segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SENTIMENTAL


Arte de Cy Twombly

Guardo ressalvas ortodoxas. Nunca botarei cinto e sapatos brancos. Nem colarei adesivo de Betty Boop na traseira de meu carro.

Antecipo meus preconceitos. Mulher palitando os dentes teria que usar burka.

Já me sinto aliviado ao confessar. Meu temperamento era mais complicado. Eu me vejo avançando, atingindo uma flexibilidade nos costumes que não percebo nas articulações dos braços.

Até acredito que poderíamos relaxar mais. Iniciando pela casa.

Toda residência solicita uma detalhe de espelunca. Um objeto inexplicável em cima do armário. Uma mandala que não combina com os bibelôs franceses. Um pôster do Michael Jackson junto às telas de tinta a óleo. Um brinquedo de kinder ovo ao lado da cristaleira. Extraviei a vocação conciliatória. Carrinhos de madeira com emblema do Inter dividem a renda da mesa com bonecos mexicanos. Conservo miudezas e trastes que nunca serão disputados num inventário.

Existe algo mais brega do que pregar espelho na porta para afugentar maus espíritos? Pois é o que faço. Funciona melhor do que um olho mágico. Muitos desistem de apertar a campainha.

Encontro harmonia no cemitério, encontro vazios no museu, casa é um espaço altamente contraditório. Não colocarei as incoerências nas gavetas. A vida é curta demais para ter sentido.

O bom de ser pobre é que tudo tem um lugar, mesmo na carência de espaço. Os presentes vão aterrissando, qualquer que seja sua origem, e têm um encaixe imediato nas estantes. Nenhum penduricalho é jogado fora, não importa se é estranho, esquisito, esdrúxulo, o que vigora é o valor emocional. Há um cuidado em preservar o gesto acima da utilidade ou do preço do produto.

O desastre de ser rico é que nada tem um lugar, mesmo com a sobra de espaço. Qualquer utensílio reivindica um estudo do decorador ou do arquiteto. Os casais mergulham numa discussão filosófica sobre a pertinência de uma escultura. Tanto que o rico somente compra terreno na praia para desovar todos os presentes preteridos em seu lar.

O amor deve prevalecer sobre a decoração. Não é saudável estar tudo certo, tudo adequado, tudo arrumado, tudo combinando. Réplicas da Indonésia merecem a companhia engraçada e saudável de um pinguim feito pela filha. Eu sei o significado daquilo, mais ninguém.

Relaxei com a neurose da ordem. Quando solteiro, sonhava com salas limpas, ventiladas, com cada objeto ecoando o estilo dos demais. Não suportava a intrusão de novidades. Não tolerava penetras de plástico, que não tinham no mínimo a idade de meu pai. Lojas de 1,99 causavam pânico.

Com o nascimento de minhas crianças, os limites desapareceram. A sala virou um chiqueiro, com telas de proteção e portinholas nas escadas. Brinquedos apareciam no sofá, chocalhos estrilavam entre os livros, bicos germinavam debaixo das mesas. Eu me abri para as delicadezas cafonas.

Ao receber um ursinho da namorada, não incinerei a pelúcia no primeiro churrasco. Não sofri vergonha dos amigos. Não me abalei se sacrificava a macheza da tenda árabe da cama. Nomeei o animal como guardião dos porta-retratos do quarto.

Estou numa fase sentimental. Acendo lembranças nos corredores, cada janela é um santuário. Nenhuma neutralidade me seduz. Desisto de ser chique enquanto a ideia permanecer como sinônimo de falta de personalidade.

26 comentários:

Woman of Stages disse...

Cara, tu escreves muito fantasticamente sobre coisas que todo mundo pensa, mas ninguém tem coragem de falar, ou nao vê necessidade nisso.
Eu acho absurdamente necessário!
Amo teus textos!

Principessa disse...

Outro dia um amigo me disse que o estilo da minha casa era tudo, menos "clean". Fiquei um pouco ofendida, mas depois de ler o se texto passei a encarar esse comentário como um elogio. Abraços!

@analuuiiza disse...

assino em baixo. adorei o texto. "absurdamente necessario" se dizer. :)

Anônimo disse...

Sou uma grande admiradora desta sua poesia/prosa . Outro dia traduzi um post seu do Twitter pro ingles, aquele sobre sinceridade e ternura e postei no twitter, com o devido crédito, com Fabricio e tudo.
Sentimental e de derreter-me.
Obrigada
@silviapoggetti

Uma tal Maria disse...

Divino!

Jonatan Lopes disse...

"Não colocarei as incoerências nas gavetas. A vida é curta demais para ter sentido."

Depois desta frase abri minha gaveta de cuecas e vi que elas não tinham sentido algum. Elas não serão mais as mesmas...

Parabém!

João Garrido disse...

O seu estilo de escrita é maravilhoso. Você transforma o simples e cotidiano em pura poesia. Parabéns! Seu blog é apaixonante!

Dalva M. Ferreira disse...

Hay que piensar sobre as coisas. O que possuimos de muamba é incrível! Belo texto, Carpinejar.

Rita Apoena disse...

É tão confortável, Fabrício. Parece uma poltrona de braços muito amplos e macios. Talvez, até fosse mesmo um abraço distraído.

Francieli Rebelatto disse...

Acender, reacender lembranças, é construir ainda mais sentido para elas, ou então, se dar conta que nada delas fazia sentido...

Gostei muito do texto....
Abraços!!!

Guto Leite disse...

Caro Fabro, sou admirador assumido desta tua fase sentimental! =) Talvez seja impressão acadêmica de leitor apressado (e nem seria prudente dizer, na verdade), mas to sentindo um amadurecimento de estilo muito grande do ano passado pra esse. Grandes mudanças, querido? Abraços, sobretudo.

Carolina disse...

A descrição perfeita de minha casa.
Senti-me aliviada. Você me deu argumentos para que não implique com dois vasos horrorosos q minha mãe ganhou de amigo secreto e por aí vai.

Giovana Baldissera disse...

Palavras sublimes, sempre!
(adoro muito isso aqui.)

GÊNIO!

Fernanda Marra disse...

Cara, você é meu ídolo das crônicas, sua capacidade de apreender o fugaz, o tempo em que se vive, o detalhe transitório é simplesmente genial!!! Vou continuar me exercitando no meu blog, quero ser assim quando eu crescer!

Grande abraço.

renataporto disse...

Também não gosto de coerências... prefiro ser contraditória, mas, ao mesmo tempo, me enxergar do avesso. Sempre!!! Beijos, lindo... continuo te curtindo de longe... suas palavras nunca me cansam... ao contrário, me ensinam e inspiram... beijocas..

Muryel De Zôppa disse...

é como disse prum caipira aqui: se sinto que você é inverso a escravisão narrativa, com certeza é resoluto sob desossos poéticos!!!! seu ovo mexido de manhazinha, melhor, seu suco é temperado com a água de Hipocrene? poetaço! abraços!!!

Renatinha Porto disse...

Também não gosto de coerências... prefiro ser contraditória, mas, ao mesmo tempo, me enxergar do avesso. Sempre!!! Beijos, lindo... continuo te curtindo de longe... suas palavras nunca me cansam... ao contrário, me ensinam e inspiram... beijocas..

Maria Tereza disse...

É por isso que eu continuo lendo Fabrício Carpinejar: pra ver se entra por osmose em minha pessoa como descrever muito bem as coisas do cotidiano. Com muita poesia. Ótimo texto. Bj! Maria Tereza =)

karina disse...

Na minha casa a decoração tem tres gerações, cada lembrança está acompanhada de um tempo , uma fase especial, um aluno me presenteou com um vaso feito de pet numa aula de artes. Disse que fez para lembrar-me sempre de "caramelos", que significava dizer que estava feliz! Como poderia me desfazer de tão valiosa obra de arte? A importancia nem sempre está nos valores, mas nas intenções de valores. São apaixonantes os teus textos.
Bj Karina Souza

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Casa não é lugar de estar. Casa é lugar de ser. E se o ser precisa ser povoado de coisas e palavras para não padecer do inevitável nada do seu assoalho, todas essas coisas e palavras devem se sobrepôr na desordem do conforto unicamente para ali estarem. Se os preconceitos do gosto refinado destilarem a vida desse sistema, resta apenas o ar congelado da silhueta de uma arquitetura vazia, transmutada em números e mandalas que apenas oscilam entre o medo e a banalidade. Aí sim as lembranças, ao invés de acenderem tão-somente corredores, acenderam cada ambiente, cada sofá surrado, cada bibelô sem sentido e cada ursinho de pelúcia de uma namorada passada ou presente para que digam de quem ali não apenas está, mas ali, ao contrário, é. Um abraço, Eduardo Matzembacher Frizzo (do blog http://insufilme.blogspot.com/).

Anônimo disse...

OI Fabrício. Leio seu blog há dois anos. E nos últimos meses esta mudando. Não é mais a mesma a poesia nos textos sobre a beleza do amor. da compreensao. das pessoas. da maturidade. "O coração não envelhece". (Madame de Sévigné)

Rita disse...

Com o nascimento de minhas crianças, os limites desapareceram. A sala virou um chiqueiro, com telas de proteção e portinholas nas escadas. Brinquedos apareciam no sofá, chocalhos estrilavam entre os livros, bicos germinavam debaixo das mesas. Eu me abri para as delicadezas cafonas.
Adoreeeeiiii!!! A partir de hoje, vou anotar esse parágrafo nos meus alfarrábios e decorá-lo para justificar o estilo de decoração da minha casa! Se alguém olhar a desordem com ar "suspeito", direi: " Gente, meu estilo é o mesmo do Carpinejar"!!! Chiquérrimo, né? kkk
Parabéns e bjs

Ela disse...

Eu também estou numa fase sentimental, e este texto foi mais do que perfeito.
Sem mais.

Anônimo disse...

Nunca tive vergonha da idade não corresponder aos brinquedinhos do Mac Lanche Feliz colecionados no carro (e que já me renderam perguntas sobre os "filhos" que ainda não tenho!rs)... da miniatura do Kung Fu Panda ou do Ursinho carinhoso dividirem o mesmo status na prateleira com a Clarice Lispector... Nada como estar cercado exatamente (como bem disseram acima) do que você é, no lugar em que é para SER! Só não vale extrapolar e se entulhar com o que nenhum significado tem. Porque aí, é mais que verdadeira a crença de que estagnamos a energia e não deixamos o novo entrar! Saber dosar, eis a questão!!

Nydia Bonetti disse...

Suas lembranças iluminam e aquecem nossas almas e corações... :)

Adélia Carvalho disse...

Eu também, já há algum tempo, abri mão de algumas 'belezas' pela delicadeza dos objetos que para mim, têm uma alma. Como sempre, lindo texto.