sábado, 4 de setembro de 2010

SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?

- O que eu faria com R$ 85 milhões da Mega Sena -

Arte de Jasper Johns

Sempre que entregamos o cartão da Mega Sena, erramos a pergunta. Não deveria ser o que faria com a bolada, mas quem deixaria de ser. Porque não seria mais ninguém. Nada como uma fortuna para aniquilar uma personalidade. O pobre ainda recebe contas, o milionário nem isso. Não teria mais possibilidade de ser santo, um santo depende do sacrifício, um afortunado é apenas filantropo. Não exerceria mais a generosidade, a bondade surgiria como obrigação. Ou dá ou é avarento. Não seria mais pai, mas Papai Noel, materializando com um clique dos dedos qualquer sonho de consumo das crianças. Apagaria a chance de chegar em casa com um chocolate escondido entre os pães, a mortadela e o queijo e ser festejado pelos filhos. Não poderia reclamar que quase bati o carro ou ser consolado pela mulher diante do medo da demissão. Abandonaria o ofício, a graduação, assumiria a condição vitalícia de empresário. Não teria mais amigos, mas empregados. Não teria mais esposa, mas uma sócia. Não poderia puxar conversa, puxaria o talão. Não conheceria mesmo a cor do dinheiro, nunca estaria comigo. Passaria a desconfiar da mãe, do cachorro, numa paranóia constante, certo de que desejam se aproveitar de mim. Perderia o controle da situação. Ao organizar uma pelada, acabaria em campeonato. Ao fazer um churrasco, desbancaria em orgia. Quando destratado por um garçom, compraria o restaurante. Não lutaria por nada, mandaria. Se eu ganhasse R$ 85 milhões, simplesmente não existiria.

Apesar de tudo, não custa tentar. Preenchi meu bilhete.

Publicado no jornal Zero Hora
Geral, p. 32, N° 16448
Porto Alegre (RS), 04/09/2010

14 comentários:

Suziley disse...

Hehehehe...existir prá quê, não é?!! Hehehe...é a "fézinha" do bom brasileiro. Maravilha de texto. Um bom sábado, bom final de semana :)

Por que você faz poema? disse...

Dizem que para o rico ser bom, ele tem que ser pobre. Então já estou na vantagem.

Camila disse...

Tenho certeza q pouquissimos já se fizeram essa pergunta de modo correto.

Realmente..não existiria hahah..de uma coisa tenho certeza..não existiria mesmo porq não passaria mais a ser eu..
Mais q um belo texto..é formidável!
Beijooo

Descanso da Alma disse...

Verdade, o sonho de muitos brasileiros é deixar de existir...
Muitos não sabem que são as adversidades da vida que nos moldam e nos forjam para sermos cada mais melhores.

Sabrina Billo disse...

Amei o texto!!!

Professora Marlene disse...

O texto é TRIIII...AMEI...

Dorly Neto disse...

Carpinejar,

se me permite, vou imprimir esse texto e entregar nas mãos de todas as pessoas que estão lotando a fila dessa "roleta federal", em cada lotérica que passo aqui no Rio de Janeiro.

Obrigado pelas belíssimas palavras.

Dorly Neto.

Anônimo disse...

ba tri legal tche

Natália disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Malu Machado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Malu Machado disse...

Não é que um dia antes do sorteio, surtei? Vai que eu ganhe este prêmio? O que faria? Quem seria? Troquei de idéias com meu companheiro. Mudar de cidade? Largar o trabalho? Por um instante me dei conta de que não queria mudar nada de imediato(Estaria eu totalmente satisfeita com minha vida atual?) Meu companheiro lançou logo que chutaria o balde disso e daquilo. Fiquei assustada. Seria eu um balde?? Bom, não ganhamos. Mas pagaria para ver.

Vital disse...

um brinde às pequenas glórias.

Anônimo disse...

Quando jogo na Megasena acumulada ( sim, só jogo na Megasena quando tá acumulada prá mais de 20 milhões, menos não paga a pena sair pra´enfrentar fila de lotérica )torço prá não ganhar.
Incongruente? Talvez.
Mas,quando imagino o trabalhão que vai dar se eu ganho...
É como voce comentou.
Eu não serei mais eu mesmo!
Aquele que conheci desde que nasci.
Ou, em outras palavras, se eu ganho... eu MORRO!!!!
Então... torço prá não ganhar ( ou morrer ).
Quando eu morrer, saibam: Ganhei na Megasena acumulada!
Fui!
Anônimo como deve ser todo ganhador da Megasena acumulada (Nem mais meu nome posso usar!)

Giderclay Zeballos disse...

Belo texto!!