terça-feira, 9 de julho de 2013

NÃO TENHO MAIS AVÓS VIVOS



Nenhuma casa de avó para visitar mais.

O Mercado Público de Porto Alegre é a casa de avó que ainda me resta.

O casarão amarelo em que até fantasmas e vivos não se estranham, em que o antigo e o novo não se desentendem.

O Mercado Público é onde tenho a liberdade de neto, sem a pressão de filho.

É uma quadra inteira de conselhos e mandigas, um prédio pintado de crepúsculo, com marquises e varandas, histórias e assoalhos, porões e janelões.

Todos podem entrar, não há discriminação social, intelectual, espiritual, é o clube social em que basta nascer gaúcho para ser sócio.

O Mercado Público é o aquário do Guaíba. Um girassol de pedra.

De seu segundo andar, posso enxergar a cidade, o rio, pedir colo a uma nuvem.

As pombas voam com entusiasmo em seu teto alto de catedral. Os cachorros procuram caixotes de madeiras para sestear.

Foi no Mercado Público que minha filha aprendeu a comer peixe.

Foi no Mercado Público que comprei erva-mate para mandar para meu pai no Rio de Janeiro.

Foi no Mercado Público que encontrei pó de casamento para jogar na minha mulher Juliana (e deu certo).

Foi no Mercado Público que abandonei meu medo de mendigos.

Foi no Mercado Público que arremessava aviãozinho de papel em direção à prefeitura.

Foi no Mercado Público que ampliei minha coleção de selos.

Foi no Mercado Público que carreguei um peixe numa sacola de plástico para entregar de presente a meu melhor amigo.

Foi no Mercado Público que quase morri de mocotó disputando quem comia mais com meus irmãos.

Foi no Mercado Público que tomei meu primeiro café forte e dispensei o açúcar.

Foi no Mercado Público que escrevi poemas de minha estreia: a tarde enferrujava nos dobres das dobradiças.

Foi no Mercado Público que minha mãe contou que iria se divorciar do meu pai. E, para compensar a notícia, deixou que repetisse sorvete com salada de fruta.

Foi no Mercado Público que gastei o meu primeiro salário como jornalista.

Foi no Mercado Público que comprei frutas exóticas para treinar meu paladar a viajar longe.

Foi no Mercado Público que meu eco passou a andar sem coleira.

Foi no Mercado Público que marquei encontros comigo e me perdi de mim.

Foi no Mercado Público. Sempre minha vida foi no Mercado Público.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 08/07/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17486

4 comentários:

o olho do badejo disse...

Muito lindo! Que pena, pegou fogo!

Ana Paula disse...

Que ele volte a trazer as mesmas emoções como dantes.
Bj

sandra denise disse...

a tua história do mercado é igual a minha, não tenho mais avós vivos e conheci ele com a minha avó, lembro do pastel com um ovo inteiro, da manteiga e tudo que ela trazia no dia do pagamento. Aprendi a amar o Mercado e até hoje determinadas coisas só consigo comprar lá.
Obrigado pela crônica.
Sandra Denise Lopes

Fastmídia disse...

Muito legal seu site.