quarta-feira, 8 de junho de 2011

ISSO QUANDO NÃO OCORRE FALHA DE CONEXÃO

Arte de Cínthia Verri

Todo mundo que começa a namorar não sabe ao certo que namora.

O início é confuso, entremeado de hesitações e receios e pudores e reservas e uma fileira de sinônimos sofisticados para medo.

Puro medo.

O casal demora a oficializar aquilo que já é público. Não quer melindrar sua companhia, muito menos oferecer motivos para receber um fora adiantado.

Eles se preservam do convívio para não caírem em tentação, recusam bares e festas para conservar o segredo. Estão loucos para contar aos amigos, mas temem que a fofoca estrague a notícia. Há a crença de que alegria espalhada se transforme em inveja.

Eu não sofro mais desse mal. Detectei a encruzilhada, o exato momento em que o namoro vira à esquerda e não tem mais volta.

É quando um dos dois telefona para não conversar. Para não dizer nada, coisa com coisa.

Suportar o laconismo amoroso é uma das torturas mais angustiantes da existência.

Acompanhe meu raciocínio.

No meio do serviço, ela liga. Por ansiedade, você atende ao primeiro toque. Espera que ela fale oi. Mas não. Ela espaça a voz como se fosse uma amante, uma sequestradora, alguém que não protegeu as teclas e acessou seu número por engano. Dá para escovar os dentes até surgir um tremido par de vogais.

Ela não lhe procurou em função de alguma novidade, para dar um recado, testar a temperatura ou planejar um encontro. Suspenda a objetividade, o mundo físico, a matemática, as operações de trigonometria.

Sua futura namorada ligou para suspirar. Compreenda que ela ligou para que você testemunhe o que ela está sentindo, como uma criança que coloca o fone em direção ao mar e jura que a os pais alcançam o barulho das ondas.

Ahhhhh é o som fundador de um papo que não vai acontecer. O telefonema corresponde à sonoplastia da saudade. Prepare-se para variações de um mesmo tema.

— Como você está?
— Meio estranho…
— Eu também…
— Mas é um estranho bom.
— Um estranho feliz.

Um repete o outro, num misto de fragilidade e receio. É um diálogo que medita sobre vazio. Durante trechos inteiros, nenhum fala. Uma conversa exemplar e inédita em que os dois somente escutam. Uma troca de respiros, jogo de vento, intercâmbio de palpitações.

Assim como ela discou sem motivo, o pior vem agora, não há como desligar sem ofender. Depois de quinze minutos de ausência absoluta de som, chega a hora de seguir a vida.

— Você desliga, eu não consigo.
— Não, você desliga, eu não consigo.
— Não, você!
— Você!
— Você!

O amor é uma grande coragem cheia de pequenas covardias.



Crônica publicada no site Vida Breve

15 comentários:

Cristina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristina disse...

Caro amigo
O sublime começo,não deve ser subtraido,pois se feito isso,perde-se o sublime propósito da paixão
bjin
Cris

Dani Gomes disse...

É preciso ser muito corajoso para se submeter às covardias que o amor nos impõem...

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

George Dantas disse...

Estou vivendo esse momento! Aquele momento em que ambos perguntam a si mesmos diariamente: "O que nós somos?"

É tão bom esse início!

Babi Mello disse...

Fabrício você foi uma das grandes descobertas de literatura desse ano, gostei muito do que escreveu e o doce começo, cheio de melindres, contudo saboroso.

Marcos Levi Nunes disse...

Muito bom... Putz! vc escreve bem! Foi um prazer...

Marcia disse...

Nossa! Simplesmente ADOREI! Como pode vc descrever tão bem sensações quase indescritíveis?
Estou vivendo exatamente isso, só que jamais conseguiria passar isso para o papel assim, com essa facilidade que vc fez.

Anna Laura Neumann disse...

Querido Carpinejar, ler uma crônica linda como essa já é um privilégio. Mas esse se torna maior ainda quando te ouvi comentar sobre essas "ligações" apaixonadas ontem à noite, em Lajeado.

Adorei a palestra, e se possível, sou mais fã ainda do teu trabalho.

Grande abraço.

Carlos A. disse...

bom texto Fábio.Uma bela crônica real.Prova disto são so dois comentários em que dois amigos,leitores do seu blog,falam que já passaram por tal acontecimento.Prá falar a verdade,acontece com todo mundo,não é?Grande abraço!Curto demais seu blog e sigo ele.Leia o meu tb se puder.

Juliana disse...

Acho que quem nunca viveu isso, não pode dizer que viveu. Estou recém apaixonada por você! Um abraço!

Eduardo Nasi disse...

HAHAHAHAHHAHA

Moisés Kapazi disse...

ótimo texto

HERANÇAS PARA O ANO 3000! disse...

..CARPI..nteiro..CARPI..deiro; das palavras..
..tradutor do silêncio..
..silenciador do revólver do coração..

Abs..Guilherme..aka..Koloeloko..

Crisneive Silveira disse...

É essa hesitação que denuncia o amor, que denuncia a vontade de pertencer e de querer... É esse silêncio que maltrata e alivia. Adorei.

Ramiro Conceição disse...

“Eu não sofro mais desse mal. Detectei a encruzilhada, o exato momento em que o namoro vira à esquerda…” Por isso, caro Fabro, isso:


À ESQUERDA DA MERDA
by Ramiro Conceição


É, já fiz cada quiproquó
que mereci levar no fiofó.
Já casei com fantasma.
Já fui até - um miasma.

Casar com um fantasma,
não teve problema algum:
trepei; dormi;
viajei; e me habituei
ao sujo… dito-cujo.

O dilema foi que, por ser alma penada,
o fantasma não veio desacompanhado,
mas junto à fantasmanada acorrentada
ao fantasmagórico de uma monada de putas,
de estafetas, de piolhos diplomados, na USP,
um embuste, um bando de metidos a besta,
que se diziam “do Bem”, porém eram capetas
duma geração cuja interjeição era - “Beleza!”.

Nunca cultivaram o belo
quando meninas ou meninos.
Nunca puderam conhecê-lo
pois farejavam com focinhos.

Ai!... Quanto papo cabeça!
Quanta merda de esquerda!
Ainda bem que tudo findou,
o fantasma me abandonou.

Por isso - grato - estou aqui,
a finalizar - essa obra-bufa;
pois soube à boca pequena
que algumas almas penadas,
em solitárias, fétidas cloacas,
vestiram-se, com as gravatas
de suas línguas, enforcadas!