sábado, 25 de fevereiro de 2012

O ÚLTIMO SUSPIRO É O DA MÃO


Arte de Leonardo da Vinci

Os doentes terminais ficam com o punho fechado, preocupados com a próxima pontada, controlando o retorno do soluço, antecipando o lugar dos tremores.

Não abrem a mão, fincam as unhas na palma, podem se machucar e rasurar as linhas do destino.

Estão concentrados em seu próprio sofrimento, atentos ao som como uma noite sem estrelas.

As enfermeiras criaram um truque para aliviar a dor: colocam entre os dedos dos pacientes uma luva com água morna dentro.

É um faz-de-conta. É como se um familiar segurasse a mão deles naquele momento de angústia.

Os doentes se tranquilizam, se acalmam, e o braço se solta para a janela.

Na despedida, dependemos somente de uma mão segurando a nossa. Tolos ou gênios. Toscos ou eruditos. Todos somente procuram o corrimão de uma amizade. O corrimão de um parente para descer os degraus da morte, suportar a penumbra e não cair desmemoriado nas lembranças.

O último suspiro é o da mão, não da boca. O poeta Goethe não disse 'Licht! Licht! (Luz! Mais Luz!) em sua derradeira exclamação. Foi um lamento prosaico, comum, destinado a sua neta Ottilie: "Me dá sua mão".

A mão de quem a gente ama é a nossa luva. Mas com sangue quente a encurtar os batimentos cardíacos espaçados pelo fim.

A mesma mão de sempre e tão nova.

A mão materna na hora de atravessar a rua. A mão paterna mexendo de orgulho nossos cabelos. A mão da caligrafia dos cadernos, com a cabeça inclinada na mesa. A mão brincando com o graveto na boca do cachorro. A mão boba no cinema. A mão para levantar o véu branco da esposa. A mão ansiosa a segurar o primeiro passo do filho.

A mão assustada de ternura. Ossuda, magra, com as veias azuis pedindo passagem. Envelhecida, absolutamente carente, que vai acenar de verdade apertando outra mão.

Ouça meu comentário na manhã de sábado (25/2) na Rádio Gaúcha, no programa Gaúcha Hoje:

6 comentários:

Gislene disse...

Fabrício, você nasceu para colocar no papel através das palavras, um pouco da vida, do dia a dia, daquilo que nos pertence, que nos emociona.
Para mim, na atualidade e sem "puxa-saquismos" você é o melhor escritor, sem sombra de dúvidas.
Amo colocar suas frases do twitter no meu blog.
Suas crônicas são especiais!

Um abraço da sua fã.

Mauro Castro disse...

A mão adolescente que nos apresenta ao prazer?
Há braços!!

Jane disse...

É verdade ! Meu pai sempre dizia que se ele morresse queria que minha mãe segurasse a mão dele.Mas na hora em que isto aconteceu foi qdo eu entrei na UTI e vi os médicos bombeando oxig~enio.E segurei a mão dele com todo amor que eu sentia e sino.Um minuto depois ele apertou minha mão de leve e deu seu último suspiro.Fiquei feliz dele sentir uma mão segurando a dele!
bjks

Daniele Cezar disse...

a gente nasce com a mão fechada e, depois que morre, a mão se abre.

deveríamos exercitar o desapego desde cedo. normalmente, ele vem muito tarde.

adorei o texto.

:)

Poliana Alves disse...

Lindo post! ;)

Paula disse...

Lindo texto, adorei também o comentário da Daniele. Vamos dar as mãos desde já, abrir o coração!