segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

FALAR É AMAR

Arte de Eduardo Nasi

Tudo o que é bonito e não tem com quem dividir dói por dentro. Pássaros na janela, bolinho de chuva, lua cheia, um filme sensível, um livro feito de suspense, a neblina cobrindo o rio, as estrelas no alguidar da noite, uma orquídea brotando sua pétala de colher. Tudo o que é lindo se não é partilhado sufoca, cria ansiedade, maltrata a solidão. Não temos como segurar a beleza muito tempo dentro da gente, senão ela vira dor muscular, tensão, medo.

Olhar é esquecer. As palavras são nossos olhos para guardar.

O impacto das recordações reside no fato de contá-las. A vida pede passagem muito rápido e temos que anotar o que sentimos na primeira pessoa que aparece em nossa frente. A folha de rosto é o rosto do amigo.

É descrevendo que a beleza aumenta, que o quintal se transforma em rua.

Beleza retida é angústia. Beleza falada é deslumbramento.

A emoção vem da transição do mundo interior para o exterior, do choque da passagem.

Da minha infância, mantenho o que falei ou que viram que eu fiz. O que amei em silêncio sumiu no turbilhão de imagens sem a senha e a frase de segurança.

Guardei apenas o céu da meninice porque narrava aos pais onde a  minha pandorga ia, quais nuvens caçava, se era rinoceronte ou javali.

A pandorga é a minha gaveta do céu. Quando ainda toco na pandorga, vejo o que senti naquele tempo de caça aos ventos, vejo as minhas letras presas nos gravetos.

Esqueceria se não descrevesse. A memória pode vir a ser um terreno baldio ou um jardim. Podar é cortar e editar as lembranças. Aquele que não escolhe o que foi não é nada.

Fale o quanto você ama alguém, para o amor multiplicar. Não economize. Não seja lacônico. Não deduza que é desnecessário, que o outro já sabe. Não confie na telepatia e na leitura de pensamentos. Palavras também são gestos. Longe das testemunhas, o que vivemos é ilusão.

2 comentários:

Anajá Schmitz disse...

Olá,
parabéns pelo belíssimo texto. É muito difícil falar de amor, ou falta coragem ou falta o desejado momento.
Felicidades...

Naurio Machado disse...

Parabéns Carpinejar por sua crônica. Nos ensina que o amor tem que ser dito. Aqui, em forma de gratidão, em nome de uma mulher universal. Para mim, você é um escritor supragênero! Você é genial!