domingo, 9 de setembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

Arte de Eduardo Nasi
 
ENVOLVIMENTO DEMAIS

“Tenho 31 anos, sou profissional liberal bem-sucedida, culta, bem-humorada. Meu relacionamento terminou há quatro meses, quando pressionei meu namorado para alugarmos um apartamento. Ele confessou não estar pronto. Era uma pessoa muito ligada à mãe. Abraços, Magda”

Querida Magda,
 
Não sei se isso é uma pergunta ou uma propaganda pessoal. Você está extremamente partidária de si. Numa campanha eleitoral ostensiva. Nunca errou, pisou na bola? Aparece pregando suas virtudes, o que provoca uma severa desconfiança do eleitorado.
 
Quem se elogia antes não oferece espaço para elogio depois. Acho que somente espera que eu concorde com sua vitimização, mas vamos pensar juntos. Quando tememos um amor, ele fica. Quando desejamos desesperadamente um amor, ele some.
 
Temer é viver a dúvida, a inquietação, ouvir o contraponto com interesse. Já ambicionar o casamento antes do amor é atropelar o namorado com nossa ansiedade. Está tão faminta de uma relação que não sente o sabor das pequenas ofertas.
 
Sua ânsia de se estabelecer rapidamente (e encontrar um parceiro à altura de seus predicados) aniquila qualquer relacionamento. Cheira como um golpe, trote, insanidade. A decisão de morar junto deve ser conjunta, senão haverá recaída logo mais adiante. Se ele diz que não está pronto, não estava brincando. Tanto que acabou.
 
Quando o primeiro pressiona, e o segundo resiste, é um sinal de desentendimento futuro. Não iria mudar sua mentalidade, ou vencer o concurso materno com a sogra. No amor honesto, é mais fácil desistir de nossas convicções do que convencer o outro. Minha dica: use talheres e guardanapo, pare de comer com as mãos.


SEM ENVOLVIMENTO

“Resolvi não me envolver com mais ninguém, mas não consegui. Estou saindo com um cara há quatro meses. Ele deixou claro que não vai se envolver, e eu aceitei. Não começamos e por isso não temos como terminar. Todos me orientam para sair dessa: mãe, amigas. Beijo, Penélope”.
 
Querida Penélope,

Amor não é contrato onde rubricamos cláusulas ou respeitamos promessas logo na entrada. Dizer que não vai se envolver é o mesmo que pedir em casamento de cara. A mesma arbitrariedade. A mesma ditadura. A mesma falta de senso. O mesmo assalto.
 
Estabelecer regras do jogo antes de jogar é constranger a namorada. Entendo que tenha concordado, fingido desinteresse. Entendo que é um modo de não pressionar.
 
Mas ele usará suas palavras contra você. Sua expectativa é que ele mude de opinião e confesse que a ama para seguir com aquilo que realmente se propõe (um namoro sério). Sofrerá todos os encontros aguardando a declaração amorosa libertadora. Criou uma dependência desnecessária. Uma fissura que prejudica o entendimento dos fatos.
 
Está empenhada em alcançar um fim, e é natural desprezar o andamento ou não se ligar com detalhes importantes da aproximação. É um blefe. Todo blefe custa caro. Como não há como ganhar com sua verdade, ele precisa perder. Torce para que ele morda a língua e assim não ser derrotada. O fracasso dele é sua vitória. O êxito dele é seu fiasco.
 
Quando o sujeito confessa que não deseja se envolver não é franqueza, é cara-de-pau. Nas entrelinhas, está avisando o seguinte: terá que me agradar muito para me conquistar. Ele lava as mãos para que trabalhe dobrado pela relação. Ele apenas quer receber e ser mimado. É o escravagismo do silêncio.
 
Abolição já!
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 09/09/2012 Edição N° 17187
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

16 comentários:

Maria Helena disse...

Algumas pessoas especiais, a exemplo de Fabrício Carpinejar, nascem com um olhar diferenciado para nos sinalizar avisos importantes que estão nas entrelinhas de cada passo do intercâmbio que é a vida.Uma grande parte de nós, segue o caminho traçado e se contenta com os rótulos e as conservas do caminho.Embotando a criatividade e a espontaneidade vamos fazendo de conta que vivemos. Hoje, talvez, tenha aprendido mais sobre um determinado assunto do que em toda uma vida.Obrigada!

ana disse...

A vida me ensinou que um relacionamento sempre termina do jeito que começa. Se começou como amizade, termina com amizade. Se começou com pressão, termina com alguém sendo pressionado, se alguém falou que não vai se envolver, acredite, essa pessoa não vai se envolver. Se a pessoa diz que é sempre ela que termina os relacionamentos, não pense que com você será diferente. Preste muita atenção ao que as pessoas dizem que vai ser assim que elas irão agir. Temos a tendência a pensar que desta vez será diferente, pois estamos apaixonados. Na maioria dos casos ele ou ela irá agir exatamente dentro do previsto.

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Muito bons esses "conselhos sentimentais". Não há formulas magicas para sentimentos, mas é possível saber quando se está numa furada... Adorei!

Juliana disse...

Devorei o Canalha!
Agora que encontrei o blog me alimento com moderação.
Muito bom.

lili cheveux de feu disse...

amor tinha que vir com manual de instrução.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Este tende mais para o caso pau amigo.

§Natasha§ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
§Natasha§ disse...

Ao ler a primeira me vi no lugar da segunda com acessórios. Envolvida e arrogante. De qualquer forma, nem todo homem olha qualquer relacionamento pelo viés da poesia. Infelizmente. Ideal é silenciar e se resguardar.

§Natasha§ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
§Natasha§ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
§Natasha§ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
§Natasha§ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Marçal disse...

Olá!
Enviei, por e-mail, algumas observações sobre o texto de domingo.
Aqui no meu Blog e no Facebook.
Um abraço agradecido, Maria Marçal
http://maturidadedivagando.blogspot.com.br/2012/09/quando-nos-achamos-demasiadamente.html

Cinthia B. disse...

Que coisa mais perfeita de se ler. Concordo muito, isto aqui clareia tanta coisa, tem tana gente egoísta desejando ser mimada, sem dar nada em troca.

"Quando o sujeito confessa que não deseja se envolver não é franqueza, é cara-de-pau. Nas entrelinhas, está avisando o seguinte: terá que me agradar muito para me conquistar. Ele lava as mãos para que trabalhe dobrado pela relação. Ele apenas quer receber e ser mimado. É o escravagismo do silêncio.

Abolição já!"

Dayse Costa disse...

ah se eu tivesse lido esse texto antes...

ganhar dinheiro disse...

parabens pelo belissimo blog, acompanho o mesmo desde 2010, recomendo a muitas pessoas. Parabens