quarta-feira, 26 de setembro de 2012

RETIRO NUPCIAL

Arte de Eduardo Nasi 

Recomendaram-me sair de perto.

— Fique longe dos lugares preferidos do relacionamento, dos restaurantes conhecidos, dos percursos decorados. Revê-la de repente será constrangedor.

Eu ri, afinal como se esconder em Porto Alegre? Inútil como criança buscando refúgio atrás das cortinas. Inútil. Na capital gaúcha, natural se esbarrar num show, no teatro, no cinema. Nossos gostos eram muito parecidos, o que fortalece o acaso.

Se fosse seguir o conselho, não poderia nem assistir ao meu Inter, grandes chances de enxergá-la nas arquibancadas do Beira-Rio.

Para relaxar da paranoia amorosa, fugi para Belo Horizonte. Antes me certifiquei de que não havia nenhum Congresso de Psiquiatria durante o período.

Eu me internei no Hotel Ouro Minas, disposto a retomar o livro de poemas. Nada como o luxo para curar a avareza da separação.

O conforto já me fazia bem: passeava sem medo de traumas e comia sem olhar para a porta.

Mas, no hall de recepção, quando desci para ler jornais, havia cinco casais se amassando. Beijavam-se loucamente, em lascívia cega, similar aos adolescentes nos bancos dos shoppings.

Veio o mal-estar. Pareciam casais cenográficos. Don Juans ensandecidos enfiavam as mãos nos coques das donzelas. Muitos enlaces fervorosos, reticências dos suspiros, juras endeusadas.

Eu fingia ler, apesar da solidão me angustiar. Quando sofremos de amor, qualquer alegria é uma nova tristeza. Recrutava calafrios nas lembranças recentes.

Enjoado, larguei o caderno de Esporte pela metade, cometendo alto sacrilégio masculino.

No almoço, o isolamento aumentou. Tinha a certeza de frequentar uma excursão do Dia dos Namorados ou um cruzeiro de Roberto Carlos. Mesinhas a dois, com luz de velas, os garçons de black-tie, as cozinheiras sorridentes como aeromoças, uma atmosfera romântica pegajosa no ar.

O maître, ao puxar minha cadeira, ensaiou preocupação:

— Sua esposa vai descer logo?

Aquilo me turvou. Será que não havia vida solteira naquele prédio?

Pedi comida no quarto.

De noite, o meu oitavo andar foi tomado de uma onda sonora perturbadora. Gemidos, música alta, cama rangendo. Cada quarto comportava uma rave, era o que dava para imaginar. Impossível adormecer sabendo que todos transam, menos você. Um puteiro seria mais discreto. Havia uma algazarra libertina, as vigas tremiam, os quadros tremiam, minhas sobrancelhas tremiam de raiva.

Na manhã seguinte, antecipei a conta.

O recepcionista questionou o motivo de encurtar a estada.

— Querido, aqui unicamente enxergo casais se amando e esnobando seu amor.

Ele balançou o rosto de modo gracioso, explicou que o hotel realiza uma promoção aos recém-casados uma vez por mês. Naquele fim de semana, o lugar recebeu vinte e nove pares em núpcias.

Desespero não é ser jogado ao pior lugar. É estar no melhor lugar no momento errado.

Voltei imediatamente a Porto Alegre. Agora só faltava encontrar a minha ex com outro no aeroporto.
 
 





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

21 comentários:

Camilla Caetano disse...

Não seria melhor dizer ´´EX MINHA`` em vez de ´´MINHA EX`` ?

Abraço afetuoso de uma fã!
Fique bem!
;)

Carpinejar disse...

Aqui no sul, a gente diz `minha ex`. Ela continua sendo algo teu mesmo não sendo. risos

Eduardo disse...

Internar no Ouro Minas, excelente escolha, hotel maravilhoso aqui de BH. Estar neste maravilhoso hotel solteiro quando está rolando encontro de casais apaixonados é sacanagem. é mta sacanagem. Mto legal o texto, embora triste circunstância. Ainda não acredito no fim do relacionamento entre vc e Verry. Não consigo acreditar mesmo. Um abraço! Parabéns pelo excelente trabalho que vc faz!

Mariana Penna disse...

Que ilustração mais ousada!!

Anônimo disse...

Acredito que nós dois, Fabricio, estamos passando os piores momentos de nossas vidas, até agora. Mas temos que crer que é passageiro, porque senão, já teríamos sucumbido. Esta crença nos leva a ter, a cada dia, um pouquinho de forças pra tocar adiante nossas vidas. Mas, acima de tudo, temos que crer que nossos "ex" é que perderam muito, muito mesmo. Já não é comum encontrar pessoas como nós, que se entregam ao amor e à paixão como sendo a razão de nossas vidas.Eles sentirão saudades, também. Um forte abraço.

mARa disse...

Escrever drena os sentimentos machucados, órfãos, solitários, uma catarse, e quando o lemos sentimos o quanto tua Alma Chora.

Boa Sorte!

Kika Domingues disse...

Ai Fabrício... Repito: Ai de nós não fossem os escritores, os poetas e os músicos... E é também no seu sofrimento que a gente , "se acha", entende, enfim, reflete sobre tal sofrimento... O escritor(Poeta)é, por certo, um analista de sentimentos, um amigo, um bálsamo, uma luz que clareia o caminho de quem o segue. Quanta transparência, quanta generosidade em dividir e compartilhar seu momento... Lindos textos, todos, como só você sabe escrever... Gosto da ideia do "anônimo" sobre ter a crença de que o outro é que perdeu... Verdade! É sem dúvida o exercício mais saudável neste momento. Vai... Escreve, escreve... Cê sabe: a arte é catarse, ela salva, ela sublima, - Temos a arte para não morrer da verdade(Friedrich Nietzsche) - E no mais: "Amanhã será outro dia"(Scarlet O'Hara). Outro abraço!

Fernanda disse...

querido, no inicio do mês ganhei o livro Canalha, de aniversário de uma amiga muito querida do Sul(moramos em Brasília) que disse adorar o que você escreve. Eu curiosa comecei a ler o livro e claro, amei. Logo fui dar um google no teu nome, procurar mais textos, referências e afins. Estou simplesmente apaixonada por tudo que você escreve. Fazia tempo que nao me identificava e lia algo com tanta sensibilidade. Muito bom!! Virei fã! Beijos, Fernanda.

Cristal disse...

Já passei por isso. Mas dor de amor, no fundo, dá prazer. As lembranças se repetem como filmes na nossa cabeça, em uma tentativa de reviver tudo novamente.

Cristal disse...

digo filme. É que relembrar nossas cenas com nosso amor é uma forma de repetir a experiência, saboreando cada detalhe, dando pausa, colocando um zoom emocional.

Anônimo disse...

Caro Fabrício
Pensei muito antes de tomar a decisão de fazer um comentário. Não seria cinismo da minha parte simplesmente escrever palavras de conforto ao teu momento de luto, estando eu a sentir-me amada e feliz?
Acredito que nos distanciamos do sofrimento alheio quando nos sentimos assim.
No fundo, saber da ruptura de uma relação, duradoura ou não, força-nos a
pensar que um dia isso pode acontecer novamente com a gente.
Que o amor, assim como a vida, é frágil e imprevisível.
Sim, o amor é frágil. Pois se fosse forte, não acabaria.
Imprevisível em sua natureza não controlada.
Que bom perceber que esse momento não afetou em nada a tua sensibilidade.
Você, Fabrício, transborda poesia em tudo que escreve. Parabéns!
Um abraço.

Fanzine Episódio Cultural disse...

Eloísa Mafalda, uma de nossas grandes atrizes acaba de completar 88 anos! Ela participou de muitas novelas, entre elas: Mulheres de Areia, Roque Santeiro, Pedra sobre Pedra, A Grande Família (1º versão), entre outras. Mas infelizmente ela foi esquecida. Compartilhe com seus amigos das redes sociais para que Eloísa receba – pelas mãos do Faustão–, o “Troféu Mário Lago”.
Através de sua divulgação, Eloísa receberá da Rede Globo esta justa e merecida homenagem.
Divulgue em seu Orkut, Facebook, Twitter... Vamos valorizar essa grande artista!

JuSP disse...

Fabricio querido , lugar com casalzinho é uó do borogodó mesmo , até a maldita coca cola lembra do ex ( da ex ) ...
Tempo , tempo , tempo .Só isso mesmo .
E continue com seus belos textos , afinal pelo menos a dor de amor nos brinda com suas lindas palavras !

Anônimo disse...

Os comentarios acima so confirmam que não sofremos sozinhos quando sofremos de amor.
A gente cresce pelo amor ou pela dor. Momento da segunda opçao pra nós dois. E me sinto confortada em saber que divido os mesmos sentimentos, medos, ansiedades e paranóis com outros seres da minha especie. A especie que ama e se dá, e quando percebe se deu demais e ficou sem nada!!! Um beijo grande direto de Gramado pra ti!

Anônimo disse...

SOBRE VACAS
Um dia vi uma bela vaca. Disse: - meu Deus que bela vaca! Apaixonei. Passado tempo, a vaca ruminava mal humorada odiava, não amava, fingia que rezava a vaca. Fingia religiosidade como tias velhas do interior. Então perguntei: o que é isso? Depois de um tempo pensando lembrei: - claro é uma vaca, rumina e arruína!

Anônimo disse...

Fabricio, eu te amo.
Case-se comigo, prometo que te faço esquecer a Cinthia, com todo respeito a ela, já não suporto ver meu muso jogado nos braços de uma vazio.

Anônimo disse...

ela não voltará logo, ninguém - nem ela - ousaria estragar esta fase sofrida de tão belos textos. lindos!

Anna Paula Barp disse...

Estou bege com essa e com pena de ti.

Anônimo disse...

Esse negócio de "casalzinho de televisão", fazendo gênero, não dá certo...Você, ela, ambos são do tipo "atuando" o tempo todo. Não são de verdade.Acho ambos um PORRE.

Anônimo disse...

Fabricio sou fã de "sua ex".
Estou passando pela mesma dor, "meu ex" não me quer mais...sofrendo muito, sem vontade de fazer nada....só tenho vontade q me ligue dizendo que foi tudo brincadeirinha.
nari

Cecília disse...

Por que vocês terminaram? Eu adorava vocês juntos e o Matando Carpinejar.... que pena...
De todo jeito, também estou adorando o que você escreve sobre o novo relacionamento e quero que saiba que torço pela sua felicidade independente de quem seja sua parceira. Um abraço de sua fã.