sexta-feira, 3 de junho de 2016

VODU DA SEPARAÇÃO



Texto: Fabrício Carpinejar
Foto: Gilberto Perin

Como você morava junto, fazia tudo junto, ainda pensa que a outra pessoa está ligada mesmo depois da separação.

Jura que o outro faz o que você faz: se chora o outro também vem chorando, se tem um ataque de pânico o outro também suporta aceleração cardíaca, se segura o celular para esperar uma ligação o outro também aninha o celular com ansiedade, se escuta aquela música que vocês se conheceram o outro também está cantando na mesma hora com a voz embargada. Vive a ilusão da telepatia, a miragem da correspondência emocional, a síndrome da duplicidade do sofrimento.
Não desligou o Wi-Fi da sua alma e mantém o acesso do antigo parceiro às fontes de seus pensamentos.

Tranca-se no quarto, esquece que tem casa e coloca na cabeça o que o seu coração manda. Alimenta a fantasia de que a ruptura dos laços criou uma alma gêmea sofredora. Ele é você - como se estivessem dividindo um único corpo de arrependimento e orgulho ferido.
É o vodu da separação, com a diferença de que você é o boneco. Acaba se maltratando para repercutir agulhadas em seu objeto amado e agora distante.

Não come e acredita que o outro não estará comendo, não dorme e acredita que o outro não estará dormindo, não sai e acredita que o outro amarga idênticas privações, faz paralisação da felicidade e acredita que o outro não aproveita os antigos prazeres.
Todo o ex é um fantasma - o defunto amoroso não tem direito de resposta e permite o surgimento de fantasias totalitárias.

A abstinência pode durar duas a três semanas, até que rompe o casulo e
vai espiar o Facebook de quem gostava e descobre que nada disso aconteceu: só fotos de festas, piscina, bares, sorriso, algazarra com os amigos, leveza e descompromisso.

É a maior decepção, enxerga-se enganado, traído, como se não valesse nem o intervalo do luto. A vontade é telefonar e soltar os cachorros feridos: eu agonizando por você e você nem aí para mim.
Não vale a ligação. Não vale mais nada. Penou todo o tempo sozinho, como de repente amou o tempo todo sozinho.

Perceber que não são a mesma pessoa é o caminho para o amadurecimento. Daqui por diante, exponha as desilusões por você, não mais pelos dois, já que morreu a dependência. Não dê desculpas pelos dois, não justifique o fim pelos dois, não invente esperanças pelos dois, não mantenha a porta aberta pelos dois. A separação nunca será solidão a dois. Por isso que é separação: para cada um sofrer do seu jeito ou simplesmente não sofrer.

O amor, antes ditadura de um único sentimento, tornou-se democracia para os demais sentimentos, inclusive da indiferença.

Publicado na coluna semanal do Jornal O Globo
02.06.2016

4 comentários:

Silvane Weippert disse...

Exatamente. Suas crônicas parecem feitas para mim!!

Silvane Weippert disse...

Exatamente. Suas crônicas parecem feitas para mim!!

Helena Barbieri disse...

Além de sábio, vc vê além.

Helena Barbieri disse...

Além de sábio, vc vê além.