terça-feira, 29 de agosto de 2017

BRINCANDO DE CASINHA

Arte: Eduardo Nasi


Quando duas pessoas estão apaixonadas elas demoram para assumir a relação. Adiam ao máximo possível a formalização do compromisso. Fingem que estão de férias, com “medo de estragar o que está dando certo” – é esta explicação nada razoável concedida aos amigos.

Carrega-se a sensação que o amor funciona quando é clandestino, secreto. Ao ser público, virão os problemas. Como se a paz sempre vingasse a dois, mas se perdesse na medida em que o namoro é divulgado. Porta-se a certeza de que os colegas e familiares contaminam a harmonia, metendo bedelho, exercendo uma influência nefasta daquilo que pode e não pode.

Esquecemos que o amor não é cativeiro. Não é uma ilha deserta.

A dois, resta unicamente o enamoramento, sem complicações. Mas o amor precisa da face externa, enfrentar o julgamento para se fortalecer. Caso contrário, não terá anticorpos durante os conflitos de temperamento e nenhum assunto para alimentar a conversa. Não desfrutará de comparação para sair da idealização.

Quem namora escondido ainda é uma criança debaixo da mesa, não é um adulto fazendo por merecer a cadeira.

As pessoas são umas sozinhas e muito diferentes em relação às demais. Assim, no exílio do quarto, não há como amar inteiramente, e sim por flashbacks e lapsos de memória. O casal nunca descobrirá como ambos enfrentam as adversidades do trabalho e como reagem sob pressão. Romance de final de semana jamais será assombrado pela segunda-feira.

Enquanto são encontros ocasionais, não tem desequilíbrio, pois a intimidade vem com a disputa de tempo e de espaço da vida compartilhada. Complicado é conciliar as contas e a calma sexual. Complicado é ouvir opiniões contrárias e seguir com as suas próprias crenças. Complicado é realizar a diplomacia da rotina com a entrega. Complicado é desembaraçar o tédio da cumplicidade. Brincar de casinha não é o mesmo que brincar de mundo.

Mudar o status no Facebook é dar a cara ao tapa, porém é também oferecer a chance de ser protegido pelos beijos de quem escolheu amar.

Publicado em Vida Breve em 12/04/17

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