terça-feira, 13 de setembro de 2011

O AMOR PERDOA TUDO

Arte de Robert Rauschenberg

Fotos de amor são ridículas, mas ainda mais ridículo é nunca tirar fotos de amor.

Não há como esnobar certas aparições, manter pose de intelectual e prometer que dessa máquina não beberei.
Existem fotografias obrigatórias na nossa existência, fiascos essenciais que continuaremos reproduzindo até o Juízo Final. Representam estreias, nascimento, inaugurações, onde é impossível rejeitar o clique. Guarde a reclamação e a timidez no estojo, ficará condicionado a tolerar o xis, olhar o passarinho, arrumar um lugar na barreira e aceitar as ordens de incentivo do fotógrafo.

São imagens que partilham o mistério da música brega: ninguém conhece, todos sabem a letra.

Referem-se às cenas fundamentais do ciclo da vida, espécie de cartões-postais familiares. Sem eles, a sensação é de que não nascemos, de que não tivemos família, de que não pertencemos à normalidade fotogênica do mundo.

É o mesmo que visitar o Egito e não posar na frente das pirâmides, visitar Paris e não ostentar a Torre Eiffel ao fundo do plano, passar pela China e desdenhar as curvas da Muralha.

De que flagrantes estou falando?

Daqueles que não podemos fugir, senão demonstraremos indiferença, frieza, falta de emoção.

Daqueles que debochamos ao encontrar na gaveta dos outros e que ocupam a maior parte de nossos porta-retratos.

Um deles é a troca de cálices no casamento. Quando o noivo e a noiva embaralham os braços. Apesar do desconforto tentacular, o casal tem que sorrir. Qual o menos pior: este brinde de espumante ou o corte a dois do bolo do casamento? Trata-se de uma disputadíssima concorrência para abrir o álbum.

Lembro também do clássico beijo do pai na barriga da gestante. A grávida sempre está nua, o que é involuntariamente engraçado. O homem surge agachado com roupa social diante de sua companheira pelada. Se não fosse a criança por vir, estaria na parede de uma borracharia.

Não dá para esquecer a grande angular do baile de debutantes: as adolescentes como time de futebol, posicionadas em diferentes degraus. E a nossa foto tomando o primeiro banho, usada pela mãe para nos envergonhar na adolescência. E sem os dentes da frente, e lambuzado de chocolate, e sendo lambido pelo cachorro.

Fotos ridículas e inesquecíveis, adequadas para chantagem e suborno, mas que se tornam – por vias tortas – recompensas do amor.

São justamente as fotos que vamos procurar para sentir saudade. E, ao lado dos filhos, rir e chorar ao mesmo tempo.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 13/09/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16824

17 comentários:

Por que você faz poema? disse...

As fotos que não aconteceram
são as polaroids
que mais sinto saudade.

Ana Flávia Sousa disse...

O amor perdoa tudo mesmo!
O amor sobrevive até as fotos feitas, aos olhos dos amantes, perfeitas.

Fernanda Arruda disse...

Que crônica perfeita! Eu sou apaixonada por fotografia e penso exatamente assim.

AnDrEzZa Carla =) disse...

Adorei a postagem!
Verdades mais que verdadeiras....e sem estas recordações...nós não seríamos nada!
Como viver o amanhã sem olhar pra trás e ver o quanto o bom deixou saudades...e quanto o ruim deixou ensinamentos...
Parabéns!!

Lai Paiva disse...

Voltar aqui é sempre sinônimo de encantamento. Incrível como vc escreve tão bem o que nós todos sentimos e vivemos, mas, mais que escrever tão bem, vc escreve de forma tão íntima, cúmplice das sensações, emoções, sentimentos expressos nas suas linhas. Adoro cada vez mais!

Andressa C. disse...

Eu mato a saudade com lembrança. A lembrança me mata. Eu volto pra saudade.

Gisa disse...

É por essas e outras que odeio câmeras digitais, elas tiram todo o encanto seja por sua alta definição ou por sua absoluta falta de surpresa do momento da revelação.
Um grande bj querido amigo

Patty disse...

Fotos são cartões-postais, convites para entrarmos em nossa memória e reviver cada momento, cada sorriso, cada olho que saiu fechado, cada detalhe de uma vida vivida, passada e relembrada.
Ah como adoro passar por aqui. @@
Hoje você estará em Campo Mourão, adorei o tema, vou ver pessoalmente o cara que se tornou parte do meu cotidiano, que escreve nas páginas do meu diário aquilo que eu não fui capaz .

Claudinha Azeredo disse...

Fabrício sempre escreve o que penso e não sei expressar. Faz com que meus braços arrepiem, meus lábios se movam e contribui com meu pulsar mais alegre.

Maíra Souza disse...

É preciso fotografar. Fotos ainda vão deixar boas lembranças... Vão fazer chorar, mas registrar assim é certeza de que aconteceu. É tipo, viver!
Gostei muito! Já sigo. =*

juliana disse...

Perfeito!

Josi Pequeno disse...

Fantástico! A crônica tocou meu coração. Que texto hein, Sr. Autor?! Mexe com o "fotógrafo de brincadeira", que releva o apelido de paparazzi e carrega uma máquina no bolso. Opta por assistir os que o apelidou entregando-se ao prazer do "momento sorria".

Leti Abreu disse...

fotografia é um pedaço nosso parado e guardado no tempo...

d. disse...

É bem verdade!! (:

Paulo Sotter disse...

Encontramos fragmentos da vida aprisionados dentro de cada foto. A alma salta dos olhos para a foto e vai embora para o passado reviver aquele momento registrado, ficando aqui somente o corpo imóvel a olhar a foto aguardando que a alma volte carregada de saudade.

Suzana Machado disse...

Ahhh, lindo!

Mary disse...

perfeito, é tudo que eu queria falar, mas calei..