Queria vir aqui e deixar algo que ao ler você sentisse o efeito reverso do que é jogar um texto onde as pessoas podem ler. A maneira como homenageou Dona Mosquita foi muito linda, e Dona Mosquita mais linda ainda, pois o escritor alcança um pouco do todo, e o todo é maior do que tudo que o escritor possa alcançar. Parabéns Fabrício, pela sorte de conhecer pessoa tão fantástica e pela sorte de poder homenagear pessoa tão fantástica, amigo.

Jeferson Cardoso disse...

Estive ontem em Ribeirão Para falar com você. Cheguei tarde demais ao Estúdio Kaiser. A moça disse que com dez minutos de antecedência eu ainda teria lhe encontrado e que talvez você tivesse em frente ao Teatro Pedro II para alguns acertos; ‘assinaturas’, ela disse. Fui, não lhe encontrei. Outra monitora disse que talvez você estivesse andando pela feira e que se eu lhe encontrasse lhe avisasse da antecipação no horário do seu vôo. Não lhe encontrei. Não era dia de eu lhe encontrar. Abraço de seu ‘amigo de consideração’, escritor marginal e amador, Jeferson Cardoso, ou Jefhcardoso, como queira.

agoraéagora disse...

cancelei o post anterior, tinha erro de conjugação emocional.
ao "te" ler, perco a razão, os neurônios se desconectam, me fazem esquecer como se conjuga o pretérito mais que perfeito.

lindo texto: o sino, a beata, o terço, a fé... de novo e de novo, obrigada!

⊰⊹✿Eliane disse...

Olá visitei seu blog, é perfeito e Jà me tornei sua seguidora! estou te convidando a visitar o meu blog,é novo. passa lá seja um seguidor e deixe um comentário ok? bjinhos estarei sempre por aqui!
Meu Blog


http://palavraseessencias.blogspot.com/

Mara Rejane. disse...

Olá Carpi!!
Amo vir por aqui, sou sua seguidora já a algum tempo. Me visita só para me deixar feliz.

bjo.

http://emara30.blogspot.com/