sábado, 24 de setembro de 2011

O EMPALHADOR DE CÃES

Dono de um fox paulistinha, Ubirajara já empalhou 18 mil animais no seu laboratório instalado em casa. Fotos de Ricardo Duarte

O ex-bombeiro Ubirajara Lopes, 60 anos, tem o dom de assegurar vida eterna aos animais. Ou quase isso.

– Meu trabalho dura cinco séculos, o equivalente à infância e à adolescência de um vampiro.

Ele já empalhou mais de 18 mil bichos em seu laboratório nos fundos de sua casa amarela em Carazinho, cidade de 58,2 mil moradores, distante 285 quilômetros da Capital. A maior parte das encomendas são cachorros a pedido de seus donos, inconformados com a perda recente e que buscam manter uma imagem carinhosa do parceiro de estimação.

– Homens surgem chorando em minha porta, ainda sem entender a tragédia. Faço terapia, velório, chá, um pouco de tudo para acalmá-los e depois explico como é feita a homenagem.

Para estar apto ao trabalho de conservação, o bichinho deve ter morrido dentro do prazo de 72 horas. Os casos que mais aparecem para o empalhador são atropelamentos e envenenamento, fins súbitos, que privaram a família do direito a uma despedida.

– Deixo o cão em uma posição bonita, é o dono que escolhe sua cena predileta, como pretende enxergar o animal para sempre: sentado ou deitado ou de pé.

Atuando com taxidermia desde 1980, Ubirajara atende 15 pedidos por mês. Colabora também com Ibama e Museu Regional Olívio Otto de Ciências Naturais. Cada animal tem seu valor (cavalo custa R$ 4 mil; cachorro, R$ 2 mil; peixe grande, R$ 1 mil; coelho e gato, R$ 200; hamster e passarinho, R$ 50).

Nenhum obstáculo complica sua arte funerária, nem o motivo da morte, muito menos o porte da vítima e a raça. Depende de 60 minutos cronometrados para completar o serviço (tira o couro, preserva crânio e os ossos das patas e reveste o pelo com uma armação de ferro).

– Não acho estranho. Sou um fabricante de recordações.

Interessou-se pelo ofício na infância, ao acompanhar o pai em pescarias e caçadas e ficar intrigado com cabeças de dourados e de cervos nas paredes das residências de seus colegas.

– Peças tão reais, verdadeiras, vibrantes, aquilo fisgou minha curiosidade.

Autodidata, com a escolaridade até 6ª série, tornou-se craque em anatomia ao devorar enciclopédias de bibliotecas públicas. Levou adiante seu passatempo e estudou técnicas de embalsamento do Antigo Egito e dos rituais milenares à base de pó de canela, sal e pedra úmida.

Ubirajara é um Francisco de Assis da resina. Tem compaixão por bicho morto na estrada. Recolhe o corpo, desamassa, cuida da aparência e reza pela sua alma. O porta-malas do Ka é um Instituto Médico-Legal improvisado.

– O último olhar é o olhar do perdão, tem um brilho diferente, mantenho aceso para o resto dos dias – diz.

Apaixonado por cães, ele não descarta empalhar Cuca, seu fox paulistinha, quando falecer.

– As lágrimas serão meu formol.

As brincadeiras de mau gosto dos vizinhos representam a única parte chata da história. Ao vê-lo passar pela rua, um deles grita:

– Quanto cobra para empalhar minha sogra?

ALÉM DA VIDA


A sala iluminada apenas pela luz da TV. Como todas as noites, Natalino Cordeiro dos Santos, 52 anos (acima), está acompanhado de seu melhor amigo, o poodle malhado Caco, para assistir à novela. Pela força do hábito, coloca a mão atrás da orelha do cãozinho, é o lugar das cócegas. Mas Caco não se mexe, não late, não geme; morreu em 2008.

– Após ser atropelado, Caco veio cambaleando me abraçar.

Natalino recorreu a Ubirajara para eternizá-lo. Projetista de Passo Fundo, pai de três filhos, carrega o animal empalhado pela residência, reprisando o clima de lealdade.

– Prometi nunca abandoná-lo. Ele comia comigo, passeava na janela do carro, andava em duas patas na hora do mimo e lambia meu rosto ao me descobrir abatido.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 24/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16835
Veja vídeos do ambiente de trabalho de Ubirajara.

18 comentários:

Gisa disse...

Respeito, mas que é fúnebre "prá caramba", ah isso é!
Um bj

Ramiro Conceição disse...

“– Meu trabalho dura (…) séculos, o equivalente à infância e à adolescência de um vampiro.”


A BUNDA
by Ramiro Conceição


É,
o terrível moribundo - não quer morrer,
se vale de qualquer tipo de sacanagem,
de todo custo baixo… à sobrevivência!

Ultimamente, o dito-cujo diz
que a partir de agora será bonzinho,
que dividirá simetricamente
os bens tecnológicos e científicos,
que dominará… a fome financeira,
que é o único capaz de equacionar
a luta entre capital e trabalho
e resolver, definitivamente,
a disputa - progresso e meio-ambiente.
Está em crise… Fruto de crises cíclicas.
Globalizou, na busca do melhor negócio,
mas se tornou papel de papel de papéis.

E agora, quem limpará… a sua bunda?

maria a paiva disse...

Se todos tivessem o olhar limpido dessas pessoas para os animais o mundo seria realmente uma casa.

Ramiro Conceição disse...

À casa de Maria...


PRESENTE
by Ramiro Conceição


Se houve, há ou haverá
deuses e seres humanos…

Então a única coisa dita
e não compreendida foi

o Amor…

Esse presente… do possível
a ligar o subjetivo ao objetivo,
o mortal… ao imortal

Rossana Masiero disse...

Tem gosto pra tudo nesse mundo.
Ainda bem...

Reconheço que não deve ter tempo de ficar visitando blogs, mas como fã ardorosa das suas crônicas,seria uma enorme honra que passasse pelo meu cantinho recém inaugurado.

http://tudoeassunto-cronicas.blogspot.com/
abços
Rossana

Anônimo disse...

COMEÇO, POR PEDIR DESCULPAS POR MINHA "VÃ IGNORANCIA"; MAS ACHO FUNESTRO, MASOQUISTA, PLATÔNICO...E COM ESSA FOTO, A INTERPRETAÇÃO É UM "D.M.L," EM CASA!

Rudhi Roth disse...

Eu sei que é pedir muito, mas se puder entre no meu blog maloteca.blogspot.com

Anônimo disse...

Sério, esse negócio é macabro. Bicho, assim como gente, tem que ser cremado. O que tem que ficar na memória são os momentos bons, algumas fotos pra gente não esquecer o semblante, o resto a gente joga fora junto com as cinzas.

Ane

Mara Melinni disse...

Eu vivo sempre à procura de um combustível único: exemplos de vida, de amor, de razões quaisquer que tenham como fundamento fazer o bem!

O seu Ubirajara tem razões próprias em seu ofício e tem uma intenção bonita: eternizar a imagem do bem. Gostei mto do post!

P.S.: ONTEM TE ASSISTI AO VIVO EM CAICÓ-RN; CONSEGUI TE DAR UM ABRAÇO E TIRAR UMA FOTO, DEPOIS ENVIO VIA E-MAIL P/ LEMBRAR DESTA ADMIRADORA. OBRIGADA POR TER VINDO DE TÃO LONGE E NOS PRESENTEAR COM SEU CALOR HUMANO. AH, A CINTHYA É LINDA!! =)

Beijos!

www.melinni.blogspot.com

Retratos da alma disse...

É preciso acreditar que a vida não tem fim e as coisas boas duram para sempre, viver é colecionar perdas, é perfeitamente compreensível tudo que se faz no sentido de atenuá-las.
Já estou pensando seriamente em empalhar meu cão o Bradock.

Grande abraço.

Paulo Ednilson

Sandra Santos disse...

um artista!

MIRZE disse...

Parabéns pelo belo trabalho. Do autor e do empalhador.

O amor se eterniza nesse trabalho, dá paz e alento a muitos que perdem seus animais. Que São Francisco o proteja.

Beijos

Mirze

Leti Abreu disse...

Fiquei dúbia...
Acho muito bonita a dedicação aos animais, o amor por um ser que é tão importante na nossa vida.

Mas essa coisa de guardar o bichinho empalhado parece meuio mórbida.

Já perdi alguns "amiguinhos" bichos e fico pensando que se eu os tivesse sem vida por perto, sofreria ainda mais.

Mas como se sabe, cada um é cada um e se o trabalho diferente e interessante desse senhor faz bem a algumas pessoas, que bom. O importante é fazer o bem.

Ramiro Conceição disse...

Leti,
já imaginou, por exemplo, empalhar um filho...
e assistir televisão todos os dias, ao lado dele?

Ramiro Conceição disse...

RISO QUIETO
by Ramiro Conceição


Ah… vis senhoras e senhores que
por décadas, ou séculos, tentaram
aviltar a arte, o que restou por fim?

Esse… engalfinhar entre paredes.
Esse… chafurdar na lama gerada.
Esse… trair próprio dos bandidos.

Eu?... Caminho livre à beira do mar
todos os dias… Meu riso é quieto!

karina Nou disse...

eternizar a tristeza?? ...
realmente, tem gosto pra TUDO nesse mundo.

Glória P. disse...

Bonito texto, independentemente da polêmica do tema. Realmente bonito.

erosteel disse...

telefone para contato e local para empalhar, ja quero me preparar para quando meu cachorro morrer.. ele esta muito velho e vou empalhar