terça-feira, 16 de outubro de 2012

MEU SONHO DE CASAMENTO

Arte de Marc Chagall

Meu sonho é subir ao altar. E uma mulher alucinada gritar do fundo da igreja:
 
– Não, ele me pertence, eu ainda o amo.
 
Seria o máximo. O pianista buscaria despistar o pânico tocando Princesa Diana, de Elton John, haveria uma agitação febril no átrio, burburinho e gemidos frenéticos entre os convidados, o padre se manteria incrédulo, a noiva iria me fuzilar:
 
– Quem é ela?
 
Explicaria baixinho no ouvido que é uma antiga namorada sem importância.
 
Todos os olhos estariam voltados para minha boca, eu roubaria a cena. Finalmente veriam que meu terno preto era Armani, que custou tão caro quanto o véu e a grinalda.
 
Para manter o suspense, não responderia no ato, giraria o rosto indeciso para o lado esquerdo e direito, como torcedor em partida de tênis. Até emitir a sentença:
 
– Eu amo minha noiva. Você é passado. Some daqui!
 
Depois do susto, garantiríamos nosso futuro. Nenhum incidente poderia nos separar de novo.
 
Ela completaria bodas de ouro comigo, jamais cogitaria a distância, permaneceria fiel vida adentro.
 
Nada como o pânico para renovar os votos de felicidade. Nada como um dilema para fortalecer decisões.
 
A reconciliação necessita acontecer antes mesmo da briga. É o medo de perder o par que reforça nossa entrega.
 
Orgulharia sua família e amigos ao descartar publicamente uma rival, ao mandá-la embora desprovido de piedade.
 
Aquilo seria a maior prova de amor. Muito melhor do que ser casto em festa de solteiro.
 
Receberia a confiança eterna de sua aliança, a cumplicidade delicada de sua fé.
 
Mostraria que sou o tipo ideal, sério e devotado: não estraguei a festa, não humilhei seu vestido, venci as tentações egoístas.
 
Deveria existir um serviço para contratar “loucos da igreja”. Senhoritas e senhores, disponíveis em books nas agências de publicidade, preparados para protestar no casório.
 
Contidos no princípio da cerimônia, romperiam o corredor com estardalhaço na hora em que o padre falasse: “Se alguém tem algo contra este casamento, que diga agora ou cale-se para sempre”.
 
Assim como as carpideiras, recrutadas para chorar em velórios, formariam uma nova categoria profissional, um time de lindos modelos provocando ciúme no noivo e na noiva e apimentando o relacionamento.
 
Seriam atores e atrizes dramáticos e desesperados realizando uma intervenção amorosa e criando intrigas existenciais.
 
Todo não pede um sim. Todo governo requer oposição.
 
Casamento de sucesso depende de torcida contrária.
 
 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 16/10/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17224

11 comentários:

Adriane Lopes disse...

Adoorei!! Carpinejar sempre espirituoso, sou muito fã ;)

Unknown disse...

me avise quando voce for casar... faço essa loucura por voce...

Neguinha da Fé disse...

faz tempo q não passo por aqui! e, surpreendentemente, o carpina continua escrevendo tão melhor quanto sempre :)

Edom disse...

Muito bom!!! =D

E ainda deveria falar no altar, depois da pergunta habitual do sacerdote: Não, não aceito. Brincadeira... Aceito, sim.

E viva a incerteza que enfraquece a pessoa enquanto fortalece o desespero da paixão.

Débora Aquino disse...

hahahahaha muito bom! Adoreeeiii!

Távora disse...

essa loucura chamada Amor só me faz querer viver mais!
texto sensacional!

Anônimo disse...

Perfeito, Fabrício! Delicioso seu texto, como sempre. Beijão.

Anônimo disse...

Caro Carpinejar, até onde podemos ir para termos um casamento feliz ? Pergunto isso porque sou muito submissa e faço tudo para não brigar e para ver meu marido sorrir. Sou macia demais. Coloco minhas vontades sempre em segundo plano só para ver a alegria nos olhos dele, mas às vezes eu sofro por não saber dizer não.
Sou assim em tudo, sempre faço concessões mas de vez em quando tenho que me esforçar demais. Somos um casal perfeito, admirado por todos . Ele me ama e tambem faz tudo por mim. Acho que o preço que pagamos pela perfeiçao é muito alto, por isso muitos desistem do relacionamento. Temos que abrir mão da individualidade, pelo menos parcialmente, para não criar atritos que poderiam aos poucos nos afastar da pessoa que queremos. Escrevo para desabafar, não precisa responder se não quiser, afinal não escrevi para o consultório poetico, estou apenas escrevendo para um amigo, que sei que compreende, pois é poeta. bjs

Odara disse...

Incrivel Fabrício. Humor inteligente, sacadas fantásticas!
Agora já sei o que contratar pro meu, ao invés de cerimonial clichê.

luisventurafotografia disse...

Tu és um GENIO...

Um novo atrativo para as enfadonhas cerimônias... um teatrinho simplinho, noivo e noiva sabedores, restante... nada...
Mal estar, suores frios, frios nas espinhas, até um desmaio da vó da noiva.

Poxa, gostei, quem sabe, novo produto para ser vendido pela cerimonialista ao casal de nubentes...

Genial...

ganhar dinheiro disse...

parabens pelo belissimo blog, acompanho o mesmo desde 2010, recomendo a muitas pessoas. Parabens