sábado, 17 de setembro de 2011

DISCRETAS HEROÍNAS

Loreni e Nely atravessam o perigoso Rio da Várzea em canoa para lecionar em aldeia caingangue. Fotos de Tadeu Vilani

Ka é árvore
Kakane é laranja

A menina indígena Taina da Silva, oito anos, transforma sua língua caingangue em português. Com orgulho, impõe a mão esquerda no quadro negro. Desperta o interesse de seus colegas, que viram o rosto a cada nova torção do giz branco.

Kamé é sol
Kanhokre é lua

Taina depende da disposição aventureira de duas professoras para continuar aprendendo.

Loreni Graebin, 47 anos, e Nely Maria dos Santos, 54 anos, moradoras de Rodeio Bonito, cidade de 5,7 mil habitantes, situada a 413 quilômetros de Porto Alegre, são as discretas heroínas do ensino.

Por um salário simbólico, atravessam o perigoso Rio da Várzea para lecionar na aldeia caingangue. Vestem os coletes salva-vidas e assumem um cantinho da canoa verde da Funai, embarcação ainda dependente do remo e do temperamento da correnteza.

– Necessário prestar atenção: para não ser atropelado por um boi morto ou um tronco perdido nas águas – avisa Loreni.

Loreni é a diretora da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Francisco Kajero, que atende 182 alunos, do outro lado da margem, em Liberato Salzano.

Nely é coordenadora pedagógica e ampara a aldeia de 124 famílias do povoado caingangue, procurando convencer crianças e adolescentes a não abandonar a escolaridade, apesar dos hábitos diferentes e da gravidez precoce (meninas de 12 anos costumam casar e ter filho).

Ambas têm no currículo mais de três décadas de magistério. Também são as únicas do quadro docente de 15 professores, que passam o dia inteiro na escola.

Poderiam estar numa situação mais cômoda, sem correr riscos, sem penar por ônibus de uma em uma hora, sem enfrentar a correnteza de 250 metros, sem percorrer a pé mais de um quilômetro de mata fechada, mas são incansáveis. Pelo prazer de explicar o mundo, continuam acordando às 7h e regressando às 17h.

– Meu marido já cansou de perguntar por que não desisto. Ensinar é um vício, é se apaixonar dentro do amor – afirma Loreni.

– Salto alto na aldeia é galocha, as calças terminam barrentas e não se usa tênis. Eu me envaideço de frases – explica Nely.


Quando não há nenhum morador caingangue esperando na beira para levá-las, as professoras tomam o barco e remam. Não ficam contando as horas.

– O espetáculo tem que continuar – diz Nely.

– Uma vez quase morri, o rio estava crescido e me levou para baixo. Não adianta gritar, mantive a calma e esperei socorro, até que me encontraram presa nas folhagens de Rodeio Bonito.

O perigo é amenizado pela admiração dos alunos, sempre puros, carentes e leais. Houve também melhorias na infraestrutura em 2010. As ocas e galpões tomaram a forma de prédio com ventiladores.

– Os índios têm um respeito formidável pelo conhecimento, ser professor não é visto como uma profissão, mas como um dom, um traço divino – esclarece Nely.

– Eles nos agradecem por estar com eles, é algo da escola de antigamente, de devoção a quem transmite ideias – pontua Loreni.

Unhá é boa/bom

– É a palavra se olhando no espelho – confessa Taina, completamente feliz com sua observação.

– Então vamos penteá-la! – completa Nely.

Taina escreve em letra lenta e caprichada, acentuando as tranças nos dois i:

– Sivi

Nely e Loreni se entreolham e perguntam o que é aquilo:

– Vocês em caingangue: Lindas!





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 36, 17/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16828
Veja vídeos mostrando a travessia do Rio da Várzea.

9 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, Carpinejar... Por nós mostrar as heroinas discretas...

Fernando Terra disse...

Fico sensibilizado com essas atitudes e exemplos. Também sou professor e sei o quanto temos a ensinar e trabalhar, assim como a importância da Educação para a melhoria da sociedade. Trabalhar, pensar a Educação pra frente, refletir sobre suas demandas, continuar, enfim, uma belíssima história que é trabalhar com Educação. Bela escolha.

Pelo Menos Viajar disse...

Simplesmente SIVI!!!!

Naty disse...

Sempre achei que para ser professor tem que ter dom, um amor maior para conseguir ultrapassar tantas dificuldades. Teu texto só reforçou essa minha opinião.
Parabéns para essas heroínas!

Bejus!
http://devaneiosparamim.blogspot.com/

cleber Andre disse...

Absolutamente adoravel, sou natural de Rodeio Bonito e a mais de dez anos deixei a cidade, essas professoras ja faziam esse trabalho a muito tempo. Passaram os anos e continuam firme... Exemplos magnificos temos de sobra, é preciso valoriza-los e segui-los acima de tudo.

Tsurus Mothane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Flávia Sousa disse...

Que gesto mais lindo!
É amor demais que algumas professoram lecionam, não há dinheiro que pague!
Vejo minha mãe e seus alunos aprendendo a ler e a emoção nos olhos dela!

Anônimo disse...

Não sou "anônima", quero testar meu blog e e-mail que abrí!
-blogdavervedirlass
-vervedirlass@l.com.br
Sinceramente, vervedirlass.

Mari Hirata disse...

"É a palavra se olhando no espelho" -poxa, deve ser mto gostoso ensinar pra quem retribui assim. deu até pra imaginar uma pouquinho da enorme satisfação q essas professoras devem sentir todos os dias. =]