quarta-feira, 15 de junho de 2011

DEITANDO O PORTA-RETRATO

Arte de Cínthya Verri

Depois da separação, um envelhece, o outro rejuvenesce.

Não tem mais nada em comum. Divergem de reações. Um resta deprimido e o outro se exibe bem humorado. Um quer morrer; o outro, renascer. Um estará demolido; o outro, refeito. Um demonstra retornar de um campo de trabalho forçado; o outro, de um spa.


Nenhum dos dois piora ou melhora junto.

* * *

Lembro de Ronaldo e Élida.

Ronaldo virou avô de si. Esqueceu o banho, engordou, envelheceu dez anos em duas semanas de solidão, criou rugas, largou o futebol e nossos encontros de pôquer e uísque. Sua casa parecia invadida por um mendigo.

A louça empilhada na pia, a cama desarrumada, a pilha suja da lavanderia, a comida vencida: encarnava um estado de abandono e de geriatria prematura.

Dormia de botas e cinto — desdenhava dos pijamas e dos tecidos cheirosos e alinhados. Atendia o desejo infinito de se castigar.

Não aceitava o fim do relacionamento. Continuava brigando internamente, ralhando, pensando em voz alta porque se achava incapaz de pensar em silêncio. Ofendia seu amor a cada suspiro. Um suspiro com cuspe, falado, exorcista.

Não conseguia parar de discutir, ainda que sozinho. Sofria de uma curiosidade insaciável decidido a descobrir até onde se aguentaria. Com a desistência do par, agora se testava, examinava sua repulsa.

Não se via responsável pelo rompimento, bancava a vítima, o incompreendido, aquele que não contou com segunda chance e tempo para se explicar.

* * *

Do casal que se separa, um vai decair e outro se levantar. É assim. Nenhum dos dois desfruta do mesmo estado afirmativo de espírito.

* * *

Diferente de Ronaldo, Élida virou filha de si. Emagreceu, cortou os cabelos, comprou um guarda-roupa novo, começou a se reunir com as amigas no final do expediente e frequentar baladas. Seu apartamento recém-adquirido parecia ala impoluta de loja de móveis. Tudo no lugar, luzindo.

Seu desempenho no trabalho melhorou. A cada momento, despertava a inveja dos colegas e tinha que responder sobre a repentina mudança de comportamento.

Ninguém lhe dava mais de 35 anos (ela ultrapassava os 45). Ninguém cogitava seu divórcio. Os amigos custavam a acreditar na perda recente. Ela não apresentava olheiras, não fungava ao mexer nas gavetas, seu rosto enfrentava o vento do inverno sem lacrimejar.

* * *

Sempre com a separação, um fica bem, o outro fica mal.

Mas cuidado ao tomar partido. O que mais sofre é aquele que melhora. Tenta chamar a atenção do ex pela alegria, obcecado em provar o que ele perdeu de viver dentro do casamento.



Crônica publicada no site Vida Breve

20 comentários:

Rossana disse...

Como sempre! M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!
É exatamente assim que acontece com os 'separados'!
Bj

Por que você faz poema? disse...

Uma (e)terna batalha,
onde mesmo alguém ficando, aparentemente, por cima, parece nao haver vencedor.

Érica, disse...

Dor não se mede. O triste e o feliz são agora metades tentando caminhar. Cada qual lidando com suas dores da maneira que sabe.
O forte tão frágil qto o frágil.
Ah, (separ(a)ção)dor finita...um dia passa. Aprendi na pele essa lição!

um bjo carinhoso p ti

Renata disse...

Concordo com o comentário,
numa separação não tem vencedor!

juliana disse...

Pois eu sempre sai de boa em uma separação, parece que nascia sempre uma nova mulher.Amei o texto!Bjoss, te adoro!

Anônimo disse...

justamente Ronaldo estou.

Natália Elisa disse...

pura e triste verdade...acho que, por um lado, uns tem medo de sofrer e do outro (o que sofre), nào admite perder...

Mateus Alcantara disse...

Surpreende a sensibilidade do Carpinejar escrevendo, muito bom mesmo...

Ramiro Conceição disse...

"O que mais sofre é aquele que melhora." Essa é uma das leis do amor...

Anônimo disse...

Muito bom.
Sou bem casada mas vi muitas amigas assim.
Pior, quando eh o homem a querer ficar bem. Logo arranja uma namorada mais jovem so uns 20 anos, bota botox ( terrivel), pinta cabelo e comeca a fazer unha... E comeca a usar roupas justinhas para parecer mais jovem...Quer pegar Todas nas baladas...Ridiculo...
eliza

Anônimo disse...

Nossa, adorei o seu post.
Eh muito gostoso o seu jeito de escrever, alem de ser assunto bem real. Numa separacao, realmente AMBOS perdem mas sempre um fica pior que o outro. E geralmente eh o lado que nao queria a separacao mesmo tendo tudo acabado...
Liz

Juliana disse...

Quem nunca passou por isso? Eu passei por dois estágios, primeiro o estágio Ronaldo e depois o Élida, que acho que é a ordem natural das coisas, pelo menos quando não se quer sair do relacionamento. Bom mesmo é se libertar dos dois.
Sou tua fã.

Renata Barros disse...

Porqueeee? Por que você é sempre perfeito?
Me dá só um pouquinho desse talento Carpinejar!

Dally disse...

Sem palavras pra tamanha perfeição e veracidade!

Ramiro Conceição disse...

Ainda sobre as leis do Amor, caro Fabro...


ESTELARES
by Ramiro Conceição


Na planície
agora existe
um perfume:
teu nome…
Por isso,
precisamente,
preciso-de-ti,
pois, quando
te amo, canta
a castanheira
ao bem-te-vi!

Houve antes.
Existe agora.
Haverá depois.
Então, meu amor,
por favor, aviva-te!
Porque o sagrado da Vida
é o tempo que nos habita.

Na rua das castanheiras,
namoro o amor que mora.
Lá, crio, rio, choro
e devoro-te… É,
quando o amor nos beija,
enfeita, Alguém, com véus
as castanheiras… do céu.

O que será de mim
quando o Sol pentear
os teus cabelos
e o amarelo revelar o quê que
nunca vira antes… tão belo?
O que será de mim quando,
porventura, o teu sorriso passear
qual mar que leva um bardo à vela,
grávido, à fundura do amor bendito
qual antílope enamorado a farejar
no orvalho a dádiva do teu perfume?
Ai, de mim! O que farei quando fores
uma perdida esperança… em mim?

Meu amor, quando se der a despedida,
sejamos então, só, as sementes à Vida!
Pois as lágrimas são encontros com as marés
de onde viemos e das quais ressuscitaremos:
estelares!

Apenas alguém comum disse...

Já estou sentindo pena do meu futuro-ex-marido... mas nem por isso vou desistir...

Sexo c/ Amor? disse...

quando termina um amor, com certeza, não há um único, perdedor. o mundo perde em encanto e poesia, fica mais triste.

Ramiro Conceição disse...

Como era mesmo a ideia, caro Fabro:
quem... sofre... melhora..., não é isso?


SUBJUNTIVO-INDICATIVO
by Ramiro Conceição



Minha biblioteca não tem livros!
Minha tese… não foi escrita!
Meu dicionário não tem palavras!

Todo santo dia, coloco
a meia direita na orelha
esquerda e a outra, na outra.
São os sapatos
das mãos, não são?

Quando não há confusão:
o esquerdo fica à esquerda,
o direito, creio… à direita.
O problema é que sempre
encontro só um, no escuro.

Toda madrugada, por hábito,
devoro um pedaço da mesa.
Por falar nisso, outra preciso.

Porra, que porre, amanheceu!
Então feito uma borboleta
nadarei por essas praças…

Se alguém me der “Bom dia!”
no subjuntivo:
polidamente, direi “Bom dia!”
no indicativo.

Cacá - José Cláudio disse...

Há de tudo, meu caro. Há sentimento de vingança, há tentativa de provar o improvável, há a insustentável leveza forjada, há o alívio sincero e há a dor (também sincera). Palavra de um mestre e doutor em casamentos (já vou para o quarto (sem trocadilhos). rsr. Abraços. Paz e bem.

Ramiro Conceição disse...

Cacá, estou no quinto...
Espero não dos infernos!