terça-feira, 30 de julho de 2013

O IMPOSSÍVEL É O SOBRENOME DO MEDO



Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo.

Perdemos mais tempo adiando do que aceitando a dificuldade.

Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim.

Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar. Porque estaremos longe, mas com saudade. Porque estaremos protegidos, mas vazios. Porque estaremos aliviados, mas entediados.

A vida é simples, milagrosamente simples.

A esperança é firmeza. Consiste em seguir adiante mesmo com pânico, mesmo com receio.

Não há como acalmar o coração senão vivendo.

Parece que nunca conseguiremos fazer, mas vamos fazer, acredite, toda a vida foi feita de sustos bons.

Somente tememos o que é importante. Somente temos dúvidas do que é essencial. Somente entramos em crise por enxergar com clareza a dimensão de nossa escolha.

Os riscos valorizam a recompensa.

Viver não é para solitários. Sempre tem alguém nos chamando para nos acompanhar no perigo.

Eu pensei que nunca percorreria o corredor de minha infância caminhando, mas o vô me esperava do outro lado. Eu caí e ele me levantou com suas mãos de regente.

Eu pensei que nunca me manteria equilibrado numa bicicleta, mas meu pai fingiu que segurava a minha garupa e pedalei de olhos fechados com o vento me guiando.

Eu pensei que nunca aprenderia a ler e a escrever, mas a letra da minha mãe foi a escada para as histórias.

Eu pensei que nunca teria uma namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série.

Eu pensei que nunca conseguiria nadar, mas os braços foram se revezando até atravessar a piscina.

Eu pensei que nunca passaria no vestibular, mas sacrifiquei noites e pesadelos para um lugar na faculdade.

Eu pensei que nunca teria filhos, eu pensei que nunca dividiria a casa com alguém, eu pensei que nunca seria dependente do olhar de uma mulher, eu pensei que nunca teria dinheiro, eu pensei que nunca seria feliz.

Eu pensei, mas fui fazendo. Fazendo. Fazendo.

O impossível é apenas o sobrenome do medo.

Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta.

O impossível é inesquecível.

O impossível é o possível repartido. O impossível é o possível a dois.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 30/07/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17507

9 comentários:

Alexandra Del Amore disse...

Parabéns! Linda crônica!

Sutilzeas e Amenidades disse...

Perfeito!

clelia disse...

Putz, cara, tenho uma mania irreparável de querer conhecer pessoalmente os escritores que admiro sempre que consigo. Foi assim há trocentos mil anos atrás na primeira Feira do Livro do Rio de Janeiro quando tive uma micro conversa com C Drummond de Andrade; foi assim com o Scliar quando ouvi falar sobre sua simplicidade e pus isso à prova ao me apresentar na redação da ZH; vim morar em Porto para tentar falar de meu amor ao Quintana, mas ele faleceu antes de minha chegada...
Sem tietagem chata, quero muito ainda conhecer outros maravilhosos. Te incluí na minha listinha mental.
Você escreve com uma lucidez de quem vive, lirismo de quem sonha, humor de quem ama!
Parabéns,
Grande abraço,
Clélia Nobrega

Celia Almeida disse...

Amei isso: "O impossível é o sobrenome do medo"! Frase perfeita! Superando nossos medos, nada é impossível.Parabéns!

Anna Paula Barp disse...

Que lindo, adorei!

NetDaniels disse...

Bah! Esqueci que estava lendo um texto. Esqueci de fazer a análise analisante do seu texto. É bom de ler, e fim.
Sem análises analisantes.

Esmerail Oliveira disse...

Precisava disso hoje.
Parabéns!

janfelizpornada disse...

"Somente entramos em crise por enxergar com clareza a dimensão de nossa escolha". Ui essa doeu. Sim, escolher dói, faz cair, levantar, urrar de dor, mas faz feliz também por termos a chance de mudar. Janfelizpornada

Daisy Dantas disse...

Lindo, repito, muito lindo, sensível e incrivelmente inspirador. Era tudo o que eu precisava ouvir, digo, ler. Muito, muito obrigada por compartilhar tanta beleza em apenas um texto.