quarta-feira, 6 de abril de 2011

O CASAMENTO É MEU PLANO DE SAÚDE

Arte de Cínthya Verri

Quando passei a namorar uma médica, realizei um sonho. Finalmente poderia ser um hipocondríaco em paz; desfrutar de fontes privilegiadas, efeitos colaterais emprestados e dores extravagantes; usar as tarjas pretas e vermelhas como braceletes.

Teria repouso hospitalar dentro de casa, o luxo de uma caixinha de pronto-socorro atualizada. E nem dependeria de receita.

Eu só não havia morrido por desinformação, pois não conhecia um número suficiente de doenças para comparar os hábitos com os sintomas.

Envolver-me com uma médica renderia tranquilidade enciclopédica para sofrer, encontraria alguém que acreditaria em mim, que faria vigília durante os surtos na madrugada.

Cínthya significava teatro liberado no lar: a redenção das falsas febres da escola, dos fingidos desmaios da educação física, do mal-estar no recreio antes das provas.

Aquietava-me a perspectiva de que cada conversa fosse uma consulta. Levantaria o fone:

— Amor, estou tonto, com lábios secos e indisposição estomacal, o que tomo?

E ela me responderia, rápida e certeira, como portaria de hotel.

Para mim, médico não deve salvar, seu papel é crer somente na minha doença, ainda que seja inventada.

O que aconteceu com Cínthya foi o contrário. Ela é realista como o SUS. Nunca tem vaga. Nunca tem leito. Não me permite ficar enfraquecido, já me amaldiçoa. Diz que não me valorizo, e que ela não é uma babá. Assim, com grito e tudo, com o rancor da ternura. Muito mais veemente do que minha mãe e minha avó.

É bem provável que me bata se aparecer reclamando do cansaço — não arrisco, seu silêncio é impaciente para testá-lo com brincadeiras.

Ela me ama em excesso para aceitar que eu me destrua impunemente. Como marido de médica, espera que me cuide e dê o exemplo.

— Nem vem reclamar, é grandinho e não respeita seus limites.

Instala-se em mim uma orfandade. Em vez de contar qualquer coisa de errado, cabulo dores e enxaquecas, escondo formigamentos e sinais, apago as bulas nos olhos.

Não é exagero de minha parte. Nunca tenho certeza se ela está me acarinhando ou fazendo um diagnóstico. Talvez os dois, sempre. No último trimestre, ela estranhou meu apetite por chocolate, as alergias estranhas, a indisposição permanente, o peso súbito nas pernas, e desconfiou de diabetes. Encheu meus ouvidos semanas a fio em nome do exame de sangue — virou oração antes de dormir.

— É desse modo que se preserva?

Até que tomei vergonha, jejuei e cumpri o calvário no laboratório do hospital. Buscava um pouco de tranquilidade, o bônus de uma vida para gastar no fliperama das veias.

No dia seguinte, ao meio-dia, Cínthya telefona. Foi um aperto na garganta, vá que o resultado indicasse a doença.

— Amor?
— Sim, tá tudo bem?
— Não é diabético.
— Ufa, falei que não havia nada, vamos comemorar.
— Não!
— Que foi agora?
— Seu colesterol é de velho, 260, 260!, tem que reduzir os doces, a carne, o ovo…

Não tive saúde para ouvir as inúmeras restrições. O que fiquei sabendo é que toda médica odeia ser enfermeira.



Crônica publicada no site Vida Breve

21 comentários:

Retardado Sentimental disse...

E na esperança de construir um lar, rocurei um Engenheiro..
Pena que nossos alicerces não eram tão firmes!

Anônimo disse...

Excelente crônica! Quem nunca passou por uma situação destas? E, se fosse tão fácil, não seria gostoso...

Dani Gomes disse...

... E todo homem adora ser paciente! rs

http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

:J Borre disse...

Desisti de acreditar num tipo para estruturar uma vida a dois. Vivo só e ponto. Pelo menos por hoje.

Retardado Sentimental disse...

E hoje é um dia tão longo que até parece eterno. A vida só é solitária =/

Leandro Lima disse...

E quando se tem uma engenheira florestal?! o.0

Sandra Lopes disse...

Algum psiquiatra disponível???

ૐ 'Priiscylα disse...

Adorei a crônica, mas não entendo porque os homens acham que podem ter solução pra tudo !
Blog maravilhoso ! Seguindo.

Wayla Zardo disse...

Bom, sou enfermeira e ainda não desfruto do desconcerto certo da vida conjugal, mas, não me faltam telefonemas de ex namorado quando algo não vai nada bem na garganta, no joelho, na coluna, no estomago, enfim, no entanto, sou enfermeira que odeia ser médica..rsrsrs
Excelente cronica, como sempre.
beijos

ana disse...

A carência de uma pessoa se mede pelo tipo de relacionamento que ela procura. Um médico/a é aquele que cuida e consequentemente vai cuidar de nós. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes o que um médico quer é exatamente o contrário : ser cuidado, por isso escolhe essa profissão que rende muitos elogios, reconhecimentos e gratidão.

Mara disse...

"Colesterol de velho"??? Mto booom... hahaha...
A tacada final foi de matar o pobre paciente, hein?! Parabéns pelo texto. Como sempre, 10!

Eliane Ratier disse...

sou fã da Cinthia!!sem te abandonar.
Esta Ana tem razão, e não é que pode ser?

Anderson Borba disse...

Caro Fabrício, caros leitores!
Assim é o amor: às vezes precisamos do outro para sermos um pouco mais nós mesmos.
grande abraço a todos!
www.andersonborba.blogspot.com
www.twitter.com/afborba

Martha Helena disse...

A Ana "matou" a charada.Tua crônica interessante, humorada me prende sempre.
Adoro visitar teu blog que vou seguindo...


http://marthahelenaperdaseganhos.blogspot.com/

Anônimo disse...

Começo pelo que tu pareces ou pelo que tu és ???
W?

Anônimo disse...

3MuriloGraf(W?): ArteFala ArteCura ArteMuda

fabricio moraes disse...

não importa qual profissão seja, o importante e o sentimento que um tem pelo outro.

http://camilabcandrade.blogspot.com/ disse...

Adoro o teu blog. A gente se seguia lá no twitter, cancelei o meu. Abraços*

Margareth disse...

Oi Fabrício, você é demais, uma sutileza no quesito ensino-aprendizagem. Dois em um. Em um, você consulta no outro diagnostica. Na mistura de lucros, em plena cortina teatral todos podem ver texto benzendo texto. Em plena época em que a saúde deve a população, você realiza seu sonho, em namorar uma médica. Que dengo hein, Fabrício! O SUS anda sufocado, procura atender o todos com o que tem, até porque os fatos estão ai, expostos como vírus, fungos e bactérias, nas verdades vividas, vistas, contadas e recontadas. O melhor paciente da saúde somos nos, e o pior é a violência, que dita as ordens e oferecem, a cada esquina, seus requintes de crueldades, como exemplo temos as famosas balas que miram falsos alvos, bastões que ardem à derme dos inocentes, sprays de vários sabores, pimenta, morango, sangue, cebola, e ai sai desfilando no cardápio da violência, para vários atendimentos hospitalares. Belo sonho, não é Deus, mais escolheu o melhor funcionário, preocupado e dedicado, sempre a serviço do bem estar do paciente, embora que esqueça a verdade ou omita alguns sintomas que opte por uma doença. Fico feliz que assim como eu não tenha diabete, eu me cuido, embora já tenha dobrado o cabo da boa esperança, o meu aparelho digestivo há muito tempo não se estressa mais com as carnes, nem com a branca nem com a vermelha, ando em dia com os exames laboratoriais. Você é muito divertido, até para distrair os prováveis lapsos de loucura, inclusive nas madrugadas. Pois é Fabrício, não reclame, sonhos, elogios e atenções. A humanidade tem mania de ser de tudo um pouquinho, um pouquinho de médico, um pouquinho de padre, um pouquinho de juiz, de psicólogo, de conselheiro, de rezador, de político, de professor, de pai, de mãe, de louco... . Daí vem às consultas, diagnósticos e receitas, até porque, quem gosta, cuida, quer e fala bem.
Margareth.

Margareth disse...

Oi Fabrício, desculpa, só pra terminar. Não importa quem assuma a cena, a questão é que, além da humanidade com os seus de tudo um pouco, você, como os demais, já faz parte do seu patrimônio, por ser uma pessoa pública, o que justifica o reconhecimento e como forma de agradecimento aparecem os vulcões de elogios. Agora há quem diga que elogio é carência, eu não acho, até porque, se elogio fosse carência o mundo era pobre de afeto. Eu gosto de muita gente nesse mundo de meu Deus, e se pudesse, mandaria livros, cartas, e-mail, bilhetes, revistas e jornais, a internet seria um grão para os elogios, quem manda terem talentos e habilidades? E olhe que já mandei vários, é meu jeito, sei reconhecer o bem que fazem a humanidade, por isso, agradeço e ainda rezo por todos. Fabrício, Você lida com duas vidas, a pública e a particular, e para nos (fãs), que estamos de longe, o que interessa é a pública, pois a particular cada um cuida da sua, apenas torcemos para que as suas duas, estejam sempre em harmonia. Não importa quais os ligamentos que a vida tenha feito, o que interessa é o ofício que cada um disponibiliza para atender, ensinar, divertir, agradar e alegrar a humanidade. Acredito, que você de tanto receber elogios, já deve estar cheio e cansado, tanto que, um a mais ou a menos não importa, já virou rotina, cumprimentos diários, bom dia, boa tarde, boa noite, oi. Daí vem às dúvidas, as especulações, chacotas e julgamentos. Por mais que falem, o que serve é o que há no interior de cada um. O bom dos admiradores são as defesas que eles fazem espontaneamente, quando um fala mal, o outro rebate, e fala bem, rende papo, histórias e contos, com direito a esclarecimento, linha após ponto, mais que adianta? O barro já está seco. Olha Fabrício, gosto muito do que faço, do que tenho, do que sou, minha educação fala alto e junto com a minha consciência, como proteção tenho a minha fé, sei respeitar, já tenho o meu lugar e tomei o conselho das seis que serve para todas as horas: Não se iluda, que nada muda se você não mudar. Uma das manias que tenho, é fazer do outro um amigo, e vou continuar fazendo, pois acredito na humanidade, embora que considere a minha intuição, no final, quem manda, sempre é a razão. Acompanho o tempo, embora que para mim, ele seja o momento, continuarei como antes, bem antes, falo de anos a ocupar o seu espaço, assim como outros, pois gosto muito de você e adoro o seu ofício, pois ensina, distrai e diverte. E livrando a interrogação do O que é, o que é? Eu respondo Gonzaguinha para todos, pois a felicidade é o caminho da vida, e depois dela, o adeus.
Abraços de felicidades.
Margareth.

mg6es disse...

já me apaixonei por uma pediatra. um dia ela se foi e me deixou chorando feito um bebê.

ótimo texto!