terça-feira, 29 de agosto de 2017

O CAÇULA

O caçula é o que mais sofre. Costuma ser o último a sair de casa. Costuma ser o último a receber condecorações na hierarquia da idade. Costuma ser o último a entender o que aconteceu do divórcio dos pais, quando ninguém tem mais paciência para explicar e voltar ao assunto.

O caçula é o último a aprender a dirigir, quando todos tiraram carteira e o teste não é mais nenhuma novidade. O caçula é o último a entrar na universidade, quando virou obrigação passar no vestibular. O caçula é o último a perder o apelido doméstico e ser chamado pela realeza do nome. O caçula é sempre o último. O último a ter um quarto próprio, o último a ter os seus segredos respeitados, o último a ganhar roupas que condizem com o seu tamanho — o seu armário será confundido com uma campanha de agasalho. É o último a conquistar a independência. É o último a se casar. É o último a se separar e se casar de novo. É o que tem pena materna e tolerância inexplicável do pai.

O caçula é o último a poder expressar sua opinião porque é um pirralho. O caçula sofre da superproteção e não tem como se defender do amor excessivo. O caçula é o mais subestimado e o mais esquecido. O caçula não inaugura nada, não estreia nada e se sente mais um do mesmo.

Tudo o que deu errado com os demais filhos é consertado com o caçula. Ele é a margem de segurança, a previdência, a cautela. Não desfrutará das brigas libertadoras, nas quais a confissão libera a personalidade.

Não pode ser louco, pois a loucura perdeu a graça. Não pode ser o exemplo, porque será sempre o derradeiro a definir as suas escolhas e descobrir os seus prazeres. É feito da correção dos projetos anteriores e da sobra dos sonhos.

Caçula é o que mais apanha secretamente da vida familiar. Todos pensam que ele é o dileto, menos ele, com a sua experiência de criança eterna no corpo de adulto.

E não venha dizer que os últimos serão os primeiros, que essa sentença bíblica é o que mais irrita os caçulas.

Publicado em Jornal Zero Hora em 06/06/17

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