quarta-feira, 21 de novembro de 2012

SAINDO DO ARMÁRIO

Arte de Eduardo Nasi


— Mãe, tenho que conversar sério.

— O quê?

— Não aguento mais viver assim, meu coração está apertado, cansei de mentir.

— Desembucha, meu filho, estou preocupada.

— A senhora já deve ter me visto com a Raíssa estudando no quarto.

— Sim, o que aconteceu?

— A gente estava revisando Matemática, preparando cálculos da prova e a gente beijou na boca.

— Ai Ai Meu Santo Pintor Caravaggio…

— Mãe, eu não consegui me controlar, sei que é errado, mas ela cheirou meu rosto e eu…

— Chega, por favor, não faço questão de saber. Não mereço tamanha humilhação.

— Mas mãe…

— É errado, é contra a natureza, contra as regras de Deus.

— Mãe, por favor…

— Vou pegar meu remedinho.

— Mãe, não vem pôr remedinho na língua, impossível conversar desse jeito.

— Coitada da menina, você se aproveitou dela?

— Não, não foi, é amor.

— O que você quer dizer com amor?

— Estou tentando dizer que sou heterossexual.

— Um filho heterossexual? Não, você não foi educado em escola de padre para sair heterossexual.

— Mas eu gosto de mulher.

— O que seu pai dirá disso, Aurélio? Tem ideia do que está propondo? É uma crise passageira, coisa de adolescente.

— Eu não fico interessado por meninos na escola, não posso ir contra meu desejo.

— É fase, querido. É só cortar os cabelos, fazer chapinha, que passa.

— Mãeee!

— É vontade de ser especial, logo some. Que tal comprar maquiagem no shopping hoje? Há todo um estojo de esmalte, sombras e delineador da Marilyn Monroe, novidade da Mac, acredita?

— Não está me ouvindo, ajuda!

— Eu compro um armário novo para você se esconder, mais espaçoso, com luzes embutidas e espelho, será seu camarim, que tal?

— Vou enlouquecer.

— Isso também aconteceu com o filho da Bete, durou três meses e ele já se veste de Lady Gaga de novo.

— Me ouve. Preciso de seu apoio, não dá para me entender? Não complica.

— Para de falar bobagem.

— Não é um momento, mãe, é uma decisão antiga. Colocava as cuecas do pai em segredo.

— Roubava as cuecas de seu pai?

— Sim, e a bombacha, e os moletons rasgados, e as alpargatas.

 — Alpargatas? Eu eduquei você para salto 12. Por que nunca me contou?

— Nunca prestava atenção em mim, apenas se preocupava em comprar sapatos e bolsas.

— Filho, você somente tem 16 anos, é jovem para decidir que é heterossexual. Calma, espera um pouco, muita água vai rolar por debaixo da ponte.
 

 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

12 comentários:

Everton Maciel disse...

claro, claro. Porque ser heterossexual é um problema nessa sociedade heterofóbica. Os dados rolam. Um. Avança. Volte três casas e tente outra vez.

Anônimo disse...

Gostei da sátira.

Marcelo Ramos disse...

Gostei da cronica... Nice...

Roseli Vaz disse...

Gostei do alerta! Precisamos cuidar + da educação de nossos filhos homens, em especial. Só assim,quem sabe, no futuro teremos homens +seguros, bem +resolvidos e +felizes, homens que amem, mesmo sem compreender, uma mulher.
Brisei!

Roseli Vaz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
by fantasma disse...

Muito bom seu blog amigo.

Hana disse...

Ninguém aqui entendeu a real intenção da crônica.

Nati disse...

Sendo o que quer ser é o que importa. Beijo

Felipe Junior melo disse...

Estou aqui denovo comentando,por que adoro esse blog,bom demais,muito bom msm!!!!!!me recomendaram e até hj acompanho,mais ai queria tirar uma duvida sera que esse site é bom http://detetive-particular.com ? se alguem souber me falar,e continue com mais post!! fuuuuuuuuui

ganhar dinheiro disse...

parabens pelo belissimo blog, acompanho o mesmo desde 2010, recomendo a muitas pessoas. Parabens

Anônimo disse...

Ri bastante, embora eu ache que tem alguma crítica velada à reação das mães ao saber que tem um filho gay...
Mas do jeito que o mundo está indo, não muito longe daqui será um espanto saber que o filho é heterossexual. Existe quase uma obrigação da pessoa engolir goela abaixo que é melhor se gay que ser hetero.
Parece que um homem gostar só de mulher é quase uma afronta, uma discriminação a todo e qualquer tipo de prazer. Um preconceito até...
Eu respeito os gays, mas não suporto essa apelação, esse quase incentivo à homossexualidade...
Abraços da Ana Maria

Dama da Triste Figura disse...

Li como uma crítica ao posicionamento dos pais ao descobrirem que seus filhos têm relacionamento homossexual. O Carpinejar só inverteu o problema. Excelente reflexão. Ao ler me questionei, como um jovem de 16 anos hetero, para os pais, sabe o que quer e um jovem da mesma idade homossexual é considerado imaturo.
Essa é a minha leitura do texto.