quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ERA UM FUTEBOL COM OS AMIGOS

Arte: Eduardo Nasi

Jogo futebol toda segunda-feira com amigos. No início, era para ser com grupo da mesma idade. Mas com o tempo, os quarentões se lesionam com mais facilidade e a reposição etária ficou complicada.

Encontrar alguém que não tenha uma complicação – uma lesão irreversível no joelho ou uma hérnia de disco – é uma loteria. Nem criando um anúncio no Facebook é possível recrutar soldados interessados em se alistar e desafiar a saúde e o casamento. Há mais treinadores e juízes habilitados do que atletas em campo. Os colegas dispostos e disponíveis rarearam consideravelmente.

A pelada entrou na patifaria mesmo. Porque os pais, diante da ausência de quórum, chamam os filhos adolescentes para completar os times. A igualdade de fôlego desaparece. E a velhice surge mais evidente e caricata. Melhor entrar em campo com uma bengala, onde contarei com mais chances de me defender.

Você não está mais disputando partidas na sua faixa sênior, mas concorrendo com o juvenil. Uma dividida de bola no alto pode custar duas semanas de recuperação. Quando você sobe para cabecear, precisa descer – esquecemos desse fundamento.

Estaremos troteando na quadra, em lento desfile farroupilha, enquanto os meninos vão e voltam num galope de turfe. Eles brincam; nós, velhos, brigamos com o cronômetro. Quanto falta para acabar é um pedido de socorro de nossa parte. Quanto falta para acabar é a excitação deles para fazer mais gols.

Experimentamos a gravidade pensativa e cautelosa de um tabuleiro de xadrez, e a meninada pensa que aquilo é dama, comendo as peças rapidamente pelas diagonais.

Em meu condicionamento atual, desfruto da reserva de três piques por semana, mas queimo o estoque na largada para acompanhar e intimidar os jovens. Peço para ficar um pouco de goleiro para me recuperar da asma forcada, algo impensável para o fominha de outrora.

A cabeça raciocina uma triangulação, o corpo só geme e corre para frente. Nossa geometria é uma linha reta. Nunca mais o triângulo equilátero das peladas da infância, com os três lados iguais.

Minha esposa estranha a minha exaustão de noite, mancando e suspirando até para abrir a geladeira. Há muito não jogo futebol, é pentatlo. Corro, me arremesso, salto, lanço e luto. Acima de tudo, luto para não me entregar.

Publicado em Vida Breve em 02/08/17

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