segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PSICOSE

Arte de Seymour Chwast


Os conselhos maternos são horríveis. É complicado apagá-los da cabeça. Adoçam a língua como um AAS infantil. Não resolvem a dor, simplesmente acalmam pelo efeito psicológico. São mandamentos que ecoam por todas as fases de nossa vida, sem expirar, com renovação automática de contrato.

Quando uma mãe fala, a respiração muda de frequência para guardar o apelo. A entonação cristaliza a frase. Demoramos a definir o que é conselho do que é ordem do que é simpatia do que é neurose.

Foram muitas advertências dadas pela Maria Elisa, minha mãe: não sente na pedra fria, não apanhe vento, cuidado ao atravessar a rua, retribua uma gentileza, reze ao chegar em casa, a primeira água do dia é benta, não coma melancia para nadar, não ponha mais do que deseja no prato, não tire fotografia de ninguém dormindo. Coisas óbvias e coisas estranhas misturadas, que não questionei, não argumentei, formavam desígnios divinos.

Uma delas é use sempre gasolina aditivada. Ouvi pela primeira vez aos nove anos e nem pensava em dirigir. Retomou o pedido aos 18, no instante em que recebi a carteira de motorista. Conclui que ela repetiria a sentença no intervalo de nove anos. Nem cismei em replicar e entender; atendi, de pronto, à sua reivindicação. Parecia um suspiro de leito de morte, conhecimento secreto de templários, juramento que renderia uma maldição caso desobedecesse.

Durante minha história, não empregava gasolina comum muito menos álcool.

No posto, entregava a chave e dizia com galhardia:

- Gasolina aditivada, por favor, enche o tanque!

Partilhava da aura de que tinha uma informação privilegiada. O combustível faria meu carro correr melhor e evitaria piratarias.

Mas minha namorada Cínthya estragou tudo (a vocação da mulher é contrariar a sogra). Teimou com a obsessão, como uma criança dissecando um pássaro. Argumentava que o preço não valia a pena, bem mais caro, que não havia lógica possuir um veículo flex e desprezar a vantagem.

Eu me apequenei, pois não desfrutava de explicação convincente, somente a de que minha mãe mandou. Seguia o método por três décadas. Em nenhum momento, suspeitei que estava errado. Fiquei brabo, enfurecido, tomei uma reação desproporcional:

- Minha mãe não me enganaria, ela disse e pronto!
- Ok, não me meto mais... E Cínthya chorou.

O único momento em que contrariamos nossa mãe é quando a namorada chora. Arrependido, prometi que iria tentar. Já reagia com a ansiedade de um alcoólatra avisando que não beberia mais gasolina aditivada.

Ela tratou de encerrar o dilema.

- Nada de mentiras, vamos a um posto agora.

O frentista se aproximou, olhava para ele, olhava para Cínthya, o frentista olhou para Cínthya, Cínthya olhou para o frentista, olhei para Cínthya olhando para o frentista olhando para mim.

- O que vai aí, senhor?
- Fala logo Fabrício. Fala... Você consegue.

Escoava da minha memória a mãe empurrando o balanço na praça, me levando ao médico para retirar curativo, me buscando na saída do colégio. Traía a dedicação do passado. Uma sucessão de lembranças virava ressentimento.
Do fundo do estômago resmunguei:

- Por favor, R$ 50 de álcool.

A namorada aplaudiu, cantou Beatles, festejou o empenho. Vidrada em sua alegria, não reparou quando abri a porta correndo e arranquei a bomba do frentista.

- Não mexe na minha mãe!

Não tocamos mais no assunto. Fingimos que apenas atravessei uma crise. Agradeci o silêncio.

Num dia ensolarado, acompanhando a mãe num passeio, descobri que ela nunca utilizou gasolina aditivada. Mas era tarde demais para mudar.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 135, Número 202
Setembro de 2010

18 comentários:

Anônimo disse...

Excelente reflexão... E olhe que ainda poderia se desdobrar em eternas leituras psicanalíticas sobre a possivel revelação edipiana na associação entre a "bomba" do frentista (pronta para disparar litros e mais litros de combustível) e a sugestiva fala: "não mexe com minha mãe"

Renata de Aragão Lopes disse...

Adoro como narra os episódios de sua vida!

J.R disse...

Parabéns Norman Bates!!!!!!!!!

Mai disse...

É uma loucura, essa loucura que as mães fazem com a gente.
"O único momento em que contrariamos nossa mãe é quando a namorada chora."
É fato! E toda namorada sabe disto. Mas as mães, ah!, Fabrício, as mães também mentem...

Adorei e sorri.

abraços

Paulo Ferrareze Filho disse...

Aconteceu o mesmo comigo quando uma namorada me fez perceber que, ao contrário do que tinha aprendido com minha mãe, era preciso escovar os dentes depois do café da manhã. Transformando o conhecimento psico-dogmático materno em conhecimento crítico por meio de um agente externo! hahaha
ABraço Fabrício

www.entrehermes.blogspot.com

Anônimo disse...

Adorei a crônica que me valeu um bom tempo de reflexão e ótimas risadas..., gostaria de registrar também, como desdobramento, que a namorada contraria a obediência dogmática do filho...

Cacá disse...

As mães são campeãs absolutas em aforismos. Um deles é o tal do "faça o que eu digo mas não faça o que faço." rsrs. Excelente! Abraços. Paz e bem.

Aline Patrícia disse...

Adorei... É interessante ver como as situações mais corriqueiras podem gerar enredos tão interessantes. É o que ocorre mais uma vez com esta crônica, a influência exercida pela mãe e, em contrapartida, o poder de decisão que a namorada pode ter na vida de um homem! ótima reflexão.

Carla disse...

Ola, muito prazer, sou sua nova leitora.
E uma aventureira na arte de escrever.
Gosto muito dos seus textos.
Neste vc escreve o cotidiano que vivemos e onde está sempre o passado materno.
Nenhuma namorada deveria dar opinião onde a sogra reina, não há jeito.
Acho que a relação dos homens com as mães é bem diferente das mulheres e suas mães. Por experiência própria, mesmo que a sogra possa estar errada, melhor deixar quieto.
abraços.

http://precisomeexpressar.blogspot.com/

Malu Machado disse...

Pior disso tudo é hoje ser mãe e ficar matutando se faço mais bem ou mal ao meu filho. Limpe as mãos, assoe o nariz, dobre a sua roupa. Nossa, é tenebroso vivenciar o "como os nossos pais" à flor da própria pele. Romper? Não acho possível. Talvez eu pague o analista dele no futuro.

Um abraço,

Malu - www.abbsinto.blogspot.com

bydonlook disse...

Ótima crônica!

carlota disse...

O dia que eu chorei foi no dia que meu filho ignorou minhas lágrimas pra secar as dela, mais o dia que eu chorei mais, muito mais ainda, foi no dia que chorei do lado dele por causa dela!

Aline Viana disse...

Esses conselhos que não fazem sentido são os piores: o preferido de minha mãe é rasgar as fotografias dos documentos antes de jogar fora, o motivo é que alguém poderia resgatá-las do lixão para nos fazer alguma macumba!

Infesta disse...

uma mania de minha mãe era a de não deixar fazer a "carteirinha da UNE", pois se a ditadura militar voltasse estaria "fichada" sem saber. e, por isso, sempre paguei ingresso cheio...
hoje, como mãe, não deixo meus filhos desfilarem com a escola no dia 7 de setembro. falo pra eles que isso é herança da maldita ditadura militar!
psicose?

Anônimo disse...

É impressionante como todo intectual, artísta etc em algum momento faz um texto, filme ou sei lá o que colocando a mãe numa situação de monstra opressora. Aliás começou com Freud essa saga. De fato, a culpa é sempre da mãe, afinal foi ela que deu a vida ao dito cujo, foi ela que começou tudo.
Na maioria das vezes acho cruel, em outras coloco na caixa do texto fácil ou filme de sucesso garantido. Wood Allen não me deixa mentir.
Os que foram abandonados pela mãe também a culpam e muitos se instalam no banco dos coitadinhos.
Então o mundo se divide em 2 grupos: os que tiveram uma mãe atenta e vivem sob o manto do sufoco e da opressão e os que foram abondonados pela mãe, coitadinhos...
Afinal, dá pra decidir? Eu sugiro que os oprimidos sejam coerentes e cortem relações com sua mães. E como foi necessário a presença de um pai (pelo menos por 10 minutos) para a pessoa "cometer" um filho, mudem o foco, liguem-se aos seus pais e quem sabe não fica tudo emocionalmente resolvido? Só os psicanalistas não irão gostar.

Aline Veingartner disse...

Poucas vezes segui um conselho da minha mãe e me arrependi depois.
Mas tem alguns que realmente...

GiNurse disse...

Mãe é tudo igual... a minha sempre me dizia nunca ponha o tenis sem meia. Bom, segui esse conselho como uma regra até que um dia a vi andando de tenis só que sem meia...

Daniela Fernandes da disse...

É claroo q esta vou ter q ler para meu namo..qualquer semelhança é mera coincidência...mas claro q espero que meu filho também faça o mesmo rsrs