sábado, 16 de janeiro de 2010

O PINTO DO ALIENÍGENA



Cinema é conversar depois dele. Com meu filho Vicente, 7 anos, recapitulamos as cenas mais engraçadas, os achados do roteiro, chegamos até a cotar o desempenho dos personagens de animação. É engraçado. Entramos numa cafeteria como num bar de faroeste. Só falta a bota de cano largo. Pedimos duas doses de café com leite. Usamos uma voz grossa, distorcida, de Johnny Cash. Largamos nossos bonés na mesa, virados para cima, para mostrar a intenção de paz. Fixamos os olhos um no outro, já entendendo que o homem dá a mão quando se deixa olhar.

Somos adultos no amor. É preciso muita infância para ser adulto no amor. Apesar da cumplicidade, ainda desvalorizo seu raciocínio e omito as passagens que considero intrigantes. Ele sempre me devolve. O filme era Planeta 51, em que um astronauta pousa numa terra povoada por alienígenas simpáticos, com duas anteninhas na cabeça. O detalhe: o humano é, na verdade, o alienígena, o invasor de uma pacata cidade de carros voadores. Seus traços diferentes assustam aos mais ardentes adoradores de ficção científica daquela galáxia.

- Pai, quando o alienígena vê o astronauta nu diz que ele tem a antena em outro lugar.

O susto não foi sua frase, e sim a gargalhada. Sua risada indica a experiência no assunto. Presumi que o trecho tinha passado em branco. Foi rápido demais, como pescou? Ele me deixou preocupado. No fundo, não é que meu menino seja precoce, eu é que sou lento. Na maioria das vezes, os pais fingem que o sexo tem a mesma representação proibida e secreta de sua criação e mantém um boicote de palavras. Antigamente discordar era desobedecer. Hoje discordar é respeitar. Há a queda da autoridade paterna e materna de antes, não dá para afirmar que é assim e terminar o papo e não se discute mais. Muito menos mandar a criança para o quarto. Não há como educar por ordens. O que existe é influência, orientar e apresentar uma argumentação realmente eficiente. Sentar e detalhar, com paciência e disponibilidade, se possível com Power Point.

O filho não desistirá com contos de fadas. Ele quer o conto de fadas e a realidade para comparar.

Após bobear por um lapso de cinco minutos, confessei que era a minha piada favorita. Levantei a xícara, concluindo que não tínhamos mais nada para tirar do episódio. Meu filho sabe o que é sexo e como se faz, tudo bem, não ficarei com inveja dele, mesmo descobrindo que as cegonhas não entregavam os bebês somente aos nove anos. Mas ele retomou a sequência:

- O estranho é que se o alienígena repara que a antena do humano é na cintura, onde é o pinto do alienígena?

Pior é que eu não tinha alcançado esse desdobramento. Vou assistir de novo ao filme.


Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 72, Número 194
Janeiro de 2010

9 comentários:

Dandara disse...

menino inteligente e audacioso, esse vivente. deve ter puxado a mente boa do papi!

NaraBelmonte disse...

Sensacional! kkkkkkk Temos subestimado essas crianças de hj. mas elas nos supreendem a cada instante!

Adélia Carvalho disse...

É bom quando eles nos surpreendem assim, mas ao mesmo tempo é assustador. Brilhante.

Anônimo disse...

Amei o texto. Seu menino de ter feito vc escrever com uma leveza que me deu medo de altura.. rsrssr

Augusto Amato Neto disse...

Gosto muito de registros destes tipos de sacadas dos pequenos!

Fernanda Marra disse...

Kkkkkkk, hilário!!! Tenho um moleque de 11 meses e não vejo a hora de ele começar a falar... estou louca por essas saias justas!

Renata de Aragão Lopes disse...

"Cinema é conversar depois dele." Amei!

paulo valle disse...

bem boa!
menino bacana,
pai bacana.

GÊNERO CINEMATOGRÁFICO disse...

e o mais incrível por isso óbvio (ou vice-versa): "É preciso muita infância para ser adulto no amor."